Toda eleição funciona como um raio X do sistema político. A de 2026 pediu ressonância magnética, e o laudo renderia menos uma coluna do que um seminário.
Registro aqui as lições principais. A primeira diz respeito à informação.
A Justiça Eleitoral merece crédito por ter contido, no primeiro turno, a desinformação e o uso de inteligência artificial em nível inferior ao de 2022. No segundo turno, com a disputa empatada nas pesquisas, a enchente voltou.
O “Exército do Lula” e as tropas de Flávio, organizados com lógica militar, despejaram nas redes um volume que nenhum controle consegue drenar. O tribunal tira cada anúncio do ar, mas pouco pode diante da maré.
A segunda é o uso da máquina pública. O Gastômetro do Estadão soma 354 bilhões de reais em medidas lançadas ou ampliadas no ano eleitoral, entre elas o reajuste de 15% do Bolsa Família a duas semanas do primeiro turno.
A conta agrava um quadro fiscal já delicado e ficará para o próximo presidente. Roseann Kennedy chamou o fenômeno de “uma espécie de compra de votos institucionalizada”.
A ironia é histórica. Em 2004, o TSE cassou o senador João Capiberibe, acusado de comprar dois votos a 26 reais cada; o mesmo gesto, em escala nacional, recebe hoje o nome de programa social.
Se a lei pune quem paga 52 reais e tolera quem movimenta bilhões às vésperas da votação, o modelo precisa ser revisto. A terceira envolve os debates.
Como não são obrigatórios, o primeiro turno terminou sem confronto direto entre os líderes. O da Band, no dia 18, desceu ao nível da arquibancada, com marqueteiros discutindo no palco, aliados dos dois lados aos gritos, Pablo Marçal soprando instruções ao candidato e a primeira-dama reagindo da plateia como quem assiste a uma briga de recreio.
Regras mais duras no debate da Globo, marcado para o dia 23, podem conter os excessos, mas a origem do problema é outra. Continua após a publicidade
“A Justiça Eleitoral merece crédito por ter contido, no primeiro turno, a desinformação e o uso da IA” Restam as lições mais amargas.
A guerra jurídica converteu a eleição em litígio. A campanha de Flávio já move sete ações pedindo a cassação da chapa de Lula, e a campanha petista responde com pedidos contra a chapa adversária, inclusive acusando a Meta de manipulação algorítmica.
O resultado ameaça deslocar-se da urna para o tribunal. Um quarto do eleitorado ficou de fora: 21,08% de abstenção, a maior desde 1998, somada a quase 6 milhões de votos brancos e nulos.
O mapa partido, com Sul, Sudeste e Centro-Oeste de um lado e o Nordeste de outro, tende a produzir um mandato sem base nacional diante de um Congresso em que o PL terá as maiores bancadas de um partido desde 1988. Continua após a publicidade
Somadas, essas mazelas contam uma mesma história, e ela começa na reeleição. Instituída pela emenda de junho de 1997, aprovada sob denúncias de compra de votos, a regra faz do governante um candidato com o Estado a seu serviço.
O próprio Fernando Henrique, seu primeiro beneficiário, admitiu que foi um erro. Acabar com ela deveria ser a primeira reforma do próximo mandato.
Até lá, o presidente candidato deveria licenciar-se e deixar o governo ao vice, sem avião da FAB, sem anúncios do Planalto e sem vídeos gravados com estrutura pública. O eleitor decide no domingo.
Ao Congresso que sai das urnas caberá decidir se a próxima eleição será disputada sob a mesma regra. Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018
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