Sou contra cobrar posicionamentos. Ninguém é obrigado a declarar seu voto, é um direito mantê-lo secreto.
Mas admiro quem pagou o preço. Em um país doente como o nosso, em que tantos cortaram relações por causa de política, lutar em público pelo que acredita é um ato de corage
É preciso ter peito para apoiar uma família entrelaçada com a milícia e subalterna de um lunático. Enquanto o Canadá e o México resistem às investidas territorialistas de Trump, corremos o risco de ver o Brasil ser entregue de bandeja a quem ambiciona explorar nossas riquezas.
A alternativa não é a ideal — a esquerda não está sendo ágil na correção do rumo da economia e passou da hora de renovar seu quadro de líderes — mas, ainda assim, é um oásis se comparada à tropa armada que talvez venha aí. Também não é fácil fazer o que faço agora, me colocar na mira dos ataques de quem ainda fantasia com comunistas e repudia os avanços sociais que aborrecem boa parte do empresariado.
São os que rezam pela máxima “primeiro fazer o bolo crescer para só então dividi-lo”, que soa quase angelical, porém não sou eu quem está com a barriga vazia, que depende de bolsa de estudo e remédio de graça. Também torço para esse bolo crescer, mas nem todos podem esperar ele sair do forno.
Discordâncias à parte, a civilidade manda que se respeite a posição de qualquer eleitor. Afora alguns desaforos, a minha tem sido respeitada.
A literatura é uma arte discreta, autores não são ídolos populares e seu alcance parece menos ameaçador. Diferente dos artistas de televisão e da música, cujo trabalho entra em todos os lares e ajuda a formar a identidade do país.
Nossa estupenda classe artística, de valor indiscutível, virou uma espécie de Geni: está sendo atacada por defender a democracia e ainda é acusada de ser “mamadora da Lei Rouanet”, bordão repetido por quem desconhece totalmente como funciona a lei criada durante o governo Collor.
É desolador ver como a obtusidade da extrema direita levou tanta gente a cuspir no que temos de mais precioso e genuíno, a nossa cultura. Ninguém precisa estar feliz com o governo — aliás, nunca estamos, com nenhum deles.
Mas estar descontente é uma coisa, ser destrutivo é outra. Sei que é duro discordar de quem se admira, mas que sejamos ao menos educados com quem já nos emocionou tanto.
O país que esnoba seus artistas perde o próprio rosto, quebra sua espinha dorsal, fragiliza seu caráter. De qualquer forma, chegou a hora: cada um de nós decidirá o futuro de todos.
Não é pouca responsabilidade. Que a gente saia para votar e, ganhe quem ganhe, que sua vitória seja reconhecida.
Pelo menos uma coisa acho que todos ainda temos em comum: saudades da paz.
O Globo