O retorno de Donald Trump à Casa Branca alterou o cálculo político em torno de fusões e aquisições, reacendendo o interesse das empresas por operações transformacionais que haviam se tornado difíceis de executar. Agora, porém, o tempo passou a ser um fator decisivo.
A derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato criou um senso repentino de urgência nos conselhos de administração, com executivos se perguntando se ainda têm uma última oportunidade para realizar grandes transações estratégicas enquanto reguladores favoráveis a fusões permanecem nos cargos durante o governo Trump.
Conversas com assessores de alto escalão indicam que o resultado eleitoral já está levando empresas a avaliar se devem acelerar planos de grandes operações. A percepção é de que um Partido Democrata fortalecido poderá dificultar o tipo de megatransações que ganharam força durante o segundo mandato de Trump e impulsionaram receitas recordes em Wall Street.
Kevin Foley, copresidente da área de banco de investimento do JPMorgan Chase, uma das principais instituições de assessoria financeira do mundo, afirmou que as empresas precisam estar preparadas para realizar negócios mesmo em um ambiente operacional complexo. "O maior risco pode ser presumir que, mais cedo ou mais tarde, tudo voltará ao normal", disse Foley.
"Ficar parado é sempre uma opção, mas, quando os setores estão mudando tão rapidamente, é a errada." Fernando Rivas, executivo sênior do Wells Fargo, foi ainda mais direto durante uma conferência do setor em Boston na quinta-feira.
Segundo ele, uma mentalidade de "agora ou nunca" deverá voltar a impulsionar a atividade de fusões e aquisições no curto prazo. Os dois mandatos de Trump concentraram uma parcela desproporcional dos maiores negócios corporativos dos últimos anos.
Mais da metade de todas as transações anunciadas de pelo menos US$ 50 bilhões envolvendo empresas americanas nas últimas duas décadas ocorreu durante períodos em que Trump esteve na Presidência, segundo análise de dados compilados pela Bloomberg. Somente neste ano foram anunciadas combinações históricas em setores considerados críticos, como energia e tecnologia.
Um exemplo foi a aquisição da fabricante de lasers Lumentum Holdings pela Marvell Technology, em uma operação superior a US$ 100 bilhões anunciada neste mês. Em outro caso, o Departamento de Justiça aprovou a aquisição da Warner Bros.
Discovery pela Paramount Skydance, avaliada em US$ 110 bilhões, sem impor remédios antitruste. Há uma urgência particular em torno dessas operações mais complexas.
Megafusões podem levar meses para serem negociadas e ainda mais tempo para obter aprovações regulatórias ao redor do mundo. Empresas que esperarem até que a campanha presidencial de 2028 esteja em pleno andamento correm o risco de ver suas operações se transformarem em temas de disputa política.
"Se você tem uma grande transação que exigirá tempo para ser estruturada e aprovada, precisa começar a trabalhar nela agora e provavelmente anunciá-la até meados de 2027", disse Paul Nary, professor assistente de administração da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia.
"Não resta assim tanto tempo." Mudança no equilíbrio de poder
Um dos principais testes para o mercado de megafusões no novo cenário político poderá ser uma possível combinação entre a SpaceX e a Tesla. A operação estaria entre as maiores e mais sensíveis da história corporativa dos Estados Unidos e serviria para medir a influência de Elon Musk junto a Trump em um momento de mudança na correlação de forças em Washington
A Bloomberg News informou que Musk, que gastou quase US$ 500 milhões apoiando candidatos republicanos nas eleições legislativas, defende anunciar a fusão de suas duas principais empresas até o primeiro semestre de 2027. Mas a situação ficou mais complicada.
As ações da Tesla e da SpaceX perderam valor em meio a preocupações de que um Congresso controlado pelos democratas possa investigar os negócios e a atuação política de Musk e, de forma mais ampla, tentar desacelerar o avanço do setor de inteligência artificial, do qual ele é um dos principais defensores.
Embora os democratas não assumam o controle do Departamento de Justiça (DOJ) nem da Federal Trade Commission (FTC), responsáveis pela fiscalização de fusões, o domínio das duas casas do Congresso lhes dará novos instrumentos para examinar operações de grande porte por meio de audiências, investigações e intimações, além de ampliar o escrutínio público sobre empresas e reguladores.
Diversas operações em andamento, e até algumas já concluídas, podem se tornar alvos precoces do novo Congresso a partir de janeiro. A compra da Maplebear (controladora da Instacart) pela DoorDash por US$ 17 bilhões recebeu críticas de democratas influentes, incluindo o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que afirmou que a transação resultaria em "preços mais altos, exploração mais dura e maior desigualdade econômica".
Já senadores como Ed Markey e Richard Blumenthal questionaram a aquisição da Dominion Energy pela NextEra Energy, avaliada em US$ 67 bilhões, alertando para possíveis efeitos negativos sobre a concorrência e os custos para consumidores. O senador Cory Booker também prometeu promover supervisão legislativa sobre a fusão entre Paramount e Warner Bros.
Discovery, concluída no mês passado. "O Congresso tem tempo e recursos limitados, então não vai investigar todas as transações", afirmou Paul Humphreys, copresidente global da área industrial do escritório de advocacia Freshfields.
"Eu esperaria um foco em temas específicos, especialmente acessibilidade de preços e responsabilidade corporativa." Segundo Humphreys, o Congresso tem capacidade de convocar executivos, emitir intimações e colocar uma operação sob intenso escrutínio político mesmo depois de ela já ter sido aprovada pelos reguladores.
Enfraquecimento da tese de IA Outro desafio imediato para os banqueiros de investimento é a perda de força da narrativa ligada à inteligência artificial, que sustentou algumas das maiores transações do segundo mandato de Trump.
A expansão dos data centers foi tema de votação em diversos estados durante as eleições legislativas, e os eleitores acabaram enviando um recado claro contra o ritmo acelerado de crescimento dessa infraestrutura. Os mercados, que já demonstravam preocupação com o enorme volume de investimentos necessários para a IA, passaram a considerar também o risco de restrições mais duras à infraestrutura digital que sustenta essa tecnologia.
O índice Philadelphia Semiconductor, referência para o setor de chips, registrou na semana passada sua maior queda diária desde o choque provocado pela pandemia de covid-19 em março de 2020. A deterioração do sentimento colocou sob os holofotes o negócio entre Marvell e Lumentum.
As ações das duas empresas caíram após as eleições, adicionando uma nova variável a uma transação realizada integralmente em ações e cuja lógica estratégica depende fortemente da continuidade dos investimentos em data centers e conectividade para inteligência artificial. Nos últimos anos, vários bancos reforçaram suas equipes com profissionais politicamente conectados, apostando que uma boa interlocução com a administração Trump seria crucial para aprovar grandes negócios.
O resultado das eleições pode alterar essa estratégia, obrigando Wall Street a reconstruir pontes com os democratas mais cedo do que se imaginava. "Os executivos de fusões e aquisições estavam começando a entender como navegar pela Casa Branca de Trump e sua abordagem para o setor", disse Nary, da Wharton.
"Depois dessa onda azul, eles agora também vão precisar de uma estratégia para lidar com o Congresso."
Valor