O sucesso (ou não) da futura oferta pública inicial de ações (IPO) da Anthropic será determinado por qual de dois temores prevalecerá: o medo de ficar de fora ou o medo de cometer um erro. O primeiro deles foi bem explicado por um financista experiente.
Quando eu lhe disse que tinha dificuldade para entender como uma empresa que teve um prejuízo de US$ 81 bilhões no primeiro semestre do ano passado poderia valer, objetivamente, até US$ 1,75 trilhão, ele respondeu que pouco importa o que os observadores pensam. A única coisa que importa é saber se o mercado aceitaria esse valor.
A Anthropic oferecerá suas ações a um determinado preço e os investidores poderão comprá-las ou não. E ele prevê que a maioria dos gestores de fundos não vai querer perder a oportunidade de adquirir uma pequena participação em uma das empresas mais extraordinárias da história, independentemente do preço.
A divulgação, nesta semana, do prospecto da IPO da Anthropic certamente põe em evidência os muitos aspectos que tornam a empresa de inteligência artificial extraordinária. Com apenas cinco anos de existência, ela ainda é uma companhia em seus primeiros passos.
Mas já lançou alguns dos modelos de IA mais poderosos e populares do mundo, captou US$ 141,1 bilhões em financiamentos e registrou, possivelmente, o crescimento de receita mais rápido já observado em uma empresa. A Anthropic obteve receita de US$ 16,3 bilhões no primeiro semestre deste ano, mais de 12 vezes o valor registrado no mesmo período do ano passado.
Cada um de seus 250 maiores clientes pagou mais de US$ 10 milhões pelas ferramentas Claude nos últimos 12 meses. A empresa afirma que o valor da inteligência artificial segue uma trajetória de crescimento “exponencial” e que a Anthropic está bem colocada para conquistar uma fatia expressiva desse mercado.
Como uma espécie de ingrediente mágico capaz de dar um toque especial a qualquer prato, seus modelos de IA prometem impulsionar o avanço da ciência, curar doenças e estimular o crescimento econômico. “Não há um fim no arco-íris.
Há apenas o arco-íris”, me disse no início deste ano Dario Amodei, cofundador e executivo-chefe da Anthropic, referindo-se à capacidade da empresa de ampliar a escala de seus modelos. Para evitar que algum investidor se deixe levar pelo entusiasmo, o prospecto da Anthropic revela os próprios temores da empresa diante das muitas possibilidades de algo dar errado: os fatores de risco ocupam 94 das 335 páginas do documento.
Ele observa que a Anthropic é uma corporação de benefício público, que tem uma finalidade que vai além da maximização dos lucros, e que seus sete fundadores mantêm um controle férreo sobre a companhia. A empresa continua em disputa com o governo dos Estados Unidos e foi classificada como um “risco para a cadeia de suprimentos”.
O prospecto alerta que seus sistemas de IA podem sair de controle e causar danos terríveis, gerando responsabilidades financeiras de grande monta. E acrescenta, com aparente despreocupação, que, sem mecanismos de proteção, a IA poderia apresentar riscos “catastróficos ou existenciais” para a humanidade.
É impossível quantificar a maioria desses riscos. Mas, se a Anthropic acabar com a humanidade, nenhum investidor poderá reclamar que não foi avisado, embora, a essa altura, isso já não faça muita diferença.
A preocupação mais imediata dos investidores estará concentrada na seção incompleta do prospecto da Anthropic sobre compromissos futuros de gastos. A companhia informa ter firmado vários contratos plurianuais, irrevogáveis, para a compra de serviços de infraestrutura de IA.
Se as receitas futuras não forem suficientes para cobrir esses compromissos, as obrigações poderão resultar em inadimplência e graves problemas de liquidez. Calcular a necessidade futura de capacidade de centros de dados é uma tarefa extremamente complexa.
Se a capacidade for insuficiente, a Anthropic corre o risco de ficar atrás no desenvolvimento de modelos de ponta e de não conseguir atender à demanda dos clientes. Se for excessiva, poderá ficar sem dinheiro.
Por enquanto, a empresa deixou em branco o cronograma de pagamentos. Mas a PitchBook estima que seus compromissos futuros de difícil cancelamento possam somar entre US$ 450 bilhões e US$ 600 bilhões até 2031.
Sinais preocupantes começam a surgir no mercado de centros de dados, com os investidores questionando a dimensão dos investimentos e usuários pondo em dúvida o custo e o valor dos modelos de IA mais avançados. Apesar de todo o entusiasmo, a IA ainda não proporcionou “nenhum retorno financeiro às empresas americanas fora do setor de tecnologia”, escreveu recentemente Torsten Slok, economista-chefe da Apollo.
As ações das empresas de “neocloud” listadas em bolsa - especializadas em computação em nuvem para IA -, como CoreWeave e Nebius, vêm sofrendo fortes quedas, enquanto várias startups de capital fechado adiaram suas ofertas públicas iniciais de ações (IPOs). Elon Musk, executivo-chefe da SpaceX que captou US$ 151 bilhões em financiamento por meio de ações e dívida no início deste ano, afirmou na plataforma X que os mercados de dívida estão agora fechados para as empresas que dependem exclusivamente das receitas de centros de dados.
Mais de 200 empresas de neocloud enfrentariam “mortalidade e consolidação” - uma analogia que ele comparou à fragilidade de peixes pequenos, chamando-as de “guppies”. Um analista financeiro calculou que as grandes empresas de tecnologia de capital aberto, os laboratórios privados de IA de ponta, entre eles Anthropic e OpenAI, e as empresas de neocloud listadas em bolsa acumulam, juntas, US$ 2,1 trilhões em dívidas e compromissos contratuais - não canceláveis - relacionados a poder computacional e capacidade.
Para efeito de comparação, em março de 2007, o volume de hipotecas subprime (de alto risco) pendentes era de US$ 1,3 trilhão, fator que ajudou a desencadear a crise financeira global no ano seguinte. Assim como naquela época muitos financiamentos imobiliários com taxas ajustáveis começavam com juros baixos por dois anos, apenas para depois dispararem, os contratos do setor de IA - do tipo contrate ou pague (“take-or-pay”) podem acabar forçando as empresas a arcar com custos de uma capacidade que jamais chegarão a utilizar.
O setor, em breve, se deparará com um enorme ajuste forçado. Ben Thompson, autor da newsletter “Stratechery”, argumenta que, desde que a Anthropic cumpra suas projeções de receita, os investidores poderão concluir que a empresa representa “uma opção de compra razoável sobre um potencial de valorização aparentemente ilimitado”.
Esse é, sem dúvida, o tipo de aposta que os investidores de capital de risco procuram fazer, o que ajuda a explicar como a Anthropic chegou à posição que ocupa hoje. Mas gestores de fundos institucionais mais cautelosos terão muito mais receio de fazer essa aposta.
Mesmo uma empresa extraordinária, com tecnologia excepcional, nem sempre representa um investimento igualmente extraordinário quando suas ações são ofertadas a um preço tão elevado e os riscos associados são tão difíceis de mensurar. (Tradução de Mário Zamarian)
John Thornhill é editor de inovação no Financial Times.
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