Um homem, duas irmãs: conheça a história das gêmeas de Goiás que encontraram no mesmo amor uma forma de não se separar

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Fonte da notícia: Jornal Opção Jornal Opção

Em Montividiu, município do Sudoeste de Goiás, onde muita gente se conhece e as histórias acabam circulando pelas ruas, há um casal que chama a atenção por uma particularidade: não são exatamente duas pessoas. Maycon Antônio Thomé Rueda, de 43 anos, produtor rural e sojicultor, vive há seis anos um relacionamento com Lara Alves Novaes e Laila Alves Novaes, irmãs gêmeas de 35 anos.

Mais do que dividir a vida com duas mulheres, ele compartilha a rotina com duas pessoas que, muito antes de terem o mesmo companheiro, já tinham uma história em comum: a de duas irmãs que cresceram juntas e que sempre fizeram questão de permanecer próximas. A relação dos três, conhecida popularmente como trisal, começou a ganhar forma depois de uma sequência de encontros, desencontros, sentimentos guardados e uma proposta que, inicialmente, parecia difícil de imaginar.

O que hoje é apresentado por eles como casamento teve início com o namoro entre Maycon e Lara. Depois do término, ele se aproximou de Laila, a irmã apenas duas horas mais nova.

O relacionamento entre os dois foi mantido em segredo durante algum tempo, até que Lara descobriu. O que poderia ter provocado um rompimento definitivo entre as irmãs acabou abrindo caminho para uma configuração afetiva que nenhum dos três havia planejado inicialmente.

Maycon prefere chamar o que vivem de casamento, embora reconheça que a união não tenha reconhecimento legal como casamento entre três pessoas no Brasil. A legislação brasileira não reconhece a poligamia como forma de casamento civil.

Para eles, entretanto, a ausência de uma formalização jurídica não muda o significado que atribuem à relação. O que sustenta a convivência, dizem, é o compromisso que assumiram entre si.

“Nos respeitamos, nos amamos e somos felizes. Isso é o que importa para nós”, resume Maycon, em uma definição que as duas irmãs também fazem questão de repetir.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, concedida durante uma visita à cidade para conhecer de perto a história, os três procuram desfazer uma imagem que, segundo eles, costuma acompanhar os relacionamentos não convencionais. Maycon faz questão de explicar que não se trata de uma relação aberta a qualquer pessoa, tampouco de uma experiência marcada pela ausência de limites.

Para ele, a palavra trisal costuma despertar interpretações equivocadas, como se a existência de três pessoas em um relacionamento significasse, necessariamente, uma vida sexual compartilhada. “Nosso relacionamento não é uma suruba, como muitos pensam.

De jeito nenhum, até porque elas são irmãs. Moramos em um sobrado e cada uma fica em um pavimento da casa, cada uma tem seu quarto.

Na verdade, somos dois casais: eu e a Lara, e eu e a Laila. Nada de sexo os três juntos”, explica.

A organização da casa, os quartos separados e os momentos de intimidade individuais fazem parte dos limites estabelecidos entre eles. É uma das condições que, segundo os três, permite que a convivência seja construída com tranquilidade.

A configuração pode parecer incomum para quem observa de fora, mas, dentro de casa, eles afirmam que há regras, acordos e uma rotina que precisa funcionar para todos. Antes de dividirem o mesmo companheiro, as irmãs já compartilhavam uma ligação que, segundo elas, nunca permitiu que uma se afastasse da outra.

A história, que começou com um namoro e passou por uma separação, um segredo e uma proposta inesperada, transformou-se em uma família de três adultos que dizem encontrar no respeito e no amor a sustentação da relação. Antes de dividirem o