As batalhas que mostram polarização histórica no Brasil: de atentado a presidente, às revoltas e guerras

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Fonte da notícia: Correio Braziliense Correio Braziliense

Enquanto apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) e de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se dividem nas redes sociais em grupos chamados de "Tropa do Flávio" e "Exército do Lula", tais nomes revelam um grau de polarização que vai entrar para a história, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.Flávio e Lula concorrem à presidência do Brasil, em uma disputa que será definida no segundo turno, neste domingo (25/10)."A história do Brasil sempre acompanhou as polarizações, que vão desde a dialética do senhor e escravo, do império e república, dos monarquistas e republicanos, da ditadura ou democracia, do voto direto ou indireto", aponta o sociólogo Giuliano Salvarani, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)."Mas acredito que Lula e Bolsonaro [Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro] protagonizaram talvez a maior polarização da nova República [período posterior ao fim da ditadura, depois de 1985]." Novo app da BBC News Brasil: receba nossos alertas, vídeos e análises. Baixe aqui na Google Play Store (Android) e aqui na App Store (iOS). Há um entendimento de que o cenário atual, incensado pelo dinamismo das redes sociais e a lógica dos algoritmos, favorece as trocas de farpas e discursos de ódio, em detrimento dos debates argumentativos."Uma coisa é ter espectros políticos distintos, que se consideram adversários e se contrapõem, parte do jogo democrático", comenta o historiador Fábio Ferreira, professor na Universidade Federal Fluminense (UFF) e criador do canal no YouTube e da revista Tema Livre. "Outra coisa é odiar profundamente [o divergente] e querer aniquilá-lo."A cientista política Mayra Goulart, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nota paralelos entre a polarização atual e os contextos que levaram ao movimento tenentista, à Revolução de 1932 e à Guerra Fria, quando havia uma oposição mundial intensa entre o mundo capitalista e o mundo socialista. O que muda agora, pontua ela, é a "capilaridade" proporcionada pelas redes sociais.Com a ajuda de pesquisadores, a BBC News Brasil reuniu alguns dos principais episódios de polarização no Brasil desde o final do século 19.Uma República que já nasce turbulentaMal começou a República, em 1889, e já havia "embates duríssimos" entre grupos políticos, afirma o sociólogo e cientista político Rodrigo Prando, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.Os primeiros anos pós-Proclamação da República foram repletos de movimentos oposicionistas. Havia uma tensão social contra não necessariamente o novo regime, mas a maneira como a hoje chamada República Velha (1889-1930) se organizava: com um poder centralizador na mão de militares baseados no Rio de Janeiro.Às vezes, esses conflitos resultavam em violência, como a sangrenta Revolução Federalista, também chamada de Guerra da Degola, em que tropas do sul do país lutaram pela deposição do presidente Floriano Peixoto — o segundo presidente do Brasil, governando entre 1891 a 1894. Os sulistas buscavam mais autonomia administrativa frente a um governo que buscava uma gestão centralizada da República. O conflito deixou 10 mil mortos.Na então capital federal, houve ainda Revolta da Armada, resultado da polarização entre a Marinha e o Exército. Os militares marinheiros eram contra o governo republicano instituído, tachando-o de autoritário. Já o Exército se manteve majoritariamente fiel a Floriano Peixoto"A crise política foi muito grave. As duas forças que controlavam o poder de destruição [do país] estavam brigando", afirma Ferreira.Ambas as revoltas foram controladas e seus revoltosos, reprimidos pelo governo — não à toa, Peixoto ganhou a alcunha de "Marechal de Ferro". Mas as tensões não terminaram na sua gestão.Ely Carneiro de Paiva, professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que as rivalidades na época iam muito além de insultos — tratava-se de "retirar a legitimidade do adversário"."O adversário deixa de ser alguém que defende outra política e passa a representar uma ameaça à República, à pátria, à ordem ou à própria sobrevivência do regime. A partir daí, a radicalização vai aumentando até culminar com o atentado ao presidente", contextualiza Paiva, autor do livro 1897: A República Polarizada e o Atentado Contra Prudente de Morais.Terceiro