Há 10 anos, o Grupo Cultural AfroReggae, formado após a Chacina de Vigário Geral com o objetivo de afastar jovens do tráfico e da violência em favelas e periferias através da arte, da inclusão social e da educação, deu seus primeiros passos no audiovisual ao iniciar o desenvolvimento de “A divisão” (2019), série que faria sua estreia três anos depois, no Globoplay. Ao lado da plataforma de streaming, a ONG carioca deu pontapé inicial em uma parceria que renderia obras como “Arcanjo renegado” (2020), “O jogo que mudou a história” (2023) e “Betinho: No fio da navalha” (2023), além das séries documentais “Belo – Perto demais da luz” (2024) e “Neguinho da Beija-Flor — Soberano da avenida” (2025). Hoje, chega ao streaming a mais nova produção do grupo: “Verônica com K”, série do mesmo universo de “A divisão”, “Arcanjo renegado” e “O jogo que mudou a história”, e que traz Roberta Rodrigues como uma advogada criminalista que presta serviços para o tráfico. Criador e showrunner da produção, José Junior conta que “Verônika com K” foi pensada para ser a segunda série do AfroReggae Audiovisual, começando a ser desenvolvida em 2017. Por uma série de fatores, a obra acabou engavetada. Passados alguns anos, a personagem Verônika acabou fazendo sua estreia na terceira temporada de “Arcanjo renegado”, até que conseguiu, agora, sua própria série. — Sempre tive interesse em abordar a história dessas advogadas criminalistas que têm um papel muito importante nesse universo do narcotráfico e das milícias — explica Junior, de 58 anos, que se inspirou em uma experiência internacional para criar um universo compartilhado entre suas séries. — Eu poderia inventar mil histórias, mas sendo muito sincero, o que me inspirou foi a Marvel. Eu vi aqueles filmes e pensei, “dá pra fazer isso no Brasil também”. E isso só foi possível porque fizemos tudo com o mesmo criador, a mesma produtora e a mesma plataforma de streaming. Roberta Rodrigues em cena de "Verônika com K" Divulgação/Cesar Diógenes Das obras de ficção da produtora, apenas “Betinho” não está inserida no chamado AfroVerso, que reúne histórias passadas no fictício Morro do São Jerônimo. Atualmente, o criador explica que sempre que vai escrever uma nova série, já pensa na possibilidade de encaixar a trama ou seus personagens nas outras produções. Além da personagem principal, “Verônika com K” apresentará outros nomes que já estiveram nas outras séries da companhia, como Mikhael (Marcello Melo Jr.), Paulista (Belo), Poke (Thiago Hypólito), Rod (Dhério Chagas), Rafael (Alex Nader), dentre outros. Junior revela que “Verônika com K” nasce da vontade de realizar uma série de tribunal. — Vemos muitas nos Estados Unidos, mas sentia que faltava uma série de tribunal no Brasil. Mantemos o elemento da ação, que está presente nas nossas séries, mas nossos grandes momentos não são de tiroteiro, mas sim no tribunal — diz. — A Roberta fez uma preparação de muitos meses com as advogadas que inspiraram a série. Verossimilhança Com oito episódios lançados de uma vez só, “Verônika com K” conta com direção-geral de Silvio Guindane, protagonista de “A divisão” que também atua em “Arcanjo renegado”. A trama se passa seis anos antes da quinta temporada de “Arcanjo”, que estreia em novembro, também no Globoplay. Como nas obras anteriores, Junior busca inspiração na realidade para contar histórias passadas em um cenário que conhece bem. — Me sinto um centurião da verossimilhança. Nestes 10 anos, pude pegar toda essa vivência que o AfroReggae tem e colocar em produtos audiovisuais, tanto nos de dramaturgia quanto nos docs. Quando fizemos a série do Belo, não foi porque eu gostava de pagode ou pelo sucesso musical dele e sim por ele ter sido egresso do sistema penal — lembra o showrunner. — Somos uma produtora preocupada com temas sociais, você não vai me ver fazendo uma história sobre surf ou uma série sobre o Roberto Carlos. Belo em cena de "Verônika com K" César Diógenes/Divulgação Com exceção de “Betinho: No fio da navalha”, estrelada por Júlio Andrade, todas as produções do AfroReggae Audiovisual contam com protagonista de artistas pretos. — Se fosse diferente, o nome da produtora seria BrancoReggae, né? — brinca o realizador. — Como a produtora é um braço da ONG, é natural não só que nossos atores sejam pretos, mas também oriundos da favela ou da Baixada Fluminense. A maior parte da população brasileira é feita por pessoas pretas e pardas e elas gostam de se ver na tela. Acho que fazemos uma reparação histórica de dar protagonismo quantativa e qualitativamente. Neste sentido, Junior se permite uma maior liberdade poética para colocar pessoas pretas em posições de poder que, muitas vezes, são impedidos de ocupar. — Tenho muito orgulho de termos colocado Zezé Motta, em “Arcanjo renegado”, como secretária de Educação e reitora de uma universidade. Você não tem reitores de universidades pretos no Brasil. Também colocamos Cris Vianna como presidente da Alerj (Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). Acho que podemos esperar mais 20 anos e não teremos uma pessoa preta como presidente da Alerj — destaca Junior. — Está no DNA da produtora empoderar histórias e artistas pretos. No momento, além de “Verônika com K”, o AfroReggae Audiovisual trabalha nas gravações da sexta temporada de “Arcanjo renegado” e na produção do filme “Na linha de fogo”, passado no AfroVerso e realizado em parceria por Globoplay e Disney. Além disso, preparam o lançamento de um livro sobre os 10 anos da parceria entre AfroReggae e Globoplay.
'Verônika com K' expande universo de 'Arcanjo renegado': 'O que me inspirou foi a Marvel', diz criador
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O Globo
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