O que há em comum entre as três mulheres eleitas governadoras no Brasil? Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco; Celina Leão (PP), no Distrito Federal; e Maílza Assis (PP), no Acre, tentam abrir diálogo com o governo federal para solucionar grandes gargalos em seus Estados. Nenhuma delas, no entanto, apoiou a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A ajuda do governo federal é crucial para que elas cumpram promessas de campanha. No caso de Raquel Lyra, a aproximação é fundamental para destravar as obras do trecho pernambucano da ferrovia Transnordestina.
Celina Leão, por sua vez, depende da União para obter socorro financeiro para o Banco de Brasília (BRB), enquanto Maílza Assis precisa garantir os investimentos na BR-364, estimados em mais de R$ 700 milhões. Passada a eleição no domingo, a governadora Raquel Lyra, que não se posicionou em relação à eleição presidencial, parabenizou o presidente Lula e disse que vai seguir “trabalhando junto com o governo federal com muito diálogo, respeito institucional e parceria”.
A declaração de voto de Lyra foi disputada por Lula e Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Embora tenha conseguido se aproximar do presidente no seu primeiro mandato, a governadora derrotou o adversário João Campos (PSB), com 52,3% dos votos e apoio da direita e parte da esquerda no Estado.
Ela declarou neutralidade tão logo saiu o resultado do primeiro turno, com Flávio despontando como favorito. Sempre que pressionada a se posicionar, Lyra dizia que não é lulista e nem bolsonarista, mas sim “pernambuquista”.
A postura lhe rendeu muitas críticas da esquerda em Pernambuco, que cobrou apoio a Lula como um gesto de gratidão pelas parcerias em grandes obras no Estado, mas a possibilidade de ter que cumprir o segundo mandato em oposição a um eventual governo Flávio não agradava. Aos 47 anos, Lyra é conhecida pelo pragmatismo.
O governo do Estado depende diretamente do governo federal para obtenção de empréstimos e liberação de recursos do PAC para diversas obras viárias. A principal delas é o trecho pernambucano da ferrovia Transnordestina, estimada entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões.
No momento, está pendente de novos estudos pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Eleitas em redutos da direita, Celina Leão (PP) e Maílza Assis (PP), que apoiaram explicitamente Flávio Bolsonaro, já desceram do palanque e buscam uma relação institucional com o governo federal.
Embora seja muito próxima das senadoras eleitas Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL) e da senadora Damares (Republicanos), Celina é considerada uma política pragmática, evitando adotar uma linha de discurso ideológico como fazem as aliadas. A governadora, de 49 anos, venceu Leandro Grass, do PT, com 57,8% dos votos válidos no domingo, confirmando o favoritismo.
Em entrevistas durante a semana, disse que a população espera que ela esteja pronta para dialogar com o presidente da República, “qualquer que seja o cenário”. Ao descer do palanque logo após o resultado da eleição, Celina mantém de pé o plano de conseguir ajuda da União para socorrer o BRB, afetado por um rombo estimado entre R$ 5,5 bilhões e R$ 8,8 bilhões decorrente de fraudes com o Bando Master.
Celina afastou-se politicamente do ex-governador Ibaneis Rocha no início do ano, após desgaste intenso dele com a crise do BRB. “Eu não fui governadora do Ibaneis, eu fui vice”, declarou, reforçando sempre que não tinha ingerência sobre as decisões do governador.
Com o distanciamento, ela conseguiu imprimir uma identidade própria à sua gestão e manter o índice de aprovação em níveis razoáveis - em torno de 50% de acordo com as pesquisas divulgadas durante a campanha. Apesar do esforço da governadora, a ajuda do governo federal ao BRB é considerada remota.
O presidente Lula, ainda em campanha, classificou como “descabida” a ideia de socorrer o banco. Assim como Celina, Maílza Assis chegou ao cargo de governadora como vice.
O ex-governador Gladson Camelí (PP) a deixou no cargo para disputar o Senado, sem sucesso. Maílza, 49 anos, derrotou o senador Alan Rick (Republicanos), que era o candidato oficial de Flávio Bolsonaro no Estado, com 66,21% dos válidos no segundo turno.
Maílza também apoiou o senador do PL, que venceu no Acre com 66,6% dos votos válidos. Para se eleger, Maílza firmou aliança com o MDB trazendo a ex-deputada Jéssica Sales para ser vice na sua chapa.
A parceria agregou votos em Cruzeiro do Sul, oeste do Estado, segundo maior colégio eleitoral do Acre, depois da capital Rio Branco. “Ela é bastante pragmática do ponto de vista de composição”, afirma Luci Maria Teston - professora da Universidade Federal do Acre (Ufac) e coordenadora do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (Legal).
A governadora já declarou que vai dialogar com o governo federal para viabilizar soluções definitivas para a rodovia a BR-364, uma das suas principais promessas de campanha. A rodovia enfrenta problemas estruturais, logísticos e contratuais com a concessionária.
Valor