presidente do Brasil e o primeiro civil no posto, Prudente de Morais governou entre 1894 e 1898. Em 1897, houve a combinação particularmente explosiva de polarização, desinformação, demonização do adversário, imprensa partidária e violência política. Com uma República extremamente jovem, monarquistas continuavam politicamente ativos, mas a principal disputa ocorria entre os próprios republicanos, explica o pesquisador. Arquivo Nacional Festejos do quinto aniversário da Proclamação da República e posse de Prudente de Morais, que sofreu um atentado De um lado, civis buscavam consolidar a República constitucional com base federalista, garantindo poderes para elites estaduais. De outro, os chamados jacobinos florianistas, que cultivavam a memória de Floriano Peixoto, exaltado por eles como um governante capaz de impor a ordem pela força. Esse grupo defendia um governo imponente e centralizador, com ampla participação dos militares.Para agravar o cenário, Morais era acusado de fraco — principalmente pelos maus resultados das Forças Armadas contra os revoltosos da Guerra de Canudos, insurreição messiânica-monarquista que ocorria no sertão da Bahia.Em 5 de novembro de 1897, durante uma cerimônia de recepção às tropas que haviam derrotado os revoltosos de Canudos, o presidente foi alvo de uma tentativa de atentado. Marcelino Bispo de Melo, jovem praça do 10º Batalhão de Infantaria, apontou uma garrucha contra ele, mas não conseguiu atirar. O ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt, e o chefe da Casa Militar, coronel Luiz Mendes de Moraes, tentaram deter o agressor — que, armado com uma faca, feriu o coronel e matou o marechal."A investigação procurou reconstruir a rede política por trás do atentado. Cartas comprometedoras haviam sido queimadas na própria noite do crime, dificultando para sempre a determinação precisa da extensão da conspiração. Políticos importantes chegaram a ser implicados nas investigações", conta Paiva.No fim, ficaram as controvérsias."O atentado, porém, alterou a política brasileira. Prudente de Morais, até então desgastado, recuperou sua popularidade e fortaleceu a candidatura de Campos Sales, que seria eleito seu sucessor. Com ele viria a Política dos Governadores e uma nova arquitetura de poder, baseada nas oligarquias estaduais, que marcaria a Primeira República, até 1930", contextualiza Paiva.Era a "República do Café com Leite". As surreais eleições dos anos 80 e 90 em que uma marca de cerveja estampou as cabines de votação no BrasilDo voto feminino à habitação popular: quem foi Carmen Portinho, pioneira do feminismo no Brasil Insatisfações formam o Tenentismo e a Coluna PrestesNas primeiras décadas do século 20, a chamada República Velha havia se assentado sob um formato de alternância de poder entre elites paulistas (representadas pelo café) e mineiras (representadas pelo leite). As eleições eram controladas pelo chamado voto de cabresto, em que lideranças regionais forçavam as suas bases a votarem conforme seus interesses. Nesse contexto, jovens militares de classe média se revoltaram.O estopim foi uma notícia falsa. Na campanha presidencial de 1922, acabaria divulgada uma carta falsamente atribuída ao então candidato Artur Bernardes com ofensas ao seu oponente, Nilo Peçanha, e aos militares."O episódio desmoralizou de vez a República aos olhos da jovem oficialidade e culminou no levante dos 18 do Forte, em 5 de julho de 1922, ato que deu origem ao tenentismo e tornou o Exército ator político permanente na história subsequente", diz o sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.Esse levante foi uma marcha dos tenentes contrários ao presidente eleito, Artur Bernardes, e à maneira como as eleições ocorriam no Brasil. Também criticavam a corrupção e a concentração do poder nas oligarquias paulistas e mineiras. A revolta terminou com os líderes alvejados em tiroteio, mas a insatisfação social e o clima de polarização entre o governo Bernardes e os militares que queriam reformas estava se sedimentando.Dali nasceria a Coluna Prestes, grupo que queria mudanças estruturais na República, incluindo a instituição do voto secreto nas eleições e o fim da tal política do café com leite. De 1924 a 1927, eles marcharam 25 mil quilômetros pelo Brasil, arrebanhando seguidores. O movimento nunca foi derrotado militarmente, mas acabou se dispersando, desgastado, com o passar do tempo.Vargas: do golpe ao suicídioBaptistini aponta para outro ciclo de polarização: o período que vai da campanha da chamada Aliança Liberal, às