Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) em 'O outro lado das redes' Divulgação O gênio nerd trocou a cadeira gamer do alojamento da faculdade por um assento na mesa dos poderosos. Saiu de trás do computador e mostrou a face de capitalista implacável, manipulador e egocêntrico. Esta é a visão atual de Hollywood sobre fundadores de grandes empresas do Vale do Silício como Mark Zuckerberg (do Facebook, atual Meta, escrutinada em “O outro lado das redes”), Sam Altman (da OpenAI, dona do ChatGPT, inspiração de “Artificial”) e Elon Musk (de X, Space X e Tesla, tema de “Musk”). Em ficção ou documentário, esta tríade — e mais Elizabeth Holmes, fundadora da start-up de saúde Theranos, cerne de “You can see everything” e presa nos Estados Unidos por fraude — é retratada menos como gênios iconoclastas e mais como peças centrais de instabilidade de democracias ocidentais. A Meta de Zuckerberg, por exemplo, foi acionada judicialmente no Brasil por favorecimento a Flávio Bolsonaro na campanha eleitoral brasileira e reconheceu, na sexta-feira, falhas que impactaram a produção e divulgação de conteúdos relacionados a Lula nas redes sociais. —A quantidade e o tom destes filmes mostram o quanto as coisas mudaram. Essas figuras são vistas hoje não só como pessoalmente antipáticas, mas como alguns dos principais vilões da sociedade atual — diz o jornalista americano Max Fisher, em entrevista ao GLOBO, autor de “A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram a nossa mente e nosso mundo” (Editora Todavia, com tradução de Érico Assis). — Se não como heróis, antes eles eram mostrados, pelo menos, como figuras fascinantes, que transformaram o mundo com uma start-up de internet. Arquivos confidenciais Exemplo desta mudança de rumo está “O outro lado das redes”, em exibição na Mostra de Cinema de São Paulo e, a partir de quinta-feira, em circuito nacional — da leva, o menos bem recebido pela crítica. Visto como continuação de “A rede social”, filme de 2010 sobre Zuckerberg e a fundação do Facebook (embora Aaron Sorkin, roteirista oscarizado pelo primeiro e agora também diretor do segundo, não o considere uma sequência), a ficção, baseada em fatos, foca nos Facebook Files. O episódio, em 2020, consistiu no vazamento de documentos para a imprensa por uma ex-funcionária, provando a omissão deliberada da empresa em questões pouco republicanas, como disseminação de fake news e discurso de ódio. Agora interpretado por Jeremy Strong porque Jesse Eisenberg, protagonista em 2010, não quer mais ter sua imagem ligada a Zuckerberg, o bilionário é mostrado como um gestor robótico, centralizador e insensível. Um típico tech bro, como os americanos gostam de se referir, pejorativamente, aos ricaços dessa indústria. — Um tech bro é, basicamente, um homem que trabalha na indústria de tecnologia e que também exibe comportamentos estereotipadamente masculinos — diz, ao GLOBO, Joe Street, professor de Estudos Americanos da Universidade de Northumbria, no Reino Unido, e autor do livro “Silicon Valley Cinema”. — Eles costumam ser socialmente desajeitados e disfarçam isso com perguntas altamente técnicas e específicas às pessoas ao redor, e parecem bastante desdenhosos de quem tem valores diferentes dos seus, particularmente se esses valores tendem ao humanismo ou ao que consideram identitário. O melhor exemplo é Elon Musk. É justamente esse perfil que se esparrama nas imagens do doc “Musk”, que chegou aos cinemas americanos neste fim de semana e desembarca no Brasil no primeiro quadrimestre de 2027 na HBO Max. Dirigido por Alex Gibney e com duração de quatro horas, o filme vai da infância de Elon Musk na África do Sul sob o regime do apartheid até a participação no segundo governo Trump, quando