A derrota acachapante de Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e a vitória histórica de Lula no Brasil representam muito mais do que dois resultados eleitorais. São um recado político de enorme dimensão para o planeta.
Nos dois maiores e mais importantes países das Américas, os eleitores sinalizam que não aceitam a imposição de uma ordem mundial unipolar, rejeitam a ideologia da supremacia branca e dizem não a projetos políticos que transformam imigrantes em inimigos, perseguindo-os, criminalizando-os e negando-lhes direitos fundamentais.
Mas há uma mensagem ainda mais ampla: os povos querem paz, querem o fim das guerras, das ameaças militares e das sanções unilaterais que comprometem o livre comércio e as relações entre as nações. Querem um mundo em que o diálogo e a diplomacia prevaleçam sobre a força, a intimidação e a imposição dos interesses de uma potência sobre as demais.
É também uma excelente notícia para a Organização das Nações Unidas, tão desprezada pela política externa de Trump. Abre-se uma oportunidade para que a ONU recupere o protagonismo e avance nas reformas necessárias para exercer um papel efetivamente preponderante na construção de uma nova ordem internacional, mais democrática, multipolar e comprometida com a paz, a soberania dos povos e a cooperação entre as nações.
Há, porém, um fenômeno ainda mais significativo em curso: uma onda de mobilização popular que cresce no Brasil, nos Estados Unidos e em diferentes países europeus, reunindo jovens, trabalhadores e amplos setores da sociedade. As manifestações de rua vêm atropelando o ritmo e, muitas vezes, a própria capacidade de resposta dos partidos e das lideranças políticas tradicionais.
O avanço de governos e projetos autocráticos, as ameaças às liberdades democráticas e os ataques aos direitos sociais estão levando multidões às ruas, em diferentes partes do planeta. É uma reação que ultrapassa fronteiras e ideologias partidárias e recoloca a participação popular no centro da disputa pelo futuro das democracias.
Na América Latina, a esperança é que essa onda de resistência democrática também interrompa o avanço dos governos alinhados incondicionalmente a Trump. A sucessão de vitórias eleitorais da extrema direita na região foi acompanhada por uma operação de influência política de Washington, conduzida por Marco Rubio, com apoio financeiro, diplomático e eleitoral a candidatos conservadores.
A estratégia chegou ao emprego direto da força militar no Caribe, culminando na operação contra a Venezuela. É a reedição, sob novas formas, de uma política histórica de intervenção dos Estados Unidos na América Latina.
Uma política que agora enfrenta sinais de resistência e pode começar a perder força diante das mudanças expressas nas urnas e nas ruas. Mais do que uma reação ao avanço da extrema direita, o que começa a ganhar forma nas urnas e nas ruas é uma disputa pelo futuro da humanidade.
E esse futuro não pode pertencer aos autocratas, aos senhores da guerra e aos donos do dinheiro. Tem de pertencer aos povos.
Brasil 247