revoluções de 1930 e 1932 e à Era Vargas.O movimento Aliança Liberal arregimentou forças oposicionistas em torno das candidaturas de Getúlio Vargas, então presidente do Rio Grande do Sul, à presidência, e João Pessoa, presidente da Paraíba, à vice-presidência. A aliança opunha-se a Júlio Prestes, candidato apoiado pelo presidente Washington Luís, e defendia reformas políticas e eleitorais, além de medidas de proteção aos trabalhadores. Mas, com a derrota nas eleições de março de 1930, parte dos integrantes da Aliança Liberal aderiu à insurreição armada que, em outubro daquele ano, depôs Washington Luís e levou Vargas ao poder: era a Revolução de 1930.A aliança uniu, pela primeira vez, a oligarquia que produzia para o mercado interno e as forças urbanas emergentes, impulsionadas pela industrialização. Do lado oposto, estavam as oligarquias tradicionais, ligadas ao mercado externo e ao café.Para especialistas, Getúlio Vargas acabou ascendendo porque se apresentou como o "fiador" de um encontro possível entre esses "dois Brasis". Mas as rusgas estavam criadas e seria difícil um governo sem insatisfações.Com a Revolução de 30, encerrou-se o período conhecido pelos historiadores como República Velha e inaugurou-se uma nova fase da história brasileira, com a centralização do poder federal e mudanças na organização política, econômica e social do país.Mas, pouco depois, veio uma nova turbulência: em São Paulo, a Revolução de 1932 se opôs a Vargas, exigiu uma nova Constituição e pediu maior autonomia para o estado."Diversos setores da sociedade paulista pegaram em armas e fábricas foram destinadas à produção de material bélico", destaca Ferreira.Segundo o historiador, os revolucionários paulistas costumavam dizer "por São Paulo, com o Brasil, se for possível; por São Paulo, contra o Brasil, se for preciso"."Tudo se encaixa bem no que entendemos hoje como polarização", avalia. "Era um polo contra Getúlio Vargas."Apesar da mobilização de voluntários e do apoio de diferentes setores da sociedade paulista, os revoltosos não conseguiram a adesão militar esperada de outros estados e foram derrotados em outubro. A derrota, porém, aumentou a pressão pela constitucionalização do país, contribuindo para a realização de eleições para a Assembleia Constituinte em 1933 e para a promulgação de uma nova Constituição em 1934.Sobretudo entre 1935 e 1938, o governo Vargas continuou convivendo com tensões, dessa vez resultantes da oposição entre a Ação Integralista Brasileira, grupo de inspiração fascista; e a Aliança Nacional Libertadora (ANL), com forte influência comunista.A rivalidade atingiu o ápice com o fracasso da Intentona Comunista, tentativa de golpe militar por forças da esquerda, em novembro de 1935. Esse acontecimento serviu de pretexto para o presidente Getúlio Vargas fechar a ANL, decretar estado de sítio e instaurar uma ditadura em 1937, o Estado Novo."O clima de pânico anticomunista foi habilmente explorado por Vargas e pelos próprios integralistas", diz Paiva.Durante o período ditatorial, até 1945, a polarização foi artificialmente extinta por um governo autoritário que sistematicamente proibiu a oposição. O fim dessa fase autoritária fez alvorecer o antigetulismo, sentimento capitaneado pelo partido da União Democrática Nacional (UDN) — do lado oposto ao trabalhismo do PTB de Vargas. O jornalista Carlos Lacerda se tornou um ícone do antigetulismo."[Ele] Utilizava uma retórica extremamente agressiva e a metáfora do 'mar de lama', sugerindo corrupção", diz Paiva. "Não se tratava simplesmente de afirmar que determinado ato do governo era errado: construía-se uma representação do governo como algo moralmente contaminado."Quando Vargas voltou ao poder pelas vias democráticas, o clima já dava sinais de instabilidade. Em pouco tempo, pressionado, ele acabaria se matando, em 1954. Domínio Público Getúlio Vargas e João Goulart (à dir.), em foto sem data; os dois enfrentaram a polarização em seus respectivos governos Pré-golpe militarOs anos que antecederam a ditadura militar iniciada em 1964 foram marcados por controvérsias e uma sociedade altamente dividida. O presidente Jânio Quadros fez um governo curto e meteórico. Renunciou em 1961 e foi substituído por seu vice, João Goulart, o Jango — que acabou ganhando pecha de esquerdista naquele contexto histórico."No governo Jango, o anticomunismo era muito latente. E embora o presidente não fosse comunista, naquele contexto de Guerra Fria, parte da população acreditava nisso", diz Ferreira.Contribuíram para a instabilidade