A Marselhesa do Sul Global

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

O Brasil escreveu uma das páginas mais bonitas e emocionantes da história da humanidade. Quem olhar com a mente aberta para a dimensão e a repercussão da vitória de Lula no segundo turno, sobretudo nas circunstâncias dramáticas em que ela se deu, enxergará o tamanho desse acontecimento.

Foi uma virada espetacular, construída por milhões de pessoas que ocuparam as ruas e colocaram o próprio corpo em movimento para defender suas ideias, sua dignidade e a soberania do país. Na história universal, há raros momentos que brilham até hoje como exemplos da força invencível da alegria, da coragem e do sentido de união de um povo em prol de uma causa maior.

O que o Brasil acaba de viver pertence a essa linhagem de episódios luminosos. O canto de Valmy e o nascimento de um mundo novo

Quando observamos a energia popular que tomou conta do Brasil, vem imediatamente à memória a Batalha de Valmy, travada em 20 de setembro de 1792, no norte da França, próxima à região das Ardenas e de Varennes. Foi a primeira grande vitória militar da Revolução Francesa.

Naquele momento, as monarquias absolutistas da Europa, encabeçadas pelos exércitos profissionais da Prússia e da Áustria, haviam se coligado para invadir a França e esmagar a Revolução no berço. A jovem república francesa encontrava-se falida, com suas forças regulares desorganizadas e acossada por conspirações aristocráticas e rebeliões contrarrevolucionárias internas.

De repente, de todos os cantos do país, cidadãos comuns começaram a marchar em direção a Paris e às fronteiras, muitos deles armados apenas com paus, foices, piques e mosquetes improvisados. Uma coluna decisiva de voluntários veio do sul pobre e valente da França, marchando desde Marselha até a capital, entoando a plenos pulmões um canto de guerra composto meses antes no leste francês, em Estrasburgo, por um obscuro capitão de engenharia chamado Claude Joseph Rouget de Lisle, um oficial sem grandes feitos militares que teve, naquela noite de abril de 1792, um instante de gênio absoluto antes de voltar ao quase anonimato da história, pois a canção foi imediatamente apropriada pelo povo como criação coletiva dos marselheses.

O grande historiador francês Jules Michelet, em sua monumental História da Revolução Francesa, descreve com emoção o instante em que esses voluntários maltrapilhos, os sans-culottes, encararam a máquina de guerra prussiana nas colinas de Valmy. Quando a névoa se dissipou e os regimentos revolucionários avançaram sob o fogo da artilharia cantando A Marselhesa e gritando “Viva a Nação!”, algo inédito aconteceu.

Segundo Michelet, aquela energia moral abalou profundamente os exércitos inimigos. Soldados e generais veteranos, acostumados à guerra fria de mercenários e súditos obedientes, jamais haviam presenciado uma força espiritual como a daqueles homens livres dispostos a morrer cantando por uma ideia.

O exército invasor recuou. Naquela mesma noite, presente no campo de batalha, o poeta alemão Goethe pronunciou a célebre frase “Deste lugar e deste dia data uma nova época na história do mundo”.

Valmy eletrizou a França e foi o prelúdio da consolidação, para a eternidade, dos valores democráticos que ali se erguiam. A lealdade de Outubro na Argentina e o legado de Vargas no Brasil

Na nossa América do Sul, a história também registrou momentos em que o povo entrou em cena como uma avalanche para mudar o destino de uma nação. Na Argentina, em 17 de outubro de 1945, data que entrou para a história como o Día de la Lealtad, a elite oligárquica e setores militares conservadores haviam destituído e prendido o então coronel e secretário do Trabalho Juan Domingo Perón, confinando-o primeiro na Ilha Martín García e depois sob custódia no Hospital Militar central em Buenos Aires.

Parecia o fim. Mas das periferias, do interior e dos cinturões industriais de Avellaneda e Berisso, centenas de milhares de trabalhadores, os “descamisados”, atravessaram pontes a pé ou a nado pelo rio Riachuelo e ocuparam a Plaza de Mayo exigindo a libertação de seu líder.

Aquela insurreição popular pacífica e gigantesca não apenas libertou Perón e o levou à presidência meses depois, como fundou a emancipação política da classe trabalhadora argentina, consolidando leis trabalhistas históricas, direitos sociais e a própria identidade cultural da Argentina moderna.

No Brasil, vivemos jornadas de igual potência épica em torno de Getúlio Vargas. Primeiro, na campanha presidencial de 1950, numa época sem o aparato moderno de pesquisas eleitorais, quando Vargas rompeu o isolamento de São Borja e, a cada estação de trem e praça pública por onde passava, multidões imensas se levantavam espontaneamente pelo país inteiro, revelando a força invencível do querer popular contra quase toda a grande imprensa.

E, quatro anos depois, no trágico 24 de agosto de 1954, quando o tiro no peito de Getúlio fez milhões de brasileiros invadirem as ruas do Rio de Janeiro e das principais capitais, em pranto e em fúria, rasgando jornais golpistas e empastelando a Tribuna da Imprensa. Aquele levante de dor e coragem popular virou a página da história e adiou o golpe militar em dez anos, garantindo uma década inteira de experiência democrática e desenvolvimento nacional.

A grandeza planetária da vitória brasileira As grandes vitórias populares costumam ser seguidas de imensos desafios, pois as forças do atraso não descansam.

Mas esses momentos de epifania coletiva ficam gravados na alma dos povos e iluminam o caminho por gerações. A vitória popular brasileira de agora carrega, contudo, uma grandeza particular.

Não apenas pela dimensão continental do Brasil e pelas dezenas de milhões de eleitores envolvidos numa disputa corpo a corpo, mas pelo momento crítico que atravessa o planeta. Vivemos dias em que a principal potência militar do mundo utiliza abertamente uma linguagem de extermínio e intimidação.

Praticamente toda semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lança ameaças de destruição total contra o Irã ou contra qualquer nação que desafie a sua vontade. O mundo assiste apreensivo à escalada da barbárie.

Nesse cenário, uma vitória da extrema direita subalterna a Trump no Brasil teria sido um golpe devastador contra a luta pela paz mundial, contra o multilateralismo e contra o próprio futuro da civilização. Não é possível falar em democracia da boca para fora, apenas no plano doméstico, enquanto se apoia a tirania nas relações internacionais.

A verdadeira democracia exige uma governança mundial que respeite o direito internacional, a autodeterminação dos povos e a paz. Nenhum país tem o direito de tiranizar o planeta.

A humanidade não tem imperador. O que os povos desejam é construir uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade, a grande bandeira diplomática que hoje une o discurso do presidente Lula e o do presidente da China, Xi Jinping, consolidando a liderança moral, política e econômica do Sul Global.

Quando milhões de brasileiros tomaram as avenidas entoando “Lula Lá”, não estavam apenas celebrando um líder ou vencendo uma eleição difícil. Estavam entoando um hino de resistência civilizatória que ecoou de Pequim a Buenos Aires, de Joanesburgo a Paris.

“Lula Lá” tornou-se a Marselhesa do Sul Global. Parabéns ao povo brasileiro por escrever, com coragem e alegria, uma das páginas mais bonitas da história humana.

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