passou a faca no funcionalismo público ao comandar o Doge, o departamento de eficiência governamental. Faz isso costurando depoimentos, imagens de arquivo e de um avatar do bilionário criado especialmente para o filme, visto que o de carne e osso não topou ser entrevistado. Inclusive, ele classificou o doc como um “ataque deliberado” a sua imagem e iniciou uma campanha difamatória no X. “Merda de cachorro merece mais respeito do que Gibney”, escreveu Musk sobre o cineasta, premiado com o Oscar de melhor documentário em 2008 ao denunciar, no doc “Um táxi para a escuridão”, práticas de tortura vigentes no governo George W. Bush. —Acho que boa parte do público já despreza ativamente muitas dessas figuras, e suas reações mimadas só pioram as coisas porque é muito deselegante ser um “mau perdedor” — diz, ao GLOBO, J.M. Tyree, professor de cinema e editor-chefe da publicação Film Quarterly, frisando a esperteza de Zuckerberg frente a seus coleguinhas. — Ele entendeu isso melhor do que a maioria, e não atacou diretamente o filme. Menos virulento ao ver sua história na tela foi Sam Altman, chefão da OpenAI e tema de “Artificial”, filme do cineasta Luca Guadagnino com Andrew Garfield que estreia em dezembro nos EUA e dia 21 de janeiro por aqui. Mais bem avaliado dos filmes sobre tech bros, a obra dramatiza o afastamento real de Altman pelo conselho da companhia em 2023 e o retorno, dias depois, num contragolpe digno de cinema. “Pelo que vi do trailer, acho que não buscam precisão”, disse o empresário à revista Vanity Fair. “Eles estão tentando fazer um bom filme e talvez seja, mas não vai ser um retrato fiel. Então, não me incomoda.” Qual foi o ponto de virada que derrubou essa turma do pedestal? Max Fisher, de “A máquina do caos”, indicado do prêmio Pulitzer por suas investigações sobre os meandros das big techs, lista dois momentos. O primeiro: a eleição de Donald Trump, em 2016, que, para muitos, parecia impossível. —As pessoas começaram a pensar: “será que as redes sociais e a internet não são apenas um monte de sites em que perdemos tempo, mas algo com efeito enorme sobre como pensamos e nos comportamos e sobre como funciona a nossa política?” — diz ele, que publicou suas investigações no The New York Times a partir de 2018 e as reuniu em livro em 2022. Depois, o segundo mandato do atual presidente americano sacramentou o mau humor. Os tech bros saíram dos bastidores, literalmente, quando posaram no Capitólio com o presidente no dia da posse. A festa foi completa: teve Zuckerberg, Altman, Musk (este, a bem da verdade, foi agitador de comícios do republicano, como mostra o filme de Gibney), Jeff Bezos (da Amazon, cuja divisão de cinema até lançou, no começo deste ano, um doc sobre a primeira-dama Melania Trump), Tim Cook (CEO da Apple) e Sundar Pichai (CEO da Alphabet, a controladora do Goole), só para citar os mais pops. —Foi um momento muito importante na cultura americana porque simbolizou a indústria de tecnologia dizendo: “Trump é o nosso cara, achamos que ele vai nos ajudar” — diz Fisher. — Se você gosta do presidente, talvez isso pareceu uma coisa boa. Mas, para quem não gosta ou simplesmente é cético em relação às corporações em geral, foi uma revelação de que essas empresas não têm a menor intenção de ser atores neutros. Não restou, portanto, nenhuma dúvida: os tech bros estavam ungidos pilar fundamental do establishment capitalista, tais quais, outrora, barões da mídia tradicional ou financistas de Wall Street. Espécies também fartamente retratadas em obras clássicas —tipo “Cidadão Kane”, de Orson Welles(com o protagonista inspirado no todo-poderoso magnata da imprensa William Randolph Hearst), “Wall Street”, de Oliver Stone (1987), e “O lobo de Wall Street” (2013), de