Por Marcos Tosi e Andrelise Daltoé, especial para a Gazeta do Povo Quatro cooperativas agropecuárias que integram a Cotriguaçu, no oeste do Paraná, convivem com um relógio biológico que não admite atraso.
Todos os dias, elas abatem, processam e distribuem 3,3 milhões de frangos. Faça chuva ou sol, com estrada boa ou ruim, as aves chegam ao fim do ciclo e pressionam a logística que leva asinhas, peitos, coxas e sobrecoxas a todas as regiões do Brasil e a cerca de 150 países.
Segundo a Cotriguaçu, os quase 50 mil contêineres de carne embarcados por ano a colocam na terceira posição do ranking de exportação de proteína animal do país, atrás apenas de JBS e BRF. A central reúne C.Vale, Coopavel, Copacol e Lar, que juntas somam 64 mil associados.
Para evitar que a alta produtividade do campo esbarre em gargalos de transporte, a Cotriguaçu consolidou em Cascavel uma estrutura que funciona como o coração logístico da região. O armazém do terminal de congelados possui uma capacidade estática para 9.100 pallets, o equivalente a 10 mil toneladas de carne, e ainda conta com um pátio com 350 tomadas elétricas que mantêm os contêineres sempre refrigerados.
Jarbas Hartmann, coordenador de logística da Cotriguaçu, destaca que a estrutura atua como um "amortecedor" diante das oscilações do comércio internacional. Em momentos de suspensões temporárias por blocos como a União Europeia, o terminal permite reter a carga até a absorção pelo mercado interno, preservando o ritmo dos frigoríficos.
A operação movimenta mensalmente cerca de 5.000 contêineres, divididos de forma equilibrada entre o transporte ferroviário e o rodoviário. A ferrovia garante regularidade, transportando composições de 41 contêineres refrigerados até o Porto de Paranaguá em cerca de cinco dias e meio.
Por outro lado, o modal rodoviário cumpre um papel indispensável de agilidade. Para mercados com exigências térmicas rígidas como o México, por exemplo, onde pequenas variações registradas nos termógrafos podem suspender a habilitação da planta, a opção pelo caminhão garante a entrega no porto em apenas 12 horas.
Já no trajeto curto entre os frigoríficos e o terminal de Cascavel, o transporte rodoviário opera em sistema contínuo de "vai e vem". Acionando apenas cinco caminhões, uma cooperativa consegue realizar 20 viagens diárias, descarregando contêineres cheios e retornando com vazios para buscar mais carne.
Embora a eficiência interna seja elevada, o escoamento rumo ao litoral enfrenta entraves históricos na infraestrutura pública. Edson Vidal, gerente do terminal de congelados da Cotriguaçu, alerta que o gargalo ferroviário mais crítico está na Serra da Esperança, na região de Guarapuava, em que as composições precisam ser desmembradas em comboios menores para vencer trechos mais sinuosos e íngremes.
“São curvas acentuadas e bitola muito estreita que limitam a passagem dos trens. E tem o problema da manutenção, já que essa ferrovia foi construída em 1800 e nunca mais foi feito nada mais significativo”, aponta Vidal.
Para contornar a margem tarifária apertada da ferrovia e a insegurança nos prazos portuários, a Cotriguaçu aposta no ganho de escala comercial. Ao negociar o volume de produção das quatro cooperativas com grandes armadores globais, a central obtém tarifas competitivas e tratamento preferencial para assegurar o embarque contínuo das cargas.
O alto nível de ocupação do pátio de congelados exige um contínuo esforço de gestão para otimizar os processos. Neste desafio de produtividade, o expediente evoluiu das 8 horas comerciais para turnos ininterruptos de 24 horas por dia.
A automação e recursos de inteligência artificial auxiliam no controle de pesagem, triagem e movimentação. Isso tem permitido acelerar a recepção de caminhões e o descarregamento dos trens, ampliando a capacidade efetiva da estrutura antes mesmo de novas expansões físicas.
Quando a primeira etapa do terminal de Cascavel, com câmara frigorífica e pátio de contêineres, começou a operar, em 2013, movimentava cerca de 200 contêineres por mês. Hoje, são 1.230.
Nesse ritmo, chegará rapidamente o momento em que somente a verticalização e os ganhos de produtividade da operação já não serão suficientes. “Pela lógica, a gente já tem que pensar em aumentar o nosso espaço.
Se daqui a dois ou três anos vocês voltarem aqui, com certeza teremos expandido, talvez um outro pátio, em outra região”, sublinha Jarbas Hartmann. Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Gazeta do Povo (Economia)