as chamadas reformas de base — propostas de mudanças estruturais feitas por Goulart em áreas como política, tributária, agrária, urbana — e a crise do parlamentarismo em 1961.Isto porque a renúncia de Quadros e a resistência dos ministros militares à posse de Jango, naquele momento em viagem oficial à China, criou uma forte tensão política. Para evitar confronto, o Congresso aprovou uma emenda constitucional instituindo o parlamentarismo, reduzindo os poderes de Jango e transferindo parte de suas atribuições ao primeiro-ministro. Assim, Goulart tomou posse em 7 de setembro de 1961, tendo Tancredo Neves como chefe de governo. A solução permitiu contornar o impasse, mas limitou os poderes do novo presidente; em janeiro de 1963, um plebiscito restaurou o presidencialismo, devolvendo a Jango plenos poderes presidenciais.A sociedade também se mostrava dividida nas ruas. Houve o Comício da Central, pró-reformas de Jango, e a Marcha das Famílias com Deus Pela Liberdade, a manifestação dos conservadores.Para Baptistini, a grande imprensa e setores empresariais atuaram naquela época em "papel análogo ao que hoje exercem as plataformas digitais e certas mídias corporativas na manipulação da radicalização da opinião pública" — no caso, estimulando o anticomunismo.Então, com o apoio de segmentos da sociedade civil, os militares tomaram o poder."Esse golpe de 1964 é a vitória de um dos polos. A ditadura não resolveu o antagonismo, mas congelou-o por 21 anos e o devolveu à sociedade, intacto, no processo de abertura", diz Baptistini.Petistas e tucanos, lulistas e bolsonaristas Adriano Machado e Pilar Olivares/Reuters Agora, a oposição entre 'lulistas' e 'bolsonaristas' ganha um novo capítulo com a disputa em segundo turno entre Lula e Flávio A redemocratização pós-ditadura organizou os polos antagônicos do país ao redor da urna. Na primeira eleição presidencial direta, que opôs Lula e Fernando Collor em 1989, o anticomunismo fomentou o que ficaria conhecido mais tarde como antipetismo.A partir dos anos 1990, com a eleição de Fernando Henrique Cardoso e a consolidação do PSDB como uma grande força política no país, a rivalidade nacional passou a ser protagonizada por tucanos (membros do PSDB) e petistas. Eles polarizavam nas urnas de forma competitiva, mas dentro dos limites institucionais, define Prando.Mas veio uma nova era de rivalidade: entre os apoiadores de Lula, os "lulistas", e os apoiadores de Jair Bolsonaro, os "bolsonaristas". Uma oposição evidenciada pelo segundo turno das eleições a ser realizado neste domingo (25/10), em que Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, disputa com Lula a presidência.Os especialistas apontam para os antecedentes que levaram a essa nova rivalidade, como a renovação do antipetismo nas grandes manifestações de 2013, no impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e na Lava Jato. Esta operação e seus desdobramentos em ações judiciais atingiram vários políticos petistas e aliados e levaram Lula à prisão em abril de 2018. Naquele ano, ele não pôde concorrer à presidência e seu candidato, Fernando Haddad, acabou derrotado por Jair Bolsonaro na eleição.Lula deixou a prisão em novembro de 2019. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações ao concluir que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar seu caso.Com isso, Lula recuperou seus direitos políticos, e, em 2022, derrotou Jair Bolsonaro (PL) na corrida presidencial. Em 8 de janeiro de 2023, após a derrota, apoiadores de Bolsonaro depredaram prédios públicos em Brasília.Posteriormente, investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal (MPF) revelaram evidências de uma trama golpista liderada por Bolsonaro, que foi condenado a mais de 27 anos de prisão por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.Para Ferreira, assim como Bolsonaro conseguiu captar o antipetismo e arregimentar a direita radical, Lula passou a enfatizar, a partir de sua volta à disputa presidencial em 2022, sua colocação como alguém capaz de derrotar o bolsonarismo, aglutinando a centro-esquerda."São momentos de posicionamentos políticos muito marcados. E os apoios são aglutinados a partir das rejeições", diz o historiador.A eleição atual que o diga: pesquisas de intenção de voto têm mostrado que a rejeição aos candidatos do PL e do PT ultrapassa a casa dos 40%. Segundo números do Datafolha divulgados no último dia 15, Flávio Bolsonaro é rejeitado por 44% dos eleitores e Lula, por 46%.

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