Estudo aponta que falhas e restrições de plataformas digitais atingem sobretudo Lula e críticos de Flávio

Estudo aponta que falhas e restrições de plataformas digitais atingem sobretudo Lula e críticos de Flávio - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) analisou oito incidentes envolvendo plataformas digitais na eleição presidencial — bloqueios de contas, remoções de conteúdo, falhas em métricas e respostas de inteligência artificial — e concluiu que seis tiveram efeitos identificáveis em prejuízo à campanha de Lula ou a conteúdos críticos a Flávio Bolsonaro. Os outros dois episódios envolveram uma falha global na contagem de visualizações e anúncios irregulares contra ambos os candidatos. Respeito às regras: Organizações pedem a mecanismos internacionais monitoramento de big techs nas eleições brasileiras De Janones a Erika Hilton: Influenciadores de esquerda disparam em engajamento e superam a direita nas redes pela 1ª vez no ano Os pesquisadores ressaltam, porém, que os dados públicos não permitem afirmar que houve interferência deliberada das empresas na disputa. “O quadro sustentado pelas evidências é o de uma eleição em que as plataformas erraram, restringiram conteúdos e foram acionadas na Justiça, e em que os incidentes de plataforma com direção identificável se concentram contra a campanha de Lula. É um indício que justifica apuração, mas não demonstra por si interferência deliberada”, afirma o relatório.

O levantamento do Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade (Labiia Lab), coordenado por Rafael Cardoso Sampaio, examinou notícias dos primeiros 60 dias de campanha. Foram identificadas 856 matérias de 291 veículos, publicadas entre 16 de agosto e 14 de outubro. Desse conjunto, a equipe selecionou 101 reportagens sobre 16 casos, incluindo denúncias não verificadas, ações de usuários e disputas judiciais. Datafolha: Reforma do STF é apoiada pela maioria dos eleitores de Lula e Flávio Bolsonaro Os oito incidentes destacados são episódios documentados ou observados em testes comparativos. A concentração de efeitos contra um dos lados justifica a investigação, segundo os autores, mas não comprova uma decisão das empresas de favorecer Flávio. “Interferência deliberada significa decisão organizacional. Nenhum documento, registro interno ou auditoria nesse sentido foi tornado público, em nenhum dos dois sentidos”, diz o estudo. Um dos casos analisados foi a remoção do perfil “Revelando Brasil”, que publicou um vídeo do humorista Fábio Porchat sobre as relações de Flávio com o Banco Master. A Meta admitiu o erro, pediu desculpas e restaurou a conta em poucas horas. Já o site Pragmatismo Político teve publicações removidas e alcance limitado. Não foi esclarecido se a restrição partiu da plataforma ou de determinação judicial. Dois testes jornalísticos com ferramentas de inteligência artificial também observaram tratamento desigual. Segundo reportagem do g1 citada no estudo, a Meta AI no WhatsApp se recusou a criar uma imagem com “Lula 13”, mas aceitou “Flávio 22”. Quando o pedido incluiu o sobrenome — “Flávio Bolsonaro 22” —, também houve recusa. Para os pesquisadores, o resultado é compatível com um filtro de nomes de políticos conhecidos: “Lula” identifica uma figura pública, enquanto “Flávio” é um prenome comum. A comparação não permite atribuir a diferença à preferência partidária. A Meta, dona de Instagram, Facebook e WhatsApp, aparece nos títulos de 74 das 101 matérias selecionadas. Segundo as reportagens reunidas, a companhia reconheceu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que desativou indevidamente a conta de anúncios da campanha de Lula em setembro. O bloqueio, atribuído à suspeita de simulação de programa social, foi revertido em pouco mais de uma hora. A empresa também informou ter removido, após intimação judicial, sete de 35 perfis denunciados pela campanha petista. “A remoção de perfis só após intimação sugere morosidade na aplicação das regras, mas não demonstra direção intencional”, avaliam os pesquisadores. No Grok, da xAI, um teste do Painel Político registrou falhas nos comandos “LULA 13” e “LULA PRESIDENTE”, enquanto pedidos com Flávio, Jair Bolsonaro, Donald Trump e Javier Milei foram aceitos. O relatório considera esse contraste mais informativo, mas ressalva que houve poucas tentativas, sem reprodução sistemática. “Ainda assim, um viés de produto demonstrado não equivale a coordenação com campanha, e a evidência disponível vem de testes jornalísticos de pequena escala”, afirma o documento. Os dois incidentes sem direção única também envolveram a Meta. Uma falha na contagem de visualizações de Reels, em 7 de outubro, afetou criadores em mais de cem países. Em outro episódio, uma investigação da Agência Pública identificou 1.069 anúncios que mencionavam Lula ou Flávio, pagos em dólar e sem o rótulo obrigatório de conteúdo político. Havia peças contra os dois candidatos, e a empresa informou tê-las removido. Apesar das constatações, a pesquisa reconhece limites para análise completa, já que a amostra não é aleatória e o campo petista produziu mais denúncias contra plataformas, aumentando sua presença no material analisado. “Frequência de denúncia mede mobilização e estratégia, não veracidade”, ressalta o relatório. Ou seja, não se sabe quantos erros semelhantes atingiram contas ligadas a Flávio sem gerar cobertura. A busca e a classificação das notícias foram automatizadas com um agente de IA. Para esclarecer se houve interferência deliberada, os autores defendem auditorias independentes, acesso a registros internos e testes mais amplos. Meta admite falhas Alvo de uma ação na Justiça Eleitoral por suposto favorecimento à campanha de Flávio Bolsonaro, a Meta reconheceu nesta sexta-feira (16) falhas que impactaram a produção e divulgação de conteúdos relacionados ao presidente Lula nas redes sociais. A empresa negou favorecimento político e pediu o arquivamento da representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O impasse chegou ao TSE, e o ministro Marco Aurélio Bellizze proibiu, nesta na quinta (16), a Meta de restringir sem justificativa o alcance de conteúdos políticos de Lula e Flávio e determinou que não haja favorecimento na ferramenta de IA. Para encerrar o caso, a gigante americana sustenta que que a falha de métricas foi global e que a distribuição dos conteúdos de Lula ficou acima de seu padrão naquele dia. “Tratou-se de um evento técnico, e não de uma ação direcionada a uma campanha política específica”, afirmou a empresa.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo