Foto: Universidade do Agro A tecnologia pode estar a milhares de quilômetros de distância ou bem debaixo dos pés de quem produz. Na agricultura, essa diferença importa. Enquanto imagens de satélite ajudam a observar a lavoura de cima e as previsões meteorológicas indicam o que pode acontecer no céu, uma nova geração de soluções tecnológicas busca responder a uma pergunta fundamental para o produtor rural: o que está acontecendo no solo, na região onde as raízes absorvem água e nutrientes?É nesse desafio que atua a AI Agro, empresa de tecnologia agrícola fundada por brasileiros em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A startup desenvolve estações de monitoramento do solo integradas a agentes de inteligência artificial capazes de interpretar dados, identificar tendências e compartilhar informações e recomendações com o produtor diretamente pelo WhatsApp.A proposta combina hardware próprio, sensores acessíveis, processamento de dados e inteligência artificial para aproximar a agricultura de precisão da realidade de propriedades rurais que nem sempre têm acesso a equipamentos sofisticados ou a sistemas complexos de monitoramento. Essa atuação ganhou uma frente estratégica no Brasil por meio da parceria de pesquisa e da sociedade de investimento com a Universidade do Agro e Uniube, que também utiliza suas áreas experimentais como ambiente de validação das tecnologias.
Da raiz ao celular: tecnologia que acompanha o solo
O principal produto da AI Agro é uma estação compacta que monitora continuamente condições do solo e, conforme a configuração, dados meteorológicos. A sonda acompanha sete variáveis do solo: umidade, temperatura, pH, condutividade elétrica e os macronutrientes nitrogênio, fósforo e potássio, conhecidos pela sigla NPK. Algumas configurações também incluem pluviômetro, enquanto a integração com informações meteorológicas amplia a capacidade de contextualizar as leituras.
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O resultado chega ao produtor em boletins diários pelo WhatsApp, com informações sobre as condições do solo, o comportamento das últimas leituras, a chuva registrada, a previsão do tempo e orientações relacionadas à cultura monitorada. A solução também permite que o produtor faça perguntas e registre atividades realizadas na lavoura, como uma irrigação ou uma adubação. Essas informações passam a integrar o histórico da propriedade e ajudam o sistema a interpretar mudanças observadas ao longo do tempo”, explica o cofundador da AI Agro, Tório Barbosa.O diferencial está em transformar dados técnicos em informações mais simples e acessíveis. Em vez de depender exclusivamente da consulta a gráficos ou plataformas especializadas, o produtor recebe um resumo que pode acompanhar na ferramenta de comunicação que já utiliza no cotidiano.
“Satélite vê a folha. Previsão do tempo vê o céu. Nenhuma API vê a raiz. Para isso, é preciso ir lá e enterrar uma sonda”, resume Tório Barbosa.A tecnologia também exige uma etapa importante de calibração. No caso dos nutrientes, a estação não realiza uma análise química do solo: as estimativas são construídas a partir de sinais indiretos, como a condutividade elétrica, e precisam ser interpretadas considerando a umidade, o histórico de leituras e os resultados de laboratório.Para isso, amostras de solo são encaminhadas para análise laboratorial. Os resultados servem como referência para calibrar o sistema e aprimorar a interpretação dos dados coletados em cada ambiente. A combinação entre medições sucessivas, informações meteorológicas e histórico de manejo permite identificar tendências com mais contexto, embora as recomendações continuem sujeitas às condições de cada área e à avaliação técnica.
Universidade e empresa: pesquisa aplicada em condições reais
A parceria com a Universidade do Agro e Uniube representa uma etapa estratégica para o desenvolvimento da AI Agro. Além de sócia investidora, a instituição é parceira de pesquisa e oferece um ambiente real de produção para testar, comparar e aprimorar as soluções antes de sua aplicação em outras propriedades.Na Cidade do Agro, em Uberaba (MG), sensores de solo, áreas de cultivo, sistemas de irrigação, câmeras e drones permitem observar diferentes aspectos de uma mesma lavoura. A estrutura cria condições para comparar as informações coletadas abaixo da superfície com o que é observado na planta, nas condições ambientais e nas imagens aéreas.Lá, o monitoramento inclui culturas como laranja e café, além de áreas destinadas a outros sistemas produtivos. Os registros acumulados ajudam a equipe a compreender como as variáveis se comportam em diferentes situações de manejo e a avaliar a resposta dos sensores diante de mudanças na umidade, na chuva e na adubação.Em um dos pomares experimentais da instituição, por exemplo, uma estação registrou a elevação da umidade do solo após um episódio de chuva. A série histórica também permitiu acompanhar as mudanças na condutividade elétrica após eventos de precipitação e adubação. São observações que contribuem para investigar padrões e aperfeiçoar a interpretação dos dados, sem transformar uma leitura isolada em uma recomendação definitiva.Assim, a Cidade do Agro funciona como um campo de prova para a tecnologia. É onde hipóteses podem ser confrontadas com as condições reais de produção, os dados dos sensores podem ser comparados com resultados laboratoriais e as soluções podem ser avaliadas antes de chegarem ao produtor.“Ter a universidade como sócia muda a conversa. Cada número que a estação mostra passou antes por uma análise de solo de verdade”, afirma o cofundador da AI Agro.
