Alguma coisa acontece nas praças e avenidas do mundo. Em um tempo marcado por arrogância e cinismo de líderes autoritários como Donald Trump, que hoje enfrenta o teste das eleições no meio do mandato, jovens tomam as ruas para barrar o avanço da extrema direita e pedir melhores condições de vida.
A começar pelos Estados Unidos, onde uma multidão de estudantes da Carolina do Norte marchou unida até as urnas, depois de Trump proibir a instalação de postos de votação dentro de seus campi universitários. Poucos dias antes, as ruas de Nova York foram tomadas por manifestantes contrários ao presidente americano.
As imagens inundaram as redes sociais. O que cantavam? O velho slogan: “o povo unido jamais será vencido”.
Na Europa, os protestos se multiplicam. Com raras exceções, como as da cidade alemã de Frankfurt, onde se registraram cenas de violência, são manifestações pacíficas, que muitas vezes esbarram na truculência das polícias.
Os jovens ocupam as ruas da França há várias semanas. Tudo começou com manifestações de estudantes em busca de melhores condições de ensino.
Depois acolheu outros jovens que se queixavam das difíceis condições de vida. Na Itália, as avenidas têm sido ocupadas por manifestantes que cantam “somos todos antifascistas!”.
E que protestam contra o governo de extrema direita de Giorgia Meloni, o mais longevo do país desde a Segunda Guerra Mundial. E o Brasil tem uma grande contribuição a todo esse movimento.
Por aqui, tudo começou na noite de segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições, quando estudantes da Universidade Federal Fluminense tomaram as ruas de Niterói em apoio ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de Niterói, as manifestações tomaram conta das principais cidades do país.
E tiveram, juntamente com a movimentação nas redes sociais, papel fundamental na virada do segundo turno e na vitória de Lula. A conquista do quarto mandato do velho líder de 81 anos ajudou a espalhar pelo mundo o sentimento de que, sim, é possível vencer o avanço da extrema direita, com seus traços autoritários de inspiração fascista.
O exemplo chegou até a eventos esportivos. Logo após a bandeirada final do Grande Prêmio do México de Fórmula Um, a Federação Internacional de Automobilismo autorizou a entrada dos torcedores na pista.
E o que eles cantaram? “Olê, olê olê olá, Lula, Lula”. Aonde chegará tudo isso? Com as exceções de sempre, não vemos pelo mundo barricadas e trocas de agressões, como em 1968.
Mas pode-se facilmente constatar o grau de insatisfação, principalmente entre os jovens. Em visita ao Brasil, para promover um festival de cinema francês, a atriz Alexandra Lamy disse – em entrevista ao Correio Braziliense – compreender a frustração dos jovens em seu país.
“Nós apoiamos muito os estudantes de ensino médio e a juventude em geral, porque isso nos faz lembrar da violência em que eles vivem”, afirmou Alexandra. “Embora estejamos na França, onde se tem a impressão de que as escolas são excelentes, a realidade é que os alunos passam frio, e faltam professores”.
Nos outros países da Europa onde se multiplicam as manifestações, as queixas se repetem: alto custo de vida, alto custo dos aluguéis, falta de oportunidades. Nos Estados Unidos, a principal queixa está no custo de vida.
E isso está diretamente relacionado à guerra que Trump resolveu promover contra o Irã, algo que encareceu os custos de combustíveis em todo o mundo. Como tudo isso se refletirá nas urnas das maiores democracias ocidentais? A partir dessa terça-feira será possível ter uma ideia da nova composição do Congresso dos Estados Unidos.
A contagem dos votos é manual – como defendem os bolsonaristas – e pode levar semanas. Existe uma grande chance de vitória dos democratas.
Mas resta saber se eles conseguirão o controle de uma ou das duas Casas do Congresso. Se isso acontecer, o Partido Democrata passa a ter chances reais de vitória nas eleições presidenciais de 2028.
E os sonhos de grandeza de Donald Trump ficarão registrados apenas no grande salão de baile que ele constrói na Casa Branca. Muita gente teme que as manifestações na França acabem por estimular o medo junto a eleitores conservadores, abrindo caminho para uma possível vitória na Frente Nacional das eleições do ano que vem.
É cedo ainda para dizer. Até porque já existe uma multidão de pré-candidatos à sucessão de Emmanuel Macron.
O mesmo risco existe na Alemanha, onde tem crescido o apoio à AfD, partido de extrema direita de inspiração nazista. As ruas e as urnas podem até seguir caminhos diferentes.
Mas, como o Brasil mostrou ao resto do mundo, a presença de multidões nas grandes cidades pode ajudar a construir vitórias antes tidas como impossíveis.
Metropoles