A maioria democrata eleita no Senado e na Câmara dos Estados Unidos deve fragilizar a presença de Eduardo e Flávio Bolsonaro no país, segundo o professor Lucas Souza Martins, que leciona história dos EUA na Temple University, na Filadélfia. Em entrevista à coluna, o professor afirmou que a presença dos irmãos será um dos focos de questionamento dos democratas que estarão à frente de comissões do parlamento, especialmente aquelas que debatem política externa.
— A presença do Flávio e do Eduardo se tornará parte deste processo de escrutínio pelos democratas. Isso vai ocorrer porque há uma sociedade civil brasileira relativamente organizada e em conexão com os democratas para pressionar o governo Trump desde antes da eleição brasileira sobre esse tema.
Agora, com os democratas sendo maioria nas duas casas legislativas, eles terão muito mais possibilidades de exigir respostas, de constranger mais o governo. Isso vai colocar os Bolsonaros em uma situação muito delicada.
Lucas Martins acredita que a vitória do Partido Democrata no Texas nas eleições de meio de mandato pode trazer reflexos diretos para Eduardo Bolsonaro, que vive naquele estado desde o ano passado. No Senado, o candidato democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton por 54,9% a 43,2%.
Um senador democrata não vencia no Texas desde 1988. O Partido Democrata também venceu a eleição para o governo do Texas com Gina Hinojosa, que será a primeira governadora de origem latina do estado.
Ela teve 57,1% dos votos contra o republicano Greg Abbott, que obteve 41,6%. Abbott é um dos principais quadros do Partido Republicano e tenta a quarta reeleição.
— Considerando que Eduardo Bolsonaro mora no Texas e o governo do Texas passa a ser democrata, isso coloca a situação política do Eduardo como algo delicado. Haverá dificuldades, por exemplo, de articulação federal, pensando que as políticas implementadas pelo governo Trump podem ser recusadas ou ignoradas pelo Texas.
Os democratas farão pressão na questão da política externa, na questão do asilo do Flávio e na presença do Eduardo naquele estado. Isso pode colocá-lo numa situação complicada que o faça se mudar para a Flórida, que segue com um governador republicano — disse o professor.
A avaliação de Lucas Martins é que um dos principais aliados da família Bolsonaro nos EUA, o secretário de Estado Marco Rubio, será alvo prioritário no Congresso. — Para os democratas, um dos principais temas de ataque político será a política externa, até porque Marco Rubio é o presidenciável com mais visibilidade hoje.
Ele será uma fonte de ataques por parte dos parlamentares que coordenarão os comitês da Câmara e do Senado. O professor ainda falou sobre o avanço dos democratas na Flórida, que continua sob comando dos republicanos.
— Os republicanos saíram enfraquecidos e divididos na Flórida. Estamos falando de um estado tradicionalmente republicano em que o novo governador do partido foi eleito com margem magra.
O atual governador, também republicano, deixa o cargo com críticas a Trump na guerra do Irã e tem ambições presidenciais. Uma congressista próxima a Rubio e ao bolsonaristas, Maria Salazar, correu risco de perder sua cadeira e venceu com margem estreita.
A onda azul também chegou à Flórida dentro das proporções do estado — disse Lucas Martins.
O Globo