O aluno acompanha a tecnologia acontecer
A parceria também amplia as possibilidades de aprendizagem para os estudantes da Universidade do Agro. Na prática, a experiência permite que o aluno acompanhe informações produzidas em condições reais de cultivo, observe o comportamento das variáveis ao longo do tempo e compreenda como diferentes fatores interferem na interpretação dos dados. A tecnologia deixa de ser apenas um conteúdo apresentado em sala de aula e passa a integrar uma experiência que conecta teoria, experimentação e tomada de decisão.
Foto: Universidade do Agro
Ao estudar as leituras de uma estação, por exemplo, o estudante pode investigar como a umidade se altera depois da chuva, por que a condutividade elétrica precisa ser analisada em conjunto com outras variáveis e de que maneira o histórico de manejo contribui para interpretar o que acontece no solo.A integração com câmeras e drones amplia essa experiência. Enquanto os sensores acompanham condições abaixo da superfície, as imagens aéreas permitem observar aspectos como distribuição das plantas, falhas de cultivo, vegetação espontânea e características do terreno. A análise conjunta oferece aos alunos uma perspectiva mais abrangente sobre o uso de dados na gestão agrícola.O contato com tecnologias em desenvolvimento também contribui para aproximar a formação acadêmica das demandas do mercado. Além de aprender a utilizar ferramentas, os estudantes têm a oportunidade de compreender os limites das medições, avaliar a confiabilidade das informações e reconhecer a importância de validar resultados antes de transformá-los em decisões de manejo.
Tecnologia mais acessível para o pequeno e o médio produtor
Um dos principais desafios da agricultura de precisão é fazer com que seus benefícios alcancem propriedades de diferentes tamanhos. Equipamentos profissionais importados podem representar um investimento elevado, especialmente para produtores que precisam monitorar várias áreas com características distintas.A AI Agro busca enfrentar essa barreira com uma estrutura de menor custo. Segundo os valores informados pela empresa, o kit com conexão Wi-Fi custa cerca de R$ 700, enquanto a versão com comunicação LoRa, indicada para áreas mais distantes, custa aproximadamente R$ 900, incluindo a receptora. O serviço de inteligência artificial é oferecido por cerca de R$ 150 mensais.“Essa diferença de preço pode permitir a instalação de mais pontos de monitoramento pelo custo de um único equipamento convencional mais caro. Em vez de utilizar uma única estação como referência para toda a propriedade, o produtor pode avaliar a possibilidade de acompanhar talhões, pivôs ou áreas com condições de solo diferentes”, comenta Tório Barbosa.
Foto: Universidade do Agro
A distribuição dos sensores é relevante porque uma mesma fazenda pode apresentar variações importantes de umidade, fertilidade, relevo e resposta à irrigação. Quanto melhor essas diferenças forem compreendidas, maior será a possibilidade de planejar o manejo de forma localizada, sempre considerando as análises e recomendações técnicas necessárias.Para o pequeno e o médio produtor, o acesso à informação também depende da facilidade de uso. Ao entregar os boletins pelo WhatsApp, a AI Agro procura reduzir a necessidade de operar sistemas complexos e facilitar o acompanhamento diário das condições da lavoura.A proposta é apoiar decisões mais bem informadas sobre irrigação e adubação, identificar mudanças que merecem atenção e ajudar o produtor a avaliar o momento mais adequado para determinadas operações.“Ninguém aduba a fazenda pela média. Se o sensor custa dez vezes menos, o produtor pode colocar um em cada lugar que importa”, reforça.
Inovação que aproxima conhecimento e produção
Para a startup, a Cidade do Agro oferece condições para testar equipamentos, confrontar leituras com análises laboratoriais e avaliar o comportamento das tecnologias em diferentes culturas.Para a universidade, a parceria amplia as oportunidades de pesquisa aplicada e permite que os alunos acompanhem ferramentas que fazem parte da transformação digital do agronegócio.Para o produtor, a proposta é tornar o monitoramento mais acessível e transformar dados em informações úteis para a rotina da propriedade.Para o diretor-executivo acadêmico da Uniube, Flávio Garcia Sartori, a parceria traduz o propósito da Universidade do Agro de aproximar a formação acadêmica dos desafios reais do campo.“O Brasil tem um dos agronegócios mais competitivos do mundo, mas o próximo salto de produtividade passa pela capacidade de tomar decisões com base em dados confiáveis. Tecnologia que fica restrita a grandes propriedades não transforma o setor. Quando conseguimos levar monitoramento de solo e inteligência artificial ao pequeno e ao médio produtor, ampliamos a produtividade com uso mais eficiente de água, fertilizantes e recursos”, afirma.Para Flávio Sartori, o papel da universidade vai além de ensinar a usar ferramentas. A Universidade do Agro existe para ser um ponto de encontro entre conhecimento, pesquisa e produção.“Na Cidade do Agro, a tecnologia é testada, validada com rigor científico e acompanhada de perto pelos nossos estudantes. Formamos profissionais que entendem não só o potencial da inovação, mas também os seus limites, e que serão capazes de liderar a transformação digital do agronegócio com responsabilidade”, finaliza.
Foto: Universidade do Agro
Ao integrar sensores, inteligência artificial, pesquisa universitária e formação acadêmica, a iniciativa reforça o papel da Cidade do Agro como um ambiente em que conhecimento e produção caminham juntos.
Mais do que testar equipamentos, o objetivo é investigar como a tecnologia pode contribuir para decisões mais informadas, uso eficiente de recursos e uma agricultura cada vez mais conectada à realidade de quem produz.
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