Vegano, bem vindo à crítica

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Este texto foi enviado na newsletter semanal O Crítico Antigourmet, em que Ian Oliver faz resenhas da gastronomia de São Paulo. Quer receber o conteúdo um dia antes da publicação on-line? Clique aqui para se inscrever. Há poucas coisas capazes de unir tanta gente na internet quanto dizer que um restaurante vegano estava ruim. Você pode duvidar de Deus, do Estado, da ciência e até do Corinthians. Mas diga que o feijão tinha páprica demais e a soja estava esponjosa para ver o que acontece. Semana passada, eu escrevi que o feijão do Pop Vegan estava carregado de páprica, que o arroz “paella” era uma bomba herbácea, que a salada estava cansada e que a carne de soja parecia uma esponja coberta de molho barbecue ultradoce. Era uma crítica a quatro coisas que estavam no prato. Em poucas horas, descobri que, na verdade, eu havia atacado a comida vegana, a acessibilidade alimentar, as pessoas em situação de vulnerabilidade, os entregadores, a causa animal, a inteligência do público, a metodologia da crítica e, de quebra, usado inteligência artificial no texto. O Crítico Antigourmet: Clique aqui para ler os textos anteriores Uma das respostas mais frequentes foi que o restaurante está sempre cheio. É um argumento curioso. A lotação comprova que muita gente gosta, mas não prova que a comida esteja boa. Se provasse, fila seria critério universal de excelência. Por essa lógica, a dupla Sandy & Junior — que enche um Nubank Parque — seria melhor que o Chico Buarque, que enche no máximo o teatro Tokio Marine Hall. Também me explicaram que, por R$ 24, não se pode exigir equilíbrio, variedade ou sabor. Há uma lógica curiosa nisso: a comida vegana acessível deve ser celebrada por ser acessível e perdoada por ser ruim. O preço baixo parece funcionar como uma espécie de imunidade crítica. Você pode reclamar do feijão de um restaurante caro, mas, quando o buffet custa R$ 24, a comida passa a ser uma política pública. Eu entendo a proposta do Pop Vegan. Ela é importante. Comer sem ingredientes de origem animal não deveria ser um luxo, e um buffet acessível tem um valor que vai muito além do prato individual. Mas preço é contexto. Uma refeição barata pode ser simples, algo repetitiva, por vezes limitada e ainda assim saborosa. Ninguém está pedindo caviar, maturação a seco ou um chef dinamarquês para corrigir o arroz. Está pedindo apenas que o vegetal não pareça ter sido temperado por um estudante de gastronomia inseguro. MAIS SABORES: Pop Vagan: o complexo vegano da falta de sabor Preta Maria: a cozinha popular negra recriada para a elite branca Misoya: casa de ramen abre não de nuance em favor do impacto - e dá certo Fame Osteria: a nonna que deu a volta ao mundo Holy Tavern: a santidade que não chega ao prato A certa altura, a crítica deixou de ser sobre comida e virou uma disputa de identidade. Dizer que a soja estava ruim passou a significar que eu queria que os veganos comessem carne. Dizer que a salada estava cansada virou um ataque à existência dos vegetais. Observar que o molho barbecue era doce demais foi interpretado como uma defesa da pecuária. Em algum momento, a comida desapareceu e entrou em cena a causa. É uma relação bastante curiosa com o prato. O vegano militante não pode simplesmente dizer: “Eu gosto do Pop Vegan, mas hoje o feijão estava forte demais.” Isso seria uma concessão perigosa à realidade. É preciso afirmar que estava maravilhoso, que o tempero é justamente o diferencial, que a fila prova alguma coisa, que a crítica é invejosa e que qualquer pessoa que discorde provavelmente tem um problema com a comida vegana. O carnívoro, nesse sentido, tem uma vantagem psicológica. Ele consegue comer num restaurante de carne e dizer que a carne estava ruim. Pode admitir que o bife veio passado, que o molho era doce, que a batata estava murcha. Ninguém conclui imediatamente que ele é contra os animais, a agricultura familiar e o direito de existir do boi. O vegano, às vezes, parece obrigado a transformar cada refeição numa audiência pública em defesa da própria dieta. Eu sei que há veganos que comem bem, cozinham bem e têm senso crítico. Alguns inclusive reconheceram que a crítica fazia sentido, mas que a proposta barata os fazia relevar os defeitos. É uma posição perfeitamente razoável. Se você me disser “a soja estava esponjosa, mas eu amo o lugar, volto toda semana e acho que vale a pena”, não há nada a discutir. Isso é uma opinião sobre comida. O problema começa quando “eu gosto” precisa virar “logo, você está errado”, e quando “o restaurante é acessível” passa a significar “ninguém pode dizer que o prato estava ruim”. LISTAS: As 11 maiores mentiras da gastronomia paulistana 20 verdades gastronômicas que as pessoas não estão preparadas para ouvir Buenos Aires: 4 endereços para conhecer — e 1para evitar Melhores & Piores 100 pizzas de São Paulo 2026 Talvez o que incomode tanto seja a possibilidade de que uma cozinha vegana seja julgada pelo mesmo critério usado para julgar qualquer outra cozinha: o que está no prato. Não a intenção, não a causa, não a fila, não o preço, não a biografia do cozinheiro. O prato. A comida. O sabor. Não tenho nada contra veganos, apesar da atitude quase religiosa de muitos. Tenho até amigos que são (hahaha). Já comi comida vegana excelente. Também já comi comida vegana ruim, que é como descobri que o veganismo não aboliu a incompetência culinária — apenas deu a ela novos ingredientes. Pode comer comida ruim sem carne (ou com carne). Pode ser fã de restaurante (por mais ridícula que essa categoria possa ser). Pode gostar de páprica, ervas e barbecue ultradoce. Só não transforme sua preferência em prova de excelência ou qualidade. Às vezes, a coisa mais sensata que um vegano pode dizer é: “Eu amo esse lugar, embora reconheça que a soja estava uma esponja”.

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