A economista que ajudou a colocar a sustentabilidade na estratégia das empresas

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Fonte da notícia: Valor Valor

A economista Marina Grossi está em um momento de grandes mudanças. Depois de 16 anos como presidente do CEBDS, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, ela vai deixar o cargo.

Mas, antes, participa da COP31, que começa em 9 de novembro em Antália, na Turquia. “Saio no final do ano e entro no Conselho.

Fico muito orgulhosa porque poucas instituições do terceiro setor têm uma história como o CEBDS. Quando cheguei, tínhamos 49 empresas associadas; hoje são 111.

E temos muitos projetos para o futuro”, diz. A escolha do sucessor está em andamento.

Será um “supernome”, a quem Grossi promete ajudar no processo de adaptação. “O importante é a transmissão de conhecimento.”

Há quase 30 anos Grossi participa, de maneira relevante, das discussões sobre sustentabilidade e mudanças climáticas, ora representando o governo, ora o empresariado. Em 1997, quando esses temas eram tratados por pequenos grupos de cientistas e ambientalistas, ela foi uma das negociadoras brasileiras nas discussões para a elaboração do Protocolo de Kyoto, o primeiro grande tratado internacional a estabelecer metas de redução para a emissão de gases do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global.

Na Rio 92, era difícil explicar (e entender) os conceitos de sustentabilidade e de mudanças climáticas, mas a conferência lançou as primeiras sementes, que levaram, cinco anos depois, ao Protocolo de Kyoto. “As pessoas que se interessavam por esses temas cabiam em um carro de cinco lugares.

Era quase uma seita.” Havia, ainda, muitas dúvidas sobre se, de fato, o clima estava mudando.

“Muita gente me perguntava se isso existia mesmo, e eu respondia que me parecia ser verdade porque os cientistas estavam nos alertando.” Grossi fez o curso de economia na Universidade de Brasília (UnB).

Foi presidente do Centro Acadêmico, formou-se em 1984 e foi a oradora da turma, que tinha como patrono Fernando Henrique Cardoso, na época senador por São Paulo, e como paraninfo o então professor Cristovam Buarque. Eram anos de efervescência política.

A Lei da Anistia tinha sido assinada em 1979 por João Baptista Figueiredo, o último presidente da ditadura. A campanha pela eleição direta para a Presidência da República sofrera um revés com a rejeição, pelo Congresso, da Emenda Dante de Oliveira.

Os candidatos à eleição, indireta, foram Tancredo Neves e Paulo Maluf. Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo foi eleito.

Recém-saída da universidade, Grossi foi chamada por Dércio Munhoz, seu professor na UnB, para juntar-se ao time que preparava o programa de governo do futuro presidente. A Comissão do Plano de Ação do Governo Tancredo Neves (Copag) era chefiada por José Serra e tinha, entre outros componentes, o economista Luciano Coutinho.

Ela aceitou o convite, mas a decisão não foi bem recebida pelos amigos de faculdade. “Eles me criticaram porque Tancredo era conservador.

Mas tinha uma coerência na minha escolha, porque eu não queria ter razão, queria fazer o que era possível. E naquele momento, o Tancredo era o possível, era a chance real de a democracia acontecer.”

A carreira tomou o rumo da administração pública. Trabalhou no Ministério do Planejamento e no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Mas, diz Grossi, parecia faltar uma peça no que fazia. “Quando apareceu a possibilidade de trabalhar com o tema das mudanças climáticas, em 1997, um novo horizonte se descortinou.

Foi como se eu colocasse uma lente para ver a realidade”, diz. A peça que faltava, avalia, era trabalhar com as conexões.

“Por exemplo, quando se fala sobre um ativo ambiental, é preciso pensar também no passivo social, e esse é o grande desafio da mudança climática.” Para a presidente do CEBDS, as discussões sobre sustentabilidade e mudanças climáticas são uma grande oportunidade para o Brasil se reposicionar no cenário mundial.

