Há pelo menos uma geração o futebol brasileiro (e, por extensão, o sul-americano) convive com uma prática recorrente: torcedores do time da casa vão até o hotel onde a equipe adversária está concentrada e soltam rojões e fogos de artifício durante a madrugada, com o objetivo explícito de “não deixar dormir”.
O registro mais antigo que aparece com clareza é de maio de 2001, quando torcedores do Botafogo de Ribeirão Preto fizeram barulho em frente ao hotel do Corinthians na véspera da final do Paulistão. Relatos retrospectivos empurram a prática para o fim dos anos 1990.
Em 2026, portanto, já são mais de 25 anos de um hábito que se tornou quase ritualístico em jogos decisivos.A lógica é simples e antiga: privar o adversário de descanso para que ele chegue ao estádio cansado, irritado ou com reflexos diminuídos.
Na prática, porém, os resultados quase nunca confirmam a teoria. Não existe um padrão consistente de times que “dormiram mal” perdendo por causa do foguetório. Em muitos relatos os jogadores acordam, reclamam, usam protetores de ouvido e voltam a dormir.
Em outros, a rotina do dia de jogo segue normalmente. O efeito psicológico parece recair mais sobre a própria torcida que solta os fogos — a sensação de estar “fazendo alguma coisa” e de pressionar o adversário — do que sobre o desempenho dentro de campo.
O caso mais recente ilustra bem o ponto. Na madrugada de 20 de outubro de 2026, antes do jogo de volta da semifinal da Copa Sul-Americana, torcedores do Vasco foram ao hotel Windsor, na Barra da Tijuca, onde o Boca Juniors estava hospedado, e realizaram um intenso foguetório em horários diferentes (por volta das 2h, 3h30 e 5h). A intenção era clara.
O Boca, porém, venceu por 3 a 1 no Maracanã, reverteu a desvantagem do jogo de ida (1 a 0 na Bombonera) e se classificou para a final no agregado de 3 a 2. Relatos da imprensa argentina indicaram que o barulho não alterou de forma significativa a rotina dos jogadores, que acordaram no horário previsto para o café da manhã.
Com o tempo, os times e os hotéis se adaptaram. Hotéis de melhor padrão passaram a oferecer quartos com janelas duplas e isolamento acústico eficiente. Clubes já usam protetores auriculares como parte da preparação e escolhem, quando possível, hospedagens com melhor isolamento.
Em vários relatos dos últimos 15 anos, delegações afirmam que o foguetório na calçada incomoda mais vizinhos e outros hóspedes do que o elenco. O que antes era uma arma relativamente barata e barulhenta perdeu boa parte de sua eficácia prática.
Mesmo assim, a tática continua. Ela sobrevive menos por eficiência competitiva e mais como elemento cultural das torcidas: o ritual, o vídeo que viraliza, a sensação de territorialidade e de “não deixar o adversário em paz”.
Em jogos grandes, especialmente quando o visitante é um clube estrangeiro ou um rival tradicional, a cena se repete. O dinheiro gasto em fogos raramente se traduz em vantagem dentro de campo, mas o gesto permanece como parte do espetáculo — um espetáculo que, muitas vezes, termina com o time “vítima” do barulho saindo de campo com a vitória e a classificação.
Em resumo: o foguetório na porta do hotel é um clássico do futebol brasileiro. É antigo, é barulhento, é fotografado e filmado, e quase nunca decide o resultado. Continua existindo porque faz parte da cultura das arquibancadas, não porque seja uma estratégia eficaz.
Até a próxima.
Jovem Pam