Surpreendente, a vitória de Douglas Ruas (PL) em primeiro turno para o governo do Rio, confirmada nesta quinta-feira pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), driblou uma série de reveses acumulados nos últimos seis meses. O presidente da Assembleia Legislativa não conseguiu ficar à frente da máquina estadual como interino antes da campanha, viu Eduardo Paes (PSD) esvaziar sua aliança e, ao ter a carreira política e empresarial escrutinada, virou investigado pelo Ministério Público.
Entrevista: 'Foi um erro de Paes achar que Castro seria uma bigorna', diz marqueteiro de Douglas Ruas Última tentativa: Paes vai ao STF contra decisão Em março, quando o ex-governador Cláudio Castro (PL) costurou a renúncia para a véspera do julgamento em que seria cassado pelo TSE, o plano do partido era que Ruas — então secretário de Cidades, mas com mandato de deputado estadual — fosse eleito presidente da Alerj para assumir imediatamente como governador. O estado estava sem vice, e o chefe da Assembleia, Guilherme Delaroli, era interino, o que o fazia não ser incluído na linha sucessória do governo. O Supremo Tribunal Federal (STF), no entanto, deu uma série de decisões que mantiveram até hoje o presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, à frente do Palácio Guanabara. Ruas foi afetado pela análise de que a fila sucessória deveria ser considerada no momento da vacância, ou seja, no dia em que Castro renunciou. Naquele momento, o primeiro da linha era Couto.
Sem assumir a máquina e poder se tornar conhecido antes do período eleitoral, o deputado do PL viu Paes ganhar o que se chama de perspectiva de poder. Líder isolado nas pesquisas, o político do PSD atraiu prefeitos e partidos que queriam estar perto de quem achavam que seria o vencedor da eleição.
O principal impacto disso foi visto na formação das alianças para a disputa. O PL acabou isolado com uma chapa “puro-sangue”, sem abrir espaço a outros partidos. Nas semanas finais de fechamento do registro de candidatura, Paes conseguiu fazer a federação PP-União, antes acertada com Ruas, optar pela neutralidade. Ao mesmo tempo, o fato de ser desconhecido fez Ruas passar por um amplo escrutínio de sua vida política e empresarial. O GLOBO, por exemplo, revelou informações sobre obras da secretaria comandada por ele com indícios de conflito de interesse. Uma auditoria da Controladoria-Geral do Estado (CGE), na gestão Couto, apontou uma série de irregularidades na pasta durante a gestão de Ruas. Esse documento, também revelado pelo GLOBO, fez o Ministério Público abrir uma investigação contra ele por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A despeito de todos esses reveses, o candidato do PL conseguiu ser o mais votado do estado no domingo. Observadores se dividem sobre os motivos que levaram Paes a um desempenho abaixo do esperado — inclusive na capital —, mas é consenso que a nova onda de direita beneficiou o deputado, que é colega de partido e de palanque do presidenciável Flávio Bolsonaro.
Paes tentou a todo momento vincular Ruas a Castro para explorar a rejeição ao ex-governador, que, depois de cassado pelo caso Ceperj, foi alvo de investigações da Polícia Federal nos casos Master e Refit. — Foi um erro (de Paes) achar que Castro seria uma bigorna. Uma coisa é entender que o ex-governador sofria desgastes, outra era querer colocá-lo como essa bigorna. Ele não foi — avaliou em entrevista o marqueteiro de Ruas, Paulo Vasconcelos.
O Globo