Doze anos após ter sido um dos principais temas de uma eleição para governador, o temor de uma crise hídrica em São Paulo volta ao embate entre candidatos. Os reservatórios da Grande São Paulo estão a menos de 50% da capacidade, com o principal deles, o Cantareira, na faixa dos 33%, oito meses após o sistema ter atingido a pior marca desde a baixa histórica de 2014, com menos de 25% no verão. A ameaça fez o clima ganhar destaque e tem sido uma cartada do candidato de oposição, Fernando Haddad (PT), para atacar o incumbente Tarcísio de Freitas (Republicanos). 'Baixa o dedinho' x 'vai ficar na sua cara': Elmano e Ciro batem boca durante debate no Ceará; assista Zelar pela integridade da Corte' e 'grave lesão à ordem pública': os recados de Fachin às disputas de ministros do STF O impacto de tempestades, os incêndios rurais e a atuação da Sabesp também estão mencionados em programas de governo e declarações dos candidatos. A insegurança hídrica mobiliza eleitores pelo medo de falta d’água, num momento em que a distribuição noturna é reduzida, o que provoca interrupções de abastecimento em bairros altos ou distantes de grandes adutoras. Já os extremos de chuva, que impactam desproporcionalmente populações mais pobres, têm atraído também a atenção da classe média e empresarial, afetada por dois apagões históricos provocados por vendavais na região metropolitana nos dois últimos anos. Já as queimadas, amplificadas pelas secas no interior, traumatizaram a região quando satélites apontaram mais de 600 mil hectares queimados no estado em 2024.
Revitalização Atentos à demanda, Tarcísio e Haddad acenam ao eleitor. Em suas propostas, o governador afirma que o “propósito é fortalecer São Paulo diante dos eventos climáticos extremos, promovendo resiliência às secas, enchentes e incêndios, com segurança hídrica, rios revitalizados, mais áreas verdes, proteção da biodiversidade, economia circular e energia renovável”. Também há promessa de integrar o meio ambiente ao turismo, à cultura, à educação e às comunidades.
Em seu plano de governo, Tarcísio afirma que o novo contrato da Sabesp vai injetar R$ 9 bilhões em obras para reduzir vazamentos no sistema de distribuição de água e acrescentar seis mil litros de água por segundo ao abastecimento na região metropolitana O programa de Tarcísio prevê também avançar em programas de revitalização como o do Rio Tietê, no qual promete aportar R$ 30 bilhões. Já Haddad fez da segurança hídrica seu principal foco na área ambiental, ligando os atuais níveis dos reservatórios à privatização da Sabesp, realizada no governo Tarcísio. “Vamos exercer com rigor o papel do estado na universalização do saneamento, fiscalizando a qualidade e a expansão dos serviços contratados, protegendo os mananciais e garantindo segurança hídrica para as próximas décadas, com atenção especial às áreas mais vulneráveis”, diz o programa de governo do petista, sem mencionar reestatização. O assunto foi usado por Haddad no debate da Band, quando acusou o governador de negacionista. — São Paulo viveu incêndios em 2024 como nunca, e o investimento em Defesa Civil não avança. Vocês negam a mudança climática — disse o ex-ministro. — Nós podemos ter uma seca por causa do El Niño, e estamos correndo risco de ter falta d’água em São Paulo por falta de investimento. Tarcísio rebateu as acusações listando suas obras. — Nós temos um senhor plano de adaptabilidade, de resiliência climática — afirmou. — Estamos investindo mais de R$ 1 bilhão para reservar 85 bilhões de litros para não faltar água em Campinas. Situação preocupante Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que a situação hídrica no estado é realmente preocupante. O estado conseguiu avançar na pauta de universalização do saneamento, mas criando um gargalo. Dados do Instituto Água e Saneamento (IAS) mostram a quantidade de água que se perde no sistema de distribuição para cada ligação de cliente: em 2024, foram 289 litros/dia. Depois de melhorar continuamente após a crise hídrica, a Sabesp voltou a registrar aumento dessas perdas a partir de 2023. Isso significa que, embora a empresa esteja entregando e faturando mais água aos consumidores, uma parcela maior do volume captado nos reservatórios está se perdendo no caminho, seja por vazamentos, falhas na rede ou outros problemas operacionais. Segundo o relatório do IAS, isso sugere que investimentos e melhorias na infraestrutura não acompanharam o crescimento da demanda. — Não houve um período de muita seca. Esse aumento da demanda de 2025 é que esvaziou os reservatórios — afirma Eduardo Caetano, pesquisador do IAS. Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e hoje consultora do Observatório do Clima, diz que a segurança hídrica na região metropolitana é uma das maiores preocupações por afetar uma população de mais de 20 milhões de pessoas: — Com gestão pública ou privada, o interesse é público. Se não está funcionando, devem ser tomadas medidas para que passe a funcionar. Já o Centro Brasil no Clima vê com preocupação o risco de incêndios em 2026, destacando que São Paulo exige Planos de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais apenas em unidades de conservação. Fernanda Westin, coordenadora do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas do CBC, reconhece avanços na política climática paulista, como a criação do Finaclima, um fundo de financiamento, e do orçamento climático em 2025, mas pondera que os recursos não são suficientes. Tarcísio promete criar um Sistema de Alerta de Risco de Propagação do Fogo e ampliar a contratação de bombeiros e brigadistas.
O Globo