Durante muito tempo, o intestino só entrava nas conversas sobre saúde quando alguma coisa não ia bem: dor, gases, diarreia ou prisão de ventre. Hoje, a ciência começa a enxergar esse órgão de outra maneira. O intestino conversa com o sistema imunológico, participa do metabolismo, produz hormônios e mantém comunicação permanente com o cérebro. E essa relação pode ter implicações que vão muito além da digestão. A conexão entre intestino e cérebro foi um dos temas apresentados pelo nutricionista Murilo Pereira, presidente da Associação Brasileira de Nutrição em Gastroenterologia (ABNG) e coordenador da pós-graduação em Nutrição em Gastroenterologia da VP Centro de Nutrição Funcional, durante o Congresso Internacional de Nutrição Funcional. Na palestra “A ciência da felicidade e os 6 pilares do intestino saudável” ele chamou atenção para uma questão: cuidar do intestino pode ser também uma forma de cuidar do bem-estar. A explicação começa pelo eixo intestino-cérebro, uma rede de comunicação bidirecional que envolve sistema nervoso, hormônios, imunidade e substâncias produzidas pela microbiota. Uma das principais vias é o nervo vago, que leva ao cérebro informações captadas no intestino e participa também da comunicação no sentido contrário. O intestino é ainda um importante órgão endócrino. Suas células produzem hormônios que participam da regulação da fome, da saciedade e do metabolismo, como o GLP-1. A serotonina, considerado o hormônio do bem-estar, também está presente nessa conversa: cerca de 90% da serotonina do organismo é produzida no intestino. Nesse circuito, a microbiota, conjunto de trilhões de microrganismos que vivem no intestino, ocupa papel importante. As bactérias intestinais produzem metabólitos, como os ácidos graxos de cadeia curta, que participam de processos relacionados ao metabolismo, à imunidade e ao sistema nervoso. O equilíbrio desse ecossistema pode influenciar respostas ao estresse e processos relacionados ao bem-estar. Por isso, falar em “bactéria da felicidade” ou em um alimento capaz de produzir felicidade seria simplificar demais essa relação. O que existe é uma rede em que intestino, microbiota, sistema imune e cérebro trocam sinais continuamente. Em situações de desequilíbrio da microbiota, a disbiose, podem ocorrer alterações metabólicas e inflamatórias. A alimentação entra diretamente nessa história. Um padrão baseado em vegetais, frutas, fibras e comida de verdade oferece substratos para os microrganismos e favorece a diversidade da microbiota. Já a dieta ocidental, marcada pelo consumo frequente de ultraprocessados e pela baixa ingestão de fibras, pode alterar esse ecossistema. —Vegetais, fibras e compostos bioativos atuam como o combustível para uma microbiota intestinal saudável e diversa — afirma Murilo. Eles ajudam a nutrir as células intestinais, fortalecer a barreira de muco e estimular a liberação de hormônios metabólicos. O consumo crônico de ultraprocessados e baixo em fibras favorece a disbiose e alterações na barreira intestinal. Esses processos vêm sendo estudados também em relação a alterações no eixo intestino-cérebro, ansiedade e depressão. Fortalecer essa rede não depende de um único suplemento ou alimento “milagroso”. Murilo propõe seis pilares para a saúde intestinal: alimentação com comida de verdade, atividade física regular, sono de qualidade, manejo do estresse, conexões sociais saudáveis e regularidade intestinal. A questão é menos sobre encontrar uma fórmula para a felicidade e mais sobre entender que o organismo funciona como uma rede. O cérebro influencia o intestino, assim como o intestino envia sinais ao cérebro. A microbiota participa dessa conversa, enquanto alimentação e estilo de vida podem favorecer ou dificultar esse equilíbrio. O consumo crônico de ultraprocessados e baixo de fibras favorece a disbiose e alterações na barreira intestinal
A felicidade está no intestino?
Fonte da notícia:
O Globo
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