Martin Scorsese. Por isso, nada mais natural que o cinema se debruçasse sobre essa casta tech, que também exibe muito dinheiro e pouco pudor. —No cinema, muitas vezes fizeram o papel de vilão —diz J.M. Tyree, da Film Quarterly. —A nova onda de titãs da tecnologia é vista não como criadores, mas aproveitadores, parte de uma classe de “zilionários” que guarda a riqueza para si. Mentiras elaboradas “Aproveitadores” ganha um novo sentido quando se fala de Elizabeth Holmes, retratada no documentário “You can see everything”, nos cinemas americanos a partir deste fim de semana e ainda sem data de estreia no Brasil. Aclamado pela crítica, o doc (dirigido por Natha Fielder, o mesmo das séries “O ensaio” e “Nathan for you”) parte de um convite da fundadora da Theranos para que uma equipe de filmagem se instale na casa dela e a acompanhe dias antes de começar a cumprir uma pena de 11 anos e três meses por fraude. Ainda que não seja uma tech bro clássica — ser mulher, a exclui, em princípio, da categoria bro (de brothers, ou irmãos em português) —, Holmes detinha a aura de gênio indomável que vai mudar o mundo com uma um sistema revolucionário. —É raro ter mulheres nesta posição de CEO e fundadora — diz a antropóloga Letícia Cesarino, autora do recém-publicado “Ecologias de crise: Uma teoria cibernética da radicalização” (Ubu), salientando a diferença entre as duas posições. — Esses últimos são, de fato, figuras com personalidade narcísica, que se veem como criadores de uma realidade Era exatamente essa a imagem que Holmes tinha de si e, pelo trailer do filme, ainda tem. No início dos anos 2000, aos 19 anos e cheia de lábia, ela largou a prestigiosa Universidade de Stanford para fundar, no Vale do Silício, uma empresa que prometia revolucionar diagnósticos com exames feitos a partir de poucas gotas de sangue. A novidade ativou a ganância de investidores do calibre do magnata de mídia Rupert Murdoch e da família Walton, da rede de varejo Walmart, mas a Theranos era nada além de um grande engodo. “O Vale do Silício viu a ascensão de empresas cujas invenções mudaram o mundo”, disse procuradora federal Stephanie M. Hinds, quando a pena de Holmes foi fixada. “Ao se cometer fraude contra quem fornece o capital necessário, estanca-se o investimento. Por quase uma década, Elizabeth Holmes fabricou e espalhou mentiras elaboradas e causou a perda de centenas de milhões de dólares”. Fracasso à vista Já que o assunto é dinheiro, Hollywood não tem, pelo menos até agora, embolsado tanto assim com essas histórias. “O outro lado das redes”, que estreou nos Estados Unidos em 9 de outubro, “flopou”. Segundo a Variety, o filme arrecadou US$ 5,5 milhões na estreia, bem abaixo dos US$ 22 milhões de “A rede social”, em 2010. “Isso faz dele um fracasso indiscutível”, escreveu o site The Verge. —Hollywood é um negócio capitalista, e é compreensível que muita gente julgue o sucesso apenas pela bilheteria de estreia. Mas também há uma espécie de prazer maldoso nas notícias sobre o desastre de filmes que tentam fazer demais e não oferecem histórias felizes ou reconfortantes de superação. Isso os torna ainda mais valiosos, mesmo que o público hoje prefira desviar o olhar — diz J. M. Tyree. O professor cita ainda outra ruína cinematográfica: “Digger”, produção estrelada por Tom Cruise sobre outro tipo de capitalista insaciável, mas do segmento de óleo e gás. O prejuízo do longa de Alejandro González Iñárritu já passa da casa dos US$ 150 milhões. —Para ser sincero, fico surpreso que alguém tenha achado que um filme desse tipo poderia ter sucesso comercial.
'Tech bros' como Mark Zuckerberg, Sam Altman e Elon Musk vão de gênios a vilões em filmes recentes; entenda
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