Uma utopia tropical

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O filósofo português Agostinho da Silva manifestou sempre uma enorme paixão pelo Brasil, onde viveu durante 22 anos, entre 1947 e 1969. Durante a sua permanência no país, adquiriu a nacionalidade brasileira. Em Amsterdã: Pintura de Kandinsky saqueada pelos nazistas é vendida por US$ 42 milhões em leilão Ator de 'The West Wing': Justiça dos EUA arquiva acusação de abuso sexual contra Timothy Busfield Espírito livre, inquieto, subversivo, um mestre da ironia bem-humorada, Agostinho da Silva imaginou uma sociedade utópica, o Quinto Império, na qual os recursos seriam partilhados; o poder perderia a sua natureza opressiva; o trabalho deixaria de ser uma forma de servidão, e os seres humanos poderiam dedicar-se mais livremente ao conhecimento, à contemplação e à criação. Na visão do filósofo português, a infância seria um modelo de existência, não pela ignorância, mas pela capacidade de brincar, imaginar, descobrir e maravilhar-se: “Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do (Quinto) Império.” O Brasil ocupa um lugar central na utopia de Agostinho da Silva. Ele via na mestiçagem brasileira uma proposta nova para o funcionamento do mundo e a compreensão da existência. Interessava-lhe, em particular, a forma como a sociedade brasileira é capaz de abraçar e integrar todo o gênero de influências externas. Além disso, Agostinho valorizava o improviso, a festa, a brincadeira, a imaginação, e intuía nas manifestações populares — do carnaval ao bumba-meu-boi, passando pelas rodas de capoeira — uma antecipação da sociedade livre que ansiava construir. Para ele, o Brasil seria o esboço de uma civilização alternativa aos modelos ocidentais. Nos últimos dias venho pensando muito em Agostinho da Silva. Encontrei-o numa tarde remota, lendo, à sombra do imenso cedro, cuja larga copa cobre uma parte do jardim do Príncipe Real, em Lisboa. Eu era então um jovem estudante de Engenharia Florestal, que lia com entusiasmo todos os grandes pensadores anarquistas, ecologistas e pacifistas. Agostinho da Silva, com o seu inconformismo frente ao aparelho do Estado (orgulhava-se de não ter carteira de identidade nem número de contribuinte), era um dos meus heróis. Aproximei-me, timidamente. O filósofo ergueu os olhos: — Sim?! Queria resumir numa frase toda a minha admiração. Porém, só fui capaz de perguntar: — Desculpe, que horas são? O velho filósofo mostrou-me o pulso nu: — Nenhumas… Agostinho da Silva formulou as ideias fundamentais da sua utopia antes do golpe militar de 1964, mas continuou a desenvolvê-las e a defendê-las já em plena ditadura. Ou seja, foi capaz de perceber dentro da triste escuridão da ditadura o outro Brasil no qual nunca deixou de acreditar — essa grande e intensa nação afro-indígena-latina, luminosa, amorosa, generosa, acolhedora, cuja alegria encanta e comove o mundo inteiro. Talvez esta seja uma das grandes lições que Agostinho da Silva nos deixou: nunca confundir a temporária escuridão de uma época com o destino de um país. Volto a encontrar o velho filósofo, à sombra do gigantesco cedro do Príncipe Real. Pergunto-lhe: — Que horas são? Agostinho mostra-me o pulso nu: — Todas.

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