Enquanto investidores fogem de ativos brasileiros após a surpreendente reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e um dia depois da Bolsa de Valores do Brasil amargar queda de 13,8%, a maior desde 2020, Rajiv Jain se prepara para fazer o que já fez antes: comprar em meio ao pânico. O cofundador da GQG Partners, gestora que é a maior acionista privada da Petrobras, vê exagero na reação ao resultado da eleição, já que as empresas brasileiras continuam com avaliações promissoras, lucros sólidos e boas perspectivas de pagamento de dividendos.
— Se você adotar uma visão de longo prazo, acreditamos que o Brasil seja um dos melhores mercados de ações entre os emergentes, disse Jain — que administra cerca de US$ 150 bilhões, em entrevista. —Podemos comprar se a venda ficar mais intensa.
Os mercados brasileiros despencaram na segunda-feira depois que a vitória inesperada de Lula nas eleições presidenciais. O real sofreu a maior queda em mais de duas décadas, e o Ibovespa chegou a recuar 17%, o que acionou o primeiro circuit breaker da B3, a Bolsa de São Paulo, desde 2020.
A derrocada mostrou o tamanho do otimismo com Flávio Bolsonaro, cuja liderança no primeiro turno, três semanas antes, alimentou expectativas de uma política fiscal mais austera para conter o avanço da dívida pública. Os comentários de Jain vêm em um momento difícil para a GQG.
A gestora enfrenta fortes resgates depois que a postura anteriormente pessimista de Jain em relação à inteligência artificial contribuiu para um desempenho abaixo do mercado. O seu fundo de mercados emergentes acumula retorno inferior a 2% neste ano, ante alta de 14% do índice de referência.
Jain, no entanto, espera que a turbulência no Brasil repita uma oportunidade que identificou em 2022. Naquele ano, a GQG ampliou o investimento na Petrobras e se tornou a maior acionista privada da companhia, quando outros investidores se desfizeram dos papéis diante do receio de que a volta de Lula ao poder trouxesse maior interferência política em áreas que iam da política de preços dos combustíveis aos dividendos (parcela do lucro) pagas aos acionistas.
A aposta contrária ao consenso deu resultado. A Petrobras acumula retorno superior a 285%, incluindo dividendos, em dólares desde então, superando até algumas gigantes de tecnologia dos EUA que registraram forte valorização, entre elas Microsoft, Amazon e Alphabet.
Jain citou o primeiro período de Lula na Presidência, no início dos anos 2000, quando as ações brasileiras subiram em meio a um boom global de commodities, como evidência de que receios políticos não necessariamente se traduzem em retornos ruins para os investimentos. — As pessoas sempre têm esse medo, mas os freios e contrapesos ainda funcionam razoavelmente bem — disse Jain.
— Na nossa avaliação, vender Brasil agora seria um erro. Os mercados locais se estabilizavam após as fortes perdas de segunda-feira, com o principal índice de ações recuando cerca de 0,7% e o real avançando 1,1% na manhã de terça-feira.
O Brasil continua sendo o maior overweight (recomendação de compra) de Jain entre os mercados emergentes, mesmo depois de ele reduzir as participações nos últimos meses para financiar compras de ações de empresas de semicondutores em Taiwan e na Coreia do Sul, diante da mudança para uma visão otimista sobre IA.
No fim de setembro, as ações brasileiras representavam 14% do GQG Partners Emerging Markets Equity Fund, que tem uma carteira total de US$ 18 bilhões, ante 24% em março. Reduzir o déficit orçamentário do Brasil continua crucial para baixar os custos de financiamento no país, medidos pela taxa básica de juros Selic, atualmente em 13,75%, e reanimar a maior economia da América Latina.
Embora a vitória de Lula tenha renovado as dúvidas sobre essa perspectiva, Jain disse que ainda há espaço para reformas favoráveis ao mercado durante o governo. Jain disse que os investidores tendem a exagerar as consequências das mudanças políticas para empresas como a Petrobras, que “ainda está barata” e oferece bom retorno em dividendos.
Ele também recomenda bancos e empresas de serviços públicos brasileiras. — A política no Brasil nunca é tão boa quanto as pessoas acham nem tão ruim quanto imaginam — disse.
— A resposta geralmente está em algum lugar no meio.
O Globo