Em Istambul, na Turquia, gatos descansam em vitrines, ocupam cadeiras de cafés e circulam por mercados, praças e monumentos históricos sem causar estranhamento. A cidade tem mais de 160 mil felinos vivendo nas ruas, segundo estimativa da administração municipal.
Alimentados por moradores e comerciantes, os animais fazem parte da paisagem urbana e de uma tradição que atravessa séculos. 'Herói': Homem recebe recompensa de R$ 5 mil por subir em ônibus escolar em movimento para salvar 18 crianças
Khada tapasya: o que acontece com o corpo de quem passa anos em pé? A relação entre os gatos e a população local remonta ao período otomano.
Quando os otomanos conquistaram Constantinopla, em 1453, os animais já eram vistos nas proximidades de peixarias e açougues, onde encontravam alimento e ajudavam a controlar roedores. Segundo Altan Armutak, especialista em história veterinária da Universidade de Istambul ouvido pela AFP, alimentar os felinos era considerado uma forma de oferenda a Deus.
A tradição se mantém em diferentes bairros da cidade, que se estende pelos continentes europeu e asiático. É comum encontrar recipientes com água e comida nas calçadas, pequenas estruturas usadas como abrigo e moradores que levam animais doentes para receber atendimento veterinário.
Alguns gatos também são acolhidos temporariamente por estabelecimentos comerciais, onde dormem e circulam entre clientes. A prefeitura mantém serviços veterinários para os animais de rua, com atendimentos que incluem vacinação, tratamento e castração.
Em 2025, a administração municipal esterilizou mais de 43 mil gatos, número 12 vezes superior ao registrado em 2015, segundo dados divulgados pela AFP. A cidade também conta com o Vetbus, serviço móvel que leva atendimento veterinário a diferentes áreas.
A convivência, no entanto, também apresenta desafios para a gestão urbana. Autoridades locais manifestaram preocupação com o excesso de comida deixada nas ruas, que pode atrair roedores.
A grande quantidade de animais exige ações de controle populacional e cuidados sanitários, além da participação dos moradores. Os gatos também se tornaram parte da identidade turística de Istambul.
Muitos visitantes encontram os animais em locais históricos, como a Basílica de Santa Sofia e o Palácio de Topkapi, antiga residência dos sultões otomanos. Neste último, uma abertura histórica para a passagem de gatos foi restaurada em 2026, segundo informações divulgadas pela AFP.
Alguns felinos conquistaram fama própria. Tombili, conhecido por aparecer sentado em uma posição descontraída em uma calçada do bairro de Kadıköy, tornou-se um fenômeno nas redes sociais.
Após sua morte, em 2016, moradores instalaram uma estátua de bronze em sua homenagem. Outra figura conhecida foi Gli, gata que viveu durante anos na Basílica de Santa Sofia.
Ela ganhou projeção internacional depois de ser acariciada pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante uma visita a Istambul, em 2009. Gli morreu em 2020, aos 16 anos, e recebeu homenagens na imprensa turca.
Para os moradores, o vínculo com os felinos ultrapassa a atração turística. Em entrevista à AFP, Gaye Koselerden, morador da cidade, afirmou que os gatos podem entrar em lojas e descansar até mesmo sobre tecidos expostos à venda.
A presença deles, disse, ajuda a explicar por que Istambul é frequentemente associada à imagem de uma cidade que acolhe os animais. A convivência também aparece na produção cultural local.
O documentário Kedi, lançado em 2016, acompanha gatos que vivem livremente em Istambul e as relações que estabelecem com as pessoas que cuidam deles. A obra ajudou a divulgar internacionalmente uma característica cotidiana da cidade: a presença de animais que não pertencem a um único tutor, mas recebem atenção de diferentes integrantes da comunidade.
O Globo