Às vésperas da eleição, a lista da Forbes deixa um recado ao próximo presidente: ouvir as mulheres do agro também é garantir recursos à pesquisa e impedir novos cortes na Embrapa. Na sexta-feira que antecede o segundo turno da eleição presidencial, o Brasil discute quem ocupará o Palácio do Planalto a partir de janeiro.
Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro disputam votos, uma lista divulgada pela Forbes Brasil ajuda a lembrar quem já ocupa espaços estratégicos no agronegócio, ainda que nem sempre receba a mesma visibilidade de quem sobe ao palanque. São produtoras rurais, pesquisadoras, executivas, empreendedoras, dirigentes de cooperativas, representantes institucionais e mulheres que participam diretamente das decisões sobre crédito, tecnologia, mercados, produção e investimentos.
A segunda edição da lista “As 100 Mulheres Poderosas do Agro” foi divulgada no dia 15 de outubro, quando se celebra o Dia Internacional da Mulher Rural. A seleção reúne trajetórias de diferentes regiões, gerações e áreas de atuação.
Não se trata de um ranking da primeira à centésima mais poderosa. Com exceção dos dois primeiros nomes, a relação é apresentada em ordem alfabética.
A explicação é importante porque o poder no agro não cabe em uma única régua. Pode estar na assinatura de um financiamento, na decisão de uma cooperativa, no desenvolvimento de uma tecnologia, na condução de uma pesquisa ou na negociação que abre um novo mercado para os produtos brasileiros.
Na quarta-feira (21) o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, homenageou as mulheres vinculadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária, o Mapa, e à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, incluídas na seleção. Ao todo, dez profissionais ligadas às duas instituições integram a lista.
Entre elas estão a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá; a pesquisadora Mariangela Hungria; Iêda de Carvalho Mendes, da Embrapa Cerrados; Mariana de Aragão Pereira, da Embrapa Gado de Corte; Roberta Carnevalli, da Embrapa Soja; Débora Milori, da Embrapa Instrumentação; e Simone Palma Favaro, da Embrapa Agroenergia.
Também está na seleção, Ana Lúcia de Paula Viana, primeira mulher a ocupar o posto de adida agrícola do Brasil em Washington, nos Estados Unidos. Desde 2023, é ela quem participa da interlocução com o governo norte-americano em uma das relações comerciais mais importantes e, atualmente, mais delicadas para o agronegócio brasileiro.
Durante a homenagem, André de Paula afirmou que, mais importante do que integrar a lista, é ter o trabalho reconhecido em um país que ocupa posição central na produção mundial de alimentos. A presidente da Embrapa também chamou atenção para o peso da pesquisa.
Segundo Silvia Massruhá, nove profissionais da empresa, além de Ana Lúcia, representam juntas 10% das mulheres selecionadas pela Forbes. É um número simbólico, mas também revelador.
Em um setor frequentemente retratado apenas pela imagem da lavoura, do rebanho e das máquinas, a presença das pesquisadoras mostra que boa parte do poder do agro brasileiro também nasce dentro dos laboratórios. Um exemplo concreto está no trabalho de Mariangela Hungria.
As pesquisas conduzidas por ela ajudaram a ampliar o uso de bactérias benéficas na produção de soja, reduzindo custos com fertilizantes e levando tecnologia a milhões de hectares. Outro exemplo é Iêda de Carvalho Mendes, que está na Embrapa há quatro décadas e ajudou a desenvolver ferramentas capazes de medir a saúde biológica do solo.
Essas mulheres talvez não sejam conhecidas pelo grande público. Mas as tecnologias que desenvolveram chegam diariamente às propriedades e influenciam produtividade, custos e sustentabilidade.
É justamente essa uma das mensagens mais importantes da seleção. Influência não depende apenas de exposição pública.
Uma pesquisadora pode transformar uma cadeia inteira sem aparecer todos os dias diante das câmeras. No campo, resultado costuma falar mais alto do que holofote.
Santa Catarina tem três representantes na seleção: Ana Paula Zapelini de Melo, Giulia Fabrin Scussel e Tania Zanella. As três representam dimensões diferentes do agro catarinense e ajudam a mostrar que liderança feminina não se resume a uma única atividade.
Durante o doutorado em Ciência dos Alimentos na Universidade Federal de Santa Catarina, a UFSC, ela adaptou uma máquina de café expresso para extrair de amostras de peixes e frutos do mar contaminantes do petróleo que atingiu o litoral do Nordeste em 2019.Da solução criativa nasceu o primeiro protocolo oficial brasileiro para monitorar esses contaminantes no pescado.
A pesquisa rendeu a Ana Paula o Prêmio Capes de Tese em Ciência de Alimentos e o Grande Prêmio Ennio Candotti de Ciências da Vida. Em 2025, ela também passou a integrar a lista Innovators Under 35 Brasil, da MIT Technology Review.
A engenheira agrônoma de Chapecó tornou-se, em agosto deste ano, a primeira mulher a presidir a Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores de Santa Catarina, a Faasc. A entidade reúne 53 associações e atua em um momento especialmente importante para o mel catarinense.
De janeiro a julho de 2026, Santa Catarina liderou as exportações brasileiras, com aproximadamente 5,5 mil toneladas embarcadas. Giulia, conhecida como “Giulia do Mel”, defende a valorização da identidade do produtor, o fortalecimento da marca catarinense e uma maior participação das regiões produtoras nas decisões da cadeia.
É o tipo de liderança que nasce perto da produção e conhece as dificuldades de quem está na ponta. Entre as três representantes de Santa Catarina, Tania Zanella é quem mantém a relação mais direta com o centro das decisões políticas e econômicas do agro brasileiro.
Natural de Ipumirim, no Oeste catarinense, Tania entrou no Sistema OCB em 2008, como analista. Subiu degrau por degrau dentro da Organização das Cooperativas Brasileiras até se tornar, em dezembro de 2025, a primeira mulher a assumir a presidência executiva da entidade.
Hoje, representa um sistema que reúne aproximadamente 29 milhões de cooperados e que registrou R$ 848,4 bilhões em ingressos em 2025. Desse total, R$ 487,3 bilhões vieram do ramo agropecuário.
Tania também preside o Instituto Pensar Agropecuária, o IPA, responsável por reunir entidades, produzir estudos e oferecer suporte técnico às pautas defendidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso Nacional. Ou seja: sua atuação está exatamente no ponto em que produção, cooperativismo e política se encontram.
Esta é a segunda vez que Tania aparece na seleção da Forbes. Ela já havia integrado a primeira edição, em 2021.
Cinco anos depois, retorna à lista em uma posição institucional ainda mais forte, comandando a principal entidade de representação do cooperativismo brasileiro e participando diretamente das discussões sobre crédito, seguro rural, tributação, infraestrutura, regulação e políticas públicas.
Ao comentar o reconhecimento, Tania afirmou que a presença na lista também ajuda a dar visibilidade às mulheres que fazem o cooperativismo acontecer diariamente. E deixou um recado importante: ainda é preciso ampliar oportunidades e incentivar mais mulheres a ocupar posições de decisão.
Estar em uma lista da Forbes tem valor, reconhece trajetórias, inspira outras mulheres e amplia a visibilidade de profissionais que ajudam a sustentar o agronegócio brasileiro. Mas uma homenagem não significa que as barreiras desapareceram.
As mulheres continuam enfrentando dificuldades de acesso à terra, ao crédito, à sucessão familiar e aos cargos de comando. Em muitas propriedades, participam da gestão, das contas e do trabalho diário, mas não aparecem formalmente como responsáveis pelo negócio.
Nas empresas, entidades e organizações do setor, a presença feminina cresceu, mas os postos mais altos ainda são majoritariamente ocupados por homens. A própria lista mostra isso ao celebrar várias mulheres que foram as primeiras a chegar a determinados cargos.
Primeira presidente. Primeira dirigente.
Primeira adida agrícola. Primeira mulher em um conselho.
Primeira executiva a comandar uma entidade. É importante comemorar cada porta aberta, mas também é necessário perguntar por que tantas permaneceram fechadas durante tanto tempo.
É nesse ponto que a lista da Forbes encontra a eleição presidencial. Quem assumir o país em janeiro encontrará um agronegócio pressionado por juros altos, endividamento, dificuldade de acesso ao crédito, insegurança climática, gargalos de infraestrutura, barreiras comerciais e necessidade crescente de investimento em ciência e tecnologia.
As mulheres reconhecidas pela publicação atuam justamente nessas frentes. Elas conhecem a realidade da produção, desenvolvem tecnologias, comandam cooperativas, negociam mercados, cuidam da defesa sanitária e participam da formulação das políticas públicas.
Por isso, não basta que o próximo presidente faça discursos sobre a importância das mulheres no campo. Será necessário garantir presença feminina nos ministérios, nas empresas públicas, nos conselhos, nas mesas de negociação e nos espaços em que são definidos o Plano Safra, o orçamento da pesquisa, o seguro rural, a defesa agropecuária e a abertura de mercados.
As mulheres do agro não precisam que alguém lhes dê voz. Elas já têm voz, conhecimento, resultado e capacidade de liderança, o que precisam é ser ouvidas.
No domingo, o Brasil escolherá o próximo presidente. A partir de segunda-feira, a cobrança será para que o vencedor entenda uma realidade que a Forbes apenas colocou no papel: o poder do agro brasileiro também é feminino.
E já passou da hora de ele aparecer não apenas nas listas, mas também nas cadeiras onde o país decide seu futuro.
ND Mais