Na reta de chegada da campanha presidencial, aumentaram o contingente e a volatilidade dos indecisos, talvez porque a dureza dos ataques entre os candidatos tenha também provocado mais rejeição. Flávio Bolsonaro mantém o favoritismo numérico nas cinco pesquisas divulgadas ontem, mas sua vantagem sobre Luiz Inácio Lula da Silva é estreita. O aumento dos indecisos gera instabilidade nas campanhas e mostra que, agora, sim, a maioria dos eleitores entrou no debate eleitoral. Lula e Flávio também intensificam a presença nas redes e a mobilização dos apoiadores. Nesse ambiente, decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o funcionamento das plataformas podem interferir na capacidade de cada candidatura alcançar justamente quem ainda hesita.A Quaest registra de forma clara a mudança. Na pergunta espontânea, sem apresentação dos nomes dos candidatos, os indecisos passaram de 7% para 14% em uma semana. Flávio recuou de 43% para 40%, enquanto Lula passou de 42% para 40%. Na pesquisa estimulada, porém, quando os nomes são apresentados, a indefinição fica em 2%, ante 1% anteriormente. Ou seja, a hesitação é maior do que aquela captada pela escolha direta entre os dois concorrentes.A alteração é especialmente significativa entre mulheres e independentes. No eleitorado feminino, as indecisas passaram de 8% para 17% — Lula perdeu quatro pontos e Flávio, cinco. Entre os homens, a indefinição cresceu três pontos. Entre os independentes, o salto foi ainda maior: de 13% para 31%, acompanhado de recuos de 10 pontos para Lula e cinco para Flávio. Na direita não bolsonarista, o candidato do PL caiu de 89% para 82%, enquanto os indecisos chegaram a 9%. São segmentos nos quais as fidelidades políticas oferecem menor proteção contra o desgaste da campanha.O debate de domingo passado, marcado por acusações recíprocas, ajuda a analisar esse desconforto, embora a pesquisa não permita atribuir toda a mudança ao confronto: as entrevistas ocorreram entre os dias 17 e 20, abrangendo momentos anteriores e posteriores ao encontro. Na prática, com o confronto direto, os candidatos mobilizaram suas campanhas, mas deixaram parte do público sem resposta para preocupações concretas. A circulação incessante de cortes nas imagens do debate, para atacar os adversários, prolongou as polêmicas nos celulares e pode ampliar tanto a rejeição quanto a disposição de reconsiderar o voto.Nos votos válidos, Flávio aparece com 50,7% na Veritá, cerca de 50,6% na Quaest, 51,1% na Futura, aproximadamente 51% na Palver e 51,1% na Ideia. Todas lhe dão vantagem numérica, dentro das respectivas margens de erro. A distância para Lula diminuiu nas séries Veritá e Quaest, mas aumentou na Futura e na Palver. O favoritismo permanece sendo de Flávio, mas a disputa continua aberta e não se pode descartar uma virada de Lula.MordaçaÉ nesse cenário que a atuação do TSE preocupa. O Conselho de Supervisão da Meta, órgão independente, reconheceu falhas na aplicação das políticas antifraude às contas de anúncios de Lula e cobrou revisão especializada. A manifestação dá substância às reclamações de tratamento desigual. A empresa, por sua vez, nega interferência política e atribui os episódios a problemas técnicos. O reconhecimento das falhas exige apuração de seus efeitos e se houve favorecimento deliberado.Os episódios apontados como interferência ao impulsionamento de publicações de Lula e diferenças na geração de imagens pela inteligência artificial. A Meta admitiu que seus filtros nem sempre reconheciam candidatos identificados pela combinação de prenome e número eleitoral. O TSE determinou correções e comprovação de tratamento igualitário e, ontem, deu prazo de 24 horas ao Ministério Público Eleitoral para avaliar as medidas. Houve providências, mas a demora é injustificável. Numa campanha tão curta, uma oportunidade de comunicação perdida dificilmente pode ser restituída depois.Enquanto aguarda explicações da plataforma, a cúpula do tribunal discute restringir canais políticos de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação. O alcance formal seria geral, mas o impacto político da mordaça seria desigual: o Exército do Lula, com mais de 7 milhões de inscritos, tornou-se instrumento central da reação petista nas redes e nas ruas, enquanto o canal Tropa do Flávio tem 2,5 milhões. Após a repercussão negativa da iniciativa, Nunes Marques afirmou rejeitar mudanças de última hora; Mendonça sustentou que a minuta resultou de discussão coletiva. A Corte deverá tomar uma decisão ainda hoje.Os precedentes são preocupantes. Nunes Marques suspendeu o canal a pedido da campanha de Flávio. O relator Ricardo Villas Bôas Cueva restabeleceu seu funcionamento diante da insuficiência de provas. A análise técnica não localizou os conteúdos apontados, embora registrasse lacunas decorrentes de mensagens apagadas ou editadas. Depois de novo bloqueio, o registro formal pela campanha permitiu sua liberação.Combater ilícitos exige provas, rapidez e proporcionalidade. Discutir uma restrição geral às vésperas da votação, depois desse vaivém, abala a previsibilidade que a Corte deve assegurar. Com indecisos em alta e diferenças mínimas nas pesquisas, a paridade de armas precisa ser demonstrada em decisões coerentes. A confiança no resultado também depende da confiança nas condições da disputa. Saiba Mais Política Veja a ordem de votação e os horários nas diferentes regiões do país Política Campanha de Lula tem conversas com TV Globo sobre checagem de fatos no debate Política Flávio Bolsonaro desistiu da participação em sabatina do SBT, informa emissora Política Casagrande a Flávio: "Abra o sigilo como Lula, qual o medo?"
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