Banqueiros se preparam para falar de IA 'em todas as conversas' durante cúpula climática na Turquia

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Fonte da notícia: Valor Valor

À medida que a tese de investimento em inteligência artificial mostra sinais de desgaste, banqueiros seniores que se reúnem na costa mediterrânea da Turquia esperam lançar as bases para negócios capazes de transformar o impacto de longo prazo da tecnologia. Na cidade turca de Antália, onde começa na segunda-feira a 31ª Conferência das Partes das Nações Unidas (COP31), .

O país anfitrião, a Turquia, identificou a eletrificação de uma parcela maior da economia mundial como um pilar essencial dessa agenda. E é aí que entra a inteligência artificial.

"Ela estará em todas as conversas", disse Daniel Hanna, diretor global de finanças sustentáveis e de transição do Barclays. Segundo ele, a IA pode criar "a demanda comercial de longo prazo que ajudará a acelerar a energia limpa e ampliar a escala de determinadas tecnologias climáticas".

A forte correção das ações de tecnologia na semana passada foi provocada pela expectativa de que os resultados das eleições legislativas americanas levem a mais regulamentação para a IA, incluindo exigências mais rígidas de energia e meio ambiente para data centers no maior mercado de inteligência artificial do mundo.

"O que se vê nos mercados americanos neste momento é uma reação à perspectiva de muito mais regulação", disse Marisa Drew, diretora de sustentabilidade do Standard Chartered e uma das executivas que seguirão para Antália. Do ponto de vista dos investidores, a infraestrutura necessária para a IA exigirá "trilhões de dólares em investimentos", afirmou.

Segundo Drew, regras que aumentem a transparência ajudarão financiadores a tomar decisões mais informadas e a apoiar empresas "que sejam bons administradores das questões ambientais e sociais". Debate controverso

Tratar a inteligência artificial como uma possível solução para a crise climática continua sendo uma posição controversa. O consumo de energia, água e terrenos pelos sistemas de IA alimentou movimentos contrários à proliferação de data centers, enquanto organizações ambientais classificam a pegada de carbono da tecnologia como preocupante.

Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, já descreveu a IA como uma tecnologia "devoradora de energia", que contribui para o aumento das emissões. "Os líderes da IA estão em terreno instável", afirmou ele em setembro.

Em relatório divulgado pouco antes da COP31, o Standard Chartered descreveu o crescimento dos data centers como algo "nem ambientalmente inofensivo nem inerentemente insustentável". Segundo o banco, o impacto climático depende das escolhas feitas em cada local.

"Os data centers podem ser extremamente eficientes em suas operações", disse Drew em entrevista. "Mas isso depende das escolhas de projeto e das decisões tecnológicas adotadas."

Essas escolhas, segundo ela, também exigem consenso sobre quais práticas devem ser consideradas adequadas, o que torna a formulação de políticas públicas um tema central da COP. Consumo de energia em expansão

Ainda não existe uma estimativa definitiva sobre a pegada ambiental da inteligência artificial. Mas o aumento acelerado da demanda por eletricidade é incontestável.

Em abril, a Agência Internacional de Energia (AIE) afirmou que o consumo de eletricidade dos data centers voltados à IA deverá triplicar até o fim da década. Nesse horizonte, todos os data centers, incluindo aqueles não dedicados à inteligência artificial, responderão por cerca de 3% da demanda global de eletricidade, segundo a agência.

Hanna, do Barclays, afirma ter convicção de que a IA pode contribuir para um sistema energético "mais limpo e resiliente", embora reconheça que esse resultado não seja garantido. A eletrificação como oportunidade de investimento

Como anfitriã da COP31, a Turquia prometeu trabalhar com o setor de tecnologia para definir formas de utilizar a IA no combate ao aquecimento global, e não para agravá-lo. Expandir a inteligência artificial exigirá investimentos maciços para ampliar e modernizar redes elétricas.

A meta da presidência turca é fazer com que os países concordem em elevar para 35% a participação da eletricidade no consumo final global de energia até 2035, ante cerca de 23% atualmente, segundo estimativas da AIE divulgadas em setembro. Banqueiros que participarão da conferência afirmaram à Bloomberg que pretendem dedicar boa parte de seu tempo em Antália a discussões sobre como financiar essa transição.

Entre eles está o JPMorgan Chase, maior banco dos Estados Unidos, que enviará uma equipe composta por banqueiros de investimento e executivos de sustentabilidade. A instituição considera que a agenda da COP31 se encaixa em sua iniciativa de US$ 1,5 trilhão voltada para segurança e resiliência, anunciada no ano passado.

"A ambição de eletrificação nos dá ainda mais pontos de apoio e coincide exatamente com aquilo em que já estamos focados", disse Luke Nelson, diretor internacional de sustentabilidade do centro de energia e meio ambiente do JPMorgan. "Não é possível eletrificar a economia sem uma rede elétrica funcional."

Segundo Nelson, as discussões também abordarão segurança energética, enquanto guerras continuam contribuindo para a volatilidade dos preços de petróleo e gás. "Segurança energética pode ser entregue por meio da expansão das fontes renováveis", afirmou.

Embora o público principal da COP continue focado na agenda climática tradicional, o JPMorgan espera que os líderes empresariais presentes adotem uma abordagem mais pragmática, voltada para segurança e resiliência, com atenção para redes elétricas, energia nuclear e fontes renováveis.

Chance de novos negócios A meta de eletrificação da COP31 pode se tornar um novo catalisador para investimentos, afirmou Miranda Beacham, diretora de investimentos responsáveis do Reino Unido na Aegon Asset Management.

"É positivo ver a presidência concentrando esforços em tecnologias e infraestrutura que o setor financeiro já conhece e sabe financiar em larga escala." Para Sudip Hazra, diretor do First Sentier MUFG Sustainable Investment Institute, a ênfase na eletrificação aumenta as chances de que banqueiros deixem a conferência com negócios fechados ou, ao menos, com as bases lançadas para futuros acordos de financiamento.

"A oportunidade de investimento vai muito além da geração de eletricidade", disse. Ela envolve também redes de transmissão, armazenamento, subestações, edifícios, transporte e infraestrutura industrial.

Will Farrell, analista sênior de stewardship da EOS, unidade da Federated Hermes, afirmou que os profissionais do mercado presentes na cúpula terão a oportunidade de discutir uma "megatendência que abrange um conjunto amplo de oportunidades para investidores". Quanto ao impacto ambiental da inteligência artificial, Drew, do Standard Chartered, afirmou:

"O livro ainda não foi escrito. Tudo depende das escolhas que forem feitas."

Publicação Original Valor valor.globo.com
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