A matriz energética limpa, o baixo nível de emissão de gases do efeito estufa na comparação com países da União Europeia e com os Estados Unidos, e as reduções frequentes e significativas do desmatamento, nos colocam em posição vantajosa. O setor privado mudou muito ao longo desse tempo, diz Grossi.

E sua visão sobre a relação entre governo e empresariado também avançou. “A agenda da sustentabilidade é uma agenda de Estado e tem que ser capitaneada por ele.

E o setor privado tem um papel fundamental na construção dessa agenda. Não é fazer lobby por um setor ou outro, é trabalhar por temas nos quais o Brasil tem grande competitividade, com indústrias muito maduras.”

Mas, diz ela, ainda há muita desconfiança entre governo e empresariado. Com sua experiência de negociadora de acordos, a economista diz que seu trabalho, no CEBDS, foi aproximar as duas partes, para que uma entendesse a outra.

“Conversava-se pouco com o setor empresarial, o governo tinha uma certa autonomia para fazer tudo. A discussão era muito fechada.”

Em 1997, relembra, a sustentabilidade era discutida nos meios empresariais sob o enfoque de um custo adicional. “Hoje é um elemento de competitividade, um investimento que pode gerar mais renda.” O redesenho do cenário internacional, com países brigando para ver quem constrói mais soluções de sustentabilidade, exige leis que acompanhem a rapidez das mudanças de cenário.

Nesse ponto, avalia, um elemento cultural pode dificultar. “Há sempre uma desconfiança, um pé atrás, achando que o outro não vai fazer aquilo tão bem quanto eu.

Então as leis são feitas de forma muito detalhada, mas nem sempre isso funciona. É melhor ter certa flexibilidade, com algumas premissas a serem obedecidas, e ir ajustando a rota”, explica.

Grossi representou o setor privado na COP30, realizada há um ano em Belém, e avalia que, apesar de algumas incertezas, a conferência foi bem-sucedida em várias questões fundamentais. Um exemplo: o presidente da conferência, o embaixador André Corrêa do Lago, pediu que o empresariado debatesse os temas transportes, mineração, energia e agricultura e apresentassem suas propostas.

“Conseguimos que CEOs de grandes empresas capitaneassem isso e levassem um posicionamento para a COP. Buscamos a representatividade desses setores para, juntos, responder a esses desafios.”

Outro ponto positivo foi a criação de agendas de implementação. “Não temos muito mais o que negociar.

Agora precisamos implementar”, afirma. No Brasil, explica, empresas e o setor financeiro têm conversado sobre como adequar à realidade brasileira a proposta de um fundo de US$ 1,3 trilhão, a meta global de financiamento climático anual defendida pelos países em desenvolvimento para combater a crise do clima até 2035.

“Amadurecemos muito as opções, e o desafio agora é como isso vai andar. É tudo muito novo, assim como foi quando começaram as negociações.”

Na COP30 surgiram muitos casos, e todos queriam apresentar os seus. Três grandes iniciativas empresariais se formaram e, neste ano, na Semana do Clima em Nova York, as três se uniram com o objetivo de transformar essas experiências em resultados concretos para a economia.

As três organizações - o CEBDS, com uma iniciativa chamada Brasil de Soluções; a Sustainable Business COP (SB COP) e a Climate Action Solutions & Engagement (C.A.S.E.), capitaneada pelo Itaú - criaram uma joint venture, que funcionará como uma plataforma para implementação de projetos, conectando propostas de soluções com caminhos para financiamento.

Os projetos abrangem áreas como agricultura regenerativa, bioenergia, restauração florestal, infraestrutura sustentável, financiamento climático e bioeconomia. “Estamos na fase de ver onde se consegue maior impacto.

Por exemplo, na área de transporte podemos pensar em projetos que viabilizem o SAF, combustível de aviação sustentável. Se conseguirmos avançar nessa pauta, será um grande ganho para o Brasil.”

O setor privado também vem se organizando de forma a apresentar metas ao mesmo tempo ambiciosas e factíveis. “Não vamos chegar ao NetZero até 2050, porque são necessárias outras medidas, como políticas públicas.

Mas pode ser possível se mudarmos algumas coisas, então quais são os principais pontos para chegarmos lá?” Uma das questões centrais é a utilização de combustíveis fósseis, o grande responsável pelas mudanças climáticas.

“Nós emitimos pouco. Nossos problemas estão ligados à mudança do uso da terra e das florestas, o lançamento de resíduos no solo, a emissão de gás metano.

Mas podemos apresentar soluções para esses casos”, diz. De acordo com dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases (Seeg) do Efeito Estufa do Observatório do Clima, divulgados em outubro, as emissões de gás carbônico em 2025 ficaram em 1,4 bilhão de toneladas, redução de 9% na comparação com 2024.

Também houve redução no desmatamento, chegando a 23,5% na Amazônia. Com isso, o Brasil se aproximou da meta do Acordo de Paris, de limitar as emissões a 1,2 bilhão até 2030.

Ainda de acordo com o Seeg, as emissões do setor de energia e combustíveis fósseis no Brasil representam cerca de 20% a 22% do total das emissões brutas de gases de efeito estufa do país. Nos países da União Europeia e nos Estados Unidos, a queima de combustíveis fósseis representa entre 75% e 80% de todos os gases de efeito estufa.

Mas como lidar com a dicotomia de posicionar o Brasil como um grande viabilizador de projetos que possam mitigar um pouco os efeitos das mudanças climáticas e ao mesmo tempo investir na exploração de petróleo na margem equatorial? “Essa é uma pergunta que a sociedade tem que responder.

Qual modelo de desenvolvimento queremos? Seguir com petróleo ou apostar na biodiversidade? Ambos têm ciclos longos, então não é uma resposta para amanhã, são apostas para o futuro”, responde. Para Grossi, a coerência está em fazer com que qualquer ativo, mesmo baseado em combustível fóssil, sirva para alavancar uma economia sem combustível fóssil.

“O petróleo é um ativo que tem que ser usado de forma transparente, porque tem uma série de coisas penduradas nos royalties do petróleo. O SUS está ali porque o petróleo também está.

Como ficaria Macaé sem petróleo? Como se discute seriamente a utilização de um recurso que pode nos trazer prejuízos do ponto de vista climático e sua substituição por outros que não tenham tantos efeitos adversos para construir um modelo novo?” Grossi lembra o exemplo da Noruega, uma das maiores exportadoras de petróleo e gás do mundo.

O país criou, em 1990, um fundo de investimentos que aplica em empresas globais e que tem, entre suas regras, a limitação de uso anual de 3% de seus rendimentos. E construiu uma economia interna baseada em uma matriz energética limpa (96% da eletricidade vem de usinas hidrelétricas e eólicas) e na eletrificação do transporte (90% dos carros novos vendidos anualmente são elétricos).

Além dos avanços nas discussões sobre mudanças climáticas, a participação na COP30 trouxe para Grossi experiências pessoais valiosas. A primeira, com a gastronomia local.

“A comida é maravilhosa! Nunca vi nada parecido, melhor do que qualquer cozinha francesa, italiana” Grossi, que gosta de cozinhar, trouxe de lá um livro de receitas do Remanso do Peixe, um dos restaurantes mais tradicionais (e saborosos) de Belém. Outra experiência: uma travessia de canoa pelo rio Guamá, que banha a capital do Pará.

“Fomos longe lá, remamos 16 quilômetros. Acordei às 4h para fazer esse passeio e voltei à tarde para a conferência.”

Levou o filho, Gabriel, e as netas, Teresa e Catarina, para conhecerem Alter do Chão, um deslumbramento de praias de água doce às margens do rio Tapajós. Levou também um grupo de CEOs de grandes empresas para uma viagem de dois dias, em um barco do projeto Saúde e Alegria, para uma imersão na região.

A ONG atua no oeste do Pará e na Amazônia, desenvolvendo ações voltadas à saúde comunitária, educação, saneamento básico, cultura e desenvolvimento sustentável em comunidades ribeirinhas e rurais. “Nunca tinha entrado tanto CEO em um barco deles.

Visitamos algumas áreas onde havia ações das empresas, fomos a várias comunidades conversar e conhecer os talentos locais. Tínhamos programação o dia todo, fazíamos reuniões no rio, aquela temperatura morninha, com caipirinha, vinho, debatendo dentro d’água”, conta.

“Alguns, quando viram o barco e o barquinho de apoio que acompanhava, me perguntaram: ‘Marina, você está louca? Tem certeza que é para entrar aí?’. Eu pensei: vamos ver no primeiro dia; se não der certo, a gente volta.”

No grupo estavam Fabio Schettino, ex-CEO e membro do Conselho da Hidrovias do Brasil; Ricardo Guimarães, CEO do Banco BNP Paribas no Brasil; Veronica Coelho, na época presidente da Equinor Brasil; Maurício Rodrigues, presidente da Bayer Crop Science para a América Latina; Cristiano Pinto da Costa, à época presidente da Shell Brasil; Leonardo Linden, presidente da Ipiranga; Eduardo Bartolomeo, ex-CEO da Vale; e Teresa Vernaglia, conselheira da Iguá Saneamento.

Não voltaram no primeiro dia. Uma coisa que ajudou, conta Grossi, foi ter levado uma cozinheira que fazia uma comida maravilhosa, só com os ingredientes de lá.

“O pessoal ficou fascinado, dizendo que não queria mais viajar para fora para comer.” A mulher que negocia acordos internacionais, presidente de uma organização que reúne as maiores empresas do país e que convence CEOs a entrarem em um barco para dois dias de viagem por rios do Pará tem um tom de voz suave, fala baixo e ouve com atenção.

Na hora de escolher seu prato no cardápio do restaurante Nino Cuccina, em Ipanema, consulta o maître, que quer saber se ela prefere massa ou proteína. “Posso combinar as duas coisas?”, pergunta ela.

Fica com a sugestão do maître, uma lasanha de costela que parece ter passado por um raio gourmetizador: em vez de vir em uma travessinha, como é tradicional, vem em um prato, cortada como se fosse um bolo recheado, de modo que se pode ver todas as camadas, com a carne de costela bem desfiada entremeando a massa.

“É a lasanha da moda”, explica o maître. A ideia de deixar a presidência do Centro já vinha sendo avaliada, mas a vontade cresceu após a morte do pai de seu único filho.

“Entendi que era o momento de diminuir o ritmo e ter mais tempo para a família.” Gabriel é músico, um dos maiores harmonicistas do mundo, produtor musical e pai das gêmeas Catarina e Teresa. Grossi namora há dois anos Jorge Nóbrega, escritor e ex-diretor presidente do grupo Globo.

Ela faz parte do Conselho da Iberdrola; deixou alguns conselhos e pensa em, quem sabe, entrar em mais um ou outro. Mas na nova fase quer buscar mais tempo para si, para o filho, as netas e o namorado.

Pensa em escrever um livro, refletindo sobre as mudanças na sociedade brasileira. E cozinhar mais.

“Sou muito de doces. Fiz uma panacota seguindo a receita da Rita Lobo e saiu direitinho.

Ela é meu ídolo.” Ao final do almoço, Grossi confessa que estava receosa de falar sobre sua vida pessoal.

“Quando saí de casa, pensei: ‘ai, meu Deus, vou ter que falar de mim’. Mas não doeu tanto assim.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
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