Leandro Karnal costuma dizer que conheceu Jesus Cristo pela fé e voltou a ele pela História. O novo livro do historiador gaúcho, “Jesus: O homem que dividiu o tempo”, resume a sua busca para compreender a figura religiosa mais influente do mundo ocidental. Nascido numa família católica no interior do Rio Grande do Sul, Karnal foi sacristão, catequista, organista de igreja e, aos 18 anos, entrou para o noviciado da Companhia de Jesus. Aos 25, afastou-se das práticas religiosas, mas não perdeu o interesse em entender o papel das religiões. Maior hemeroteca digital do país: Ferramenta de busca do acervo da Biblioteca Nacional está fora do ar há quase um mês, interrompendo milhares de pesquisas acadêmicas Em Amsterdã: Pintura de Kandinsky saqueada pelos nazistas é vendida por US$ 42 milhões em leilão De Paulo de Tarso a Bento XVI, passando por Pasolini e Saramago, Karnal, de 63 anos, percorre fontes e representações, procurando compreender a metamorfose política e espiritual do Homem de Nazaré ao longo dos séculos. Nesta nova biografia de Jesus, o historiador recupera o pensador da periferia, o agitador moral e o marginalizado pelo poder, e tenta provar que é possível admirar a beleza dos textos bíblicos “sem usar a História para desqualificar a fé, nem a fé para dispensar a História”, como gosta de afirmar. Leandro Karnal diz que conheceu Jesus pela fé e que voltou a ele pela história Renata Zambello Furtado / Divulgação Já foi questionado por estudar Jesus sem partir da fé? Eu já dei curso sobre mitologia grega e ninguém me perguntou: “Mas você fala tão bem, acredita em Zeus? Você acredita em Afrodite?” Eu dei curso sobre budismo, nunca ouvi: “Nossa, mas como é que você fala tanto de budismo sem ser budista?” Agora eu abro a boca para falar de Jesus e cinco minutos depois já questionam: “Mas você é ateu...” As pessoas ficam decepcionadas quando descobrem que seu interesse por Jesus não é uma manifestação de fé? Sim, muitas pessoas esperam que o estudo leve necessariamente à adesão. Mas também existem bons textos sobre Jesus escritos por religiosos. Uma das biografias mais interessantes de Jesus foi escrita por Joseph Ratzinger, antes de ele se tornar o Papa Bento XVI. Ele explica que o Jesus do seu livro é o que ele pesquisou e que cada um é livre para procurar a sua própria visão. A minha questão é: eu não sou religioso, acredito que houve um Homem de Nazaré. Sobre ele foram colocadas camadas ideológicas. Que camadas são essas? Existe um Jesus liberal, construído no século XIX, mas também um Jesus racista, usado para fundamentar instituições como a Ku Klux Klan e outras organizações racistas. Ao mesmo tempo, há passagens dos Evangelhos com potencial de contestação social. No Magnificat, o canto de Maria no Evangelho de Lucas, Deus humilha os poderosos e exalta os humildes. Esse trecho tem uma força política evidente. Os negros americanos, numa sociedade juridicamente racista, interpretaram a libertação dos hebreus da escravidão no Egito como uma fonte de resistência à escravização. A Bíblia é um signo aberto e pode funcionar de maneiras muito diferentes. Que Jesus é popular hoje? Hoje existe um Cristo meio coach: “Eu preciso comprar meu imóvel, Jesus vai me ajudar.” É um recurso político eficaz. Por que Jesus é tão maleável? Jesus é uma tela em branco sobre a qual cada cultura pode projetar sua própria imagem. Ele era mais moreno do que as representações ocidentais costumam sugerir. Não era negro, mas tinha a pele mais escura. Ao longo dos séculos, foi representado como um bom pastor, como Hércules, como japonês, negro ou indígena. Essa possibilidade de apropriação é uma das chaves do sucesso do cristianismo. Jesus é portátil: pode ser levado para diferentes lugares e receber as marcas de cada cultura. É possível atribuir a ele características muito distintas, até contraditórias. A própria Bíblia oferece argumentos para posições contraditórias? Você pode encontrar na Bíblia um versículo para quase qualquer coisa, sobretudo se tiver o costume de pinçar passagens sem olhar o contexto. Esse é um dos piores métodos de interpretação bíblica. Cada trecho precisa ser compreendido dentro de sua unidade e de seu contexto. Veja João 8:32. O capítulo começa com o desafio dos homens a Jesus. Ele não desmente a lei de Moisés, mas diz: “Quem que não tiver pecado que atire a primeira pedra”. Nenhum deles atira. Eu me pergunto se hoje, diante de uma pessoa trans agredida, alguém que dissesse “quem não tiver pecado atire a primeira pedra” não acabaria sendo apedrejado também. Acho que pioramos. Os fariseus eram mais legais do que nós: pelo menos, naquele episódio, ninguém atirou a pedra. Hoje há pessoas que se consideram de bem justamente enquanto atiram pedras nos outros. Karnal: ' Renata Zambello Furtado / Divulgação O senhor acredita que, se Jesus voltasse, seria reconhecido por muitos dos que hoje dizem segui-lo? A experiência histórica de Jesus é a de alguém que se cercou de mulheres de diferentes origens, pescadores provavelmente analfabetos, cobradores de impostos e pessoas rejeitadas pela comunidade. Jesus escolheu pessoas de temperamento difícil, não selecionou doutores da lei, teólogos ou gente equilibrada. Escrevo no livro que o departamento de recursos humanos de Jesus era muito complicado. Ele conseguiu reunir um grupo bastante difícil, que muitas vezes não o entendia. Isso me anima como professor: se os discípulos não entendiam Jesus, não posso esperar que todos os meus alunos me entendam. O que esse círculo de seguidores revela sobre a posição social de Jesus? No conjunto dos Evangelhos, ele é alguém que se aproxima dos excluídos e desconfia dos centros administrativos e políticos. Se Jesus voltasse, acho que estaria na Cracolândia, em São Paulo, ou na periferia, não num palácio episcopal. Ele não cabe nesses lugares. O senhor já foi religioso. Por que se afastou da fé? Escrevi uma vez que descobri Jesus pela fé e continuei com Jesus pelo estudo. Não foi uma ruptura, uma decisão de renegar Jesus. Foi um processo interno muito lento. Comecei a achar que estava falando sozinho ao rezar. Para os místicos, isso é chamado de noite da alma. São João da Cruz e Santa Teresa falam desse momento em que Deus fecha seu rosto para você para saber se você busca a consolação de Deus ou o Deus da consolação. Eu não tive uma grande decepção com a Igreja. Conheci pessoas ruins nela, mas também conheci pessoas ruins na universidade, e não abandonei o conhecimento por isso. As eleições presidenciais estão sendo marcadas pelo uso político da religião. Acha que o livro chega num bom momento? Eu tenho 63 anos, eu vi o Estado laico ser erodido de 20 anos para cá. O Estado era mais laico em 1980 do que ele é hoje. Nessa época, não havia uma bancada da Bíblia. Não havia tantas rádios ligadas à Igreja Católica ou evangélicas, pentecostais, neopentecostais. Por que a religião ganhou tanta importância no discurso político? O que há, eu acho, é uma ascensão da pretensão metafísica da política. Imaginar que eu represento Deus, que eu falo em nome de Jesus, é um recurso político e eficaz. Nós não debatemos nenhuma questão, a não ser questões abstratas de gênero, de costumes ou religiosas. Nós não debatemos saneamento básico, defesa nacional, nós não debatemos de fato educação nem violência nas cidades.
Leandro Karnal investiga múltiplas interpretações de Jesus em novo livro: 'Hoje, ele estaria na Cracolândia'
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