Yasmin Brunet encontrou uma maneira curiosa de falar sobre cuidados com a pele nas redes sociais. A modelo viralizou no TikTok ao compartilhar vídeos preparando e experimentando gelatinas coloridas com frutas, em receitas apresentadas sob a chamada "vem comer meu skincare comigo".
Com ingredientes como morango, manga, uva e água de coco, as sobremesas despertaram a curiosidade dos seguidores e trouxeram uma dúvida: consumir gelatina pode realmente ajudar a manter a pele firme e com aparência jovem? Saiba: O que muda na pele ao longo do tempo e como adaptar os cuidados
Pele bonita nas festas de fim de ano: quais cuidados começar agora A associação tem uma explicação: a gelatina é produzida a partir do colágeno, proteína que participa da estrutura e da sustentação da pele.
Isso, porém, não significa que comer a sobremesa tenha o mesmo efeito de um tratamento estético ou que a proteína ingerida seja aproveitada diretamente pelo rosto. Durante a digestão, o colágeno é dividido em aminoácidos e pequenos peptídeos, que podem ser utilizados pelo organismo em diferentes funções.
Por isso, não há garantia de que o consumo de gelatina aumente a firmeza da pele ou reduza rugas. O especialista em skincare e CEO da Piny, Lucas Penteado, explica que a tendência tem relação com pesquisas sobre o colágeno, mas que os resultados costumam ser apresentados de maneira simplificada nas redes sociais.
"Alguns estudos com peptídeos de colágeno hidrolisado mostram melhora discreta em hidratação, elasticidade e aparência de linhas após algumas semanas de uso. Ao mesmo tempo, quando olhamos para os estudos de maior qualidade, a evidência ainda não é tão definitiva quanto o marketing costuma fazer parecer", pondera.
Ele ressalta que não se deve esperar uma transformação imediata com o consumo da sobremesa. "Não é exatamente um 'skincare de comer' com resultado garantido.
E gelatina não é um filtro de Instagram em forma de sobremesa", brinca. O colágeno ingerido chega até a pele?
Depois de consumido, o colágeno passa pelo processo de digestão, que o transforma em componentes menores. Parte desses fragmentos pode ser absorvida pelo organismo, e pesquisas investigam sua possível participação em mecanismos relacionados à atividade dos fibroblastos, células envolvidas na produção de componentes da estrutura da pele.
"Não funciona como se você comesse colágeno e o organismo o entregasse inteiro diretamente para o rosto. Às vezes, a comunicação nas redes dá a impressão de que o colágeno ingerido ‘vira colágeno da pele’, e biologicamente é muito mais complexo do que isso", observa Lucas.
Os estudos que investigam possíveis benefícios da suplementação apontam resultados após semanas de consumo contínuo, e não depois de comer gelatina ocasionalmente. Mesmo quando observados, os efeitos tendem a ser discretos.
Além disso, fatores como alimentação, exposição solar, sono, genética e cuidados diários também participam da saúde e da aparência da pele. O dermatologista Gustavo Saczk, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), reforça que é importante distinguir os efeitos de uma alimentação equilibrada daqueles atribuídos a tratamentos estéticos.
Embora existam pesquisas sobre suplementos específicos de peptídeos de colágeno, os resultados ainda apresentam limitações e não podem ser automaticamente associados à gelatina convencional. Gelatina comum, colágeno em pó e hidrolisado: qual é a diferença?
Apesar de terem relação com a mesma proteína, esses produtos não são equivalentes. A gelatina convencional fornece aminoácidos, mas não corresponde à forma de colágeno utilizada na maioria das pesquisas sobre suplementação voltada à saúde da pele.
O colágeno hidrolisado, por sua vez, passa por um processo que quebra a proteína em fragmentos menores, chamados peptídeos. Essa apresentação aparece com mais frequência nos estudos que investigam possíveis efeitos sobre hidratação e elasticidade cutânea.
"E 'colágeno em pó' por si só diz muito pouco. Eu olharia o rótulo: qual é a forma de colágeno, qual é a quantidade realmente fornecida e o que mais existe naquele produto", orienta Lucas.
Segundo o especialista, os peptídeos de colágeno hidrolisado contam com mais pesquisas nesse contexto do que a gelatina comum. Isso não significa, entretanto, que a suplementação garanta resultados ou dispense outros cuidados com a pele.
Quais alimentos podem ajudar na saúde da pele? As frutas presentes nas receitas de Yasmin também têm características nutricionais que merecem atenção.
Morango, laranja, goiaba e outras fontes de vitamina C fornecem um nutriente essencial para a síntese natural de colágeno. Já as frutas vermelhas contêm compostos antioxidantes que participam da proteção das células.
O benefício, no entanto, não depende de uma preparação específica, mas do conjunto da alimentação. Uma dieta equilibrada oferece diferentes nutrientes necessários ao funcionamento do organismo e à manutenção dos tecidos.
"Proteína adequada e alimentos ricos em vitamina C são uma combinação muito mais interessante do que parece. A vitamina C participa diretamente da síntese normal de colágeno, então frutas cítricas, kiwi, morango, goiaba, pimentão e vegetais entram muito bem nessa lógica", afirma Lucas.
A alimentação também pode influenciar outras condições que afetam a pele. No caso da acne, por exemplo, pesquisas investigam possíveis associações com padrões alimentares de alta carga glicêmica e fatores como consumo de laticínios, whey protein e proporção entre ômega-3 e ômega-6.
Essas relações, porém, não significam que determinados alimentos devam ser retirados da dieta indiscriminadamente. "Saúde da pele não é só colágeno.
O que você come influencia a pele, mas o que você coloca nela também importa e são mecanismos completamente diferentes", ressalta o especialista. Alimentação substitui os cuidados dermatológicos?
A produção e a preservação do colágeno são influenciadas por diferentes fatores, entre eles idade, genética, exposição solar e tabagismo. Por isso, uma alimentação adequada é apenas parte dos cuidados necessários para manter a saúde cutânea.
O uso diário de protetor solar, o sono adequado e uma rotina de cuidados compatível com as características da pele continuam sendo medidas importantes. A indicação de produtos e tratamentos também depende das necessidades individuais.
Lucas lembra que os suplementos de colágeno e os cosméticos de uso tópico têm finalidades distintas. Embora a proteína seja estudada em relação à estrutura e ao envelhecimento da pele, ela não atua diretamente sobre todas as condições dermatológicas.
"Colágeno pode ser estudado para envelhecimento e estrutura da pele, mas não é um tratamento 360. Ele não vai, por exemplo, desobstruir um poro ou controlar diretamente a produção de sebo", acrescenta.
Para o cuidado com a acne e a oleosidade, o especialista cita ativos como ácido salicílico, niacinamida, zinco PCA e ácido glicólico, presentes em formulações destinadas a essas necessidades. As receitas compartilhadas por Yasmin Brunet podem ser uma maneira diferente de consumir frutas e variar o cardápio.
A associação com o skincare, entretanto, precisa ser vista com cautela: embora a alimentação participe da saúde da pele, uma sobremesa à base de gelatina não oferece, por si só, os efeitos de um tratamento de rejuvenescimento.
O Globo