As emissões de gases de efeito estufa do 1% mais rico da população mundial foram responsáveis por 20% do aquecimento global registrado desde 1990. A contribuição desse grupo para a elevação das temperaturas é desproporcional à sua dimensão populacional: em média, cada pessoa dessa parcela emite 100 vezes mais carbono do que alguém entre os 50% mais pobres do planeta.
Os dados são de um levantamento da Oxfam Internacional divulgado em 27 de outubro, que relaciona a concentração de riqueza aos impactos das mudanças climáticas. O estudo também aponta que os 0,1% mais ricos do mundo, cerca de 8 milhões de pessoas, emitem mais carbono do que os mais pobres somados.
A análise combina informações sobre desigualdade nas emissões de carbono com modelos de atribuição climática para estimar os efeitos do aquecimento provocado pelos diferentes grupos de renda. Segundo a organização, uma pessoa entre os 0,1% mais ricos contribuiu quase 400 vezes mais para as ondas de calor extremas atuais do que alguém pertencente à metade mais pobre da humanidade.
As consequências ultrapassam a elevação das temperaturas. A Oxfam estima que apenas um ano de emissões do 1% mais rico provoque 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor.
Desse total, 78% devem ocorrer em países de renda baixa e média-baixa, responsáveis por apenas 8% das emissões globais. O impacto econômico também é expressivo.
As emissões do grupo deverão causar perdas de US$ 52,6 trilhões na produção econômica mundial até 2050. Desse montante, US$ 2,9 trilhões em perdas já teriam ocorrido entre 1990 e 2023, segundo os cálculos da organização.
A desigualdade aparece também na capacidade de enfrentar os eventos extremos. Enquanto famílias vulneráveis podem perder moradias, plantações e fontes de renda em enchentes, secas e incêndios, os mais ricos conseguem investir em seguros privados, imóveis mais protegidos e estruturas particulares de emergência.
O relatório estima ainda que até 1 bilhão de pessoas possam ser deslocadas pela crise climática até 2050, principalmente em países do Sul Global. Quem ganha com a adaptação ao calor
A Oxfam também chama atenção para os negócios que se expandem com os impactos do aquecimento global. O mercado de recuperação e reconstrução após desastres deverá crescer de US$ 70 bilhões para US$ 92 bilhões anuais até 2029.
Em um índice chamado Destroy & Rebuild (Destruir e Reconstruir), a organização identificou 217 empresas com atuação tanto em setores que contribuem para o agravamento da crise climática quanto em atividades de preparação e recuperação de catástrofes. BlackRock e Vanguard, duas das maiores gestoras de recursos do mundo, têm investimentos em 92% dessas companhias, que somam mais de US$ 1 trilhão em aplicações das duas empresas.
Para a Oxfam, essa conexão evidencia uma contradição econômica, em que investidores podem obter retornos de atividades que contribuem para o aquecimento global e, ao mesmo tempo, de negócios que atendem à demanda por reconstrução e proteção diante de seus efeitos. A organização defende que os governos ampliem a tributação sobre grandes fortunas, empresas de combustíveis fósseis e bens de luxo com alta pegada de carbono, como jatos particulares.
Também pede mais financiamento climático para países vulneráveis, priorizando doações e recursos públicos, além da ampliação dos investimentos em adaptação. O levantamento coloca em discussão a distribuição da responsabilidade pelo aquecimento global e dos custos de seus impactos.
Para a Oxfam, reduzir as emissões dos grupos mais ricos e enfrentar a concentração de poder econômico são medidas fundamentais para evitar que a crise climática aprofunde ainda mais as desigualdades.
Valor