Vencedora do Nobel de Literatura, Anne Carson convive com Parkinson e faz boxe para controlar sintomas

Vencedora do Nobel de Literatura, Anne Carson convive com Parkinson e faz boxe para controlar sintomas - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

A canadense Anne Carson, de 76 anos, foi anunciada nesta quinta-feira (8) como vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2026. A Academia Sueca afirmou que a escritora foi escolhida por sua “obra ousada e inventiva” e pela criação de novas formas literárias a partir de um diálogo lúdico com a tradição clássica.

O anúncio ocorre durante a semana de entrega dos prêmios Nobel, que começou com as categorias científicas e terá ainda o Nobel da Paz e o de Economia. Carson sucede o húngaro László Krasznahorkai, vencedor em 2025, e se torna a 19ª mulher laureada com o Nobel de Literatura.

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Quando o corpo passa a fazer parte da escrita Conhecida por misturar poesia, prosa, ensaio e tradução, Carson construiu uma obra marcada pela aproximação entre os clássicos greco-romanos e experiências contemporâneas.

Mas, em um ensaio sobre mãos e caligrafia, ela voltou o olhar para o próprio corpo depois de ser diagnosticada com Parkinson, e transformou a doença em objeto de reflexão literária. “Quando fui diagnosticada com a doença de Parkinson, um sintoma particularmente humilhante para mim foi a deterioração da minha caligrafia”, escreveu.

A autora conta que costumava preencher cadernos e que, depois da doença, os traços passaram a se curvar, quebrar e perder a regularidade. “Apago parágrafos inteiros de vergonha”, relata, segundo o London Review Book.

A experiência não aparece apenas como relato médico. Carson usa o problema para questionar a própria ideia de identidade.

Para ela, a caligrafia era uma extensão do cérebro e, consequentemente, de quem escrevia. “Sua caligrafia é seu cérebro e seu cérebro é você”, afirma no texto.

O Parkinson, ao alterar justamente essa escrita manual, passa a interferir também na percepção que a autora tem de si mesma. Tremor, movimento e a tentativa de recuperar o controle

Em outro trecho, Carson descreve como atividades banais passaram a exigir atenção consciente. Escovar os dentes, caminhar ou escrever deixaram de ser movimentos automáticos.

Ao falar sobre o tremor na mão direita, ela conta que precisa modificar deliberadamente o movimento do braço ou segurar com firmeza o cabo da escova para tentar controlá-lo. De acordo com o London Review Book, a escritora também relata que frequenta aulas de boxe três vezes por semana com outras pessoas que têm Parkinson.

Os exercícios, diz, exigem concentração permanente. “Quanto mais aprendo sobre a doença de Parkinson, mais a vejo como uma luta constante contra uma correnteza implacável”, escreveu.

Exemplares de livros da autora canadense Anne Carson estão em exposição na Academia Sueca, em Estocolmo, Suécia, após uma coletiva de imprensa realizada em 8 de outubro de 2026 para anunciá-la como vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2026. AFP

É nesse ponto que a doença deixa de ser apenas um tema autobiográfico e se mistura à própria maneira como Carson pensa a literatura. A perda de controle dos movimentos, a dificuldade de escrever e a necessidade de prestar atenção a cada gesto passam a alimentar uma reflexão sobre tempo, corpo, consciência e mortalidade.

Carson também associa a experiência à imagem de uma “porta negra” que acompanha a vida humana. Em sua reflexão, a doença torna essa presença impossível de ignorar: “A doença de Parkinson é sempre agora.

Ou talvez pudéssemos dizer que a doença nos lembra que a vida é agora.” A escolha da Academia Sueca, portanto, reconhece uma obra que há décadas mistura erudição e experiências íntimas.

No Brasil, Carson começou a ser publicada em 2017 e tem livros lançados por diferentes editoras. Para a escritora Adriana Lisboa, sua produção consegue aproximar referências sofisticadas de sentimentos universais, como “a euforia do amor” e “a dor da perda”.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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