Nos últimos dias, tenho tido contato, creio que por destino, com histórias horrendas. Desesperadoras, daquelas que nos fazem perder a esperança na humanidade.
Tanta dor, tanta injustiça, e tudo parece ser em vão. Crianças violentadas, grávidas mortas junto de seus bebês, meninos pequenos já abandonados que, antes dos 15 anos, conheceram a dor de uma vida inteira.
Honestamente, quis desistir. Senti-me fraco e pequeno diante de tantas tragédias.
Mas, em meio a essas mesmas histórias, encontrei pessoas incríveis que, mesmo diante da desgraça e da solidão, tiraram forças para proteger aquilo que lhes restou e preservar a memória daquilo que um dia tiveram. Foi nesse contexto que ouvi a frase de uma dessas fontes: “A dor é um caminho de justiça”.
Persistir, afinal, é também uma maneira de impedir que o sofrimento seja em vão. Quando já não encontramos motivos dentro de nós mesmos para seguir, é na empatia que podemos encontrar forças.
Quando estamos quebrados, muitas vezes é no outro que nos reconstruímos. Precisamos ser capazes de sentir a dor que não é nossa para que, quando ela nos pertencer, também possamos encontrar quem a compartilhe.
Pode não parecer, mas somos responsáveis uns pelos outros, mesmo quando somos completos desconhecidos. Esse entendimento é antigo.
Há quase 2 mil anos, um dos relatos bíblicos registra uma passagem em que Jesus diz: “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me”. Quando questionado sobre em que momento havia sido visto nessas condições, respondeu: “Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”.
O sofrimento pode ser imensurável e o desespero, insistente. Mas nenhum dos dois pode nos fazer abandonar a esperança ou o desejo de ver a justiça acontecer.
É preciso persistir. Não apenas por aqueles que sofreram, mas para que suas histórias não sejam esquecidas e suas dores não sejam tratadas como inevitáveis.
E, para encerrar, lembro de um ponto de Seu Zé Pilintra que, em outro espectro da fé, também traduz essa responsabilidade coletiva: “Uma vela inteira não lumeia uma favela, mas vai iluminar o caminho da casa dela”. Talvez seja justamente isso, podemos não mudar o mundo e acabar com a escuridão, mas podemos ajudar alguém encontrar o caminho da esperança, às vezes, com um ato singelo.
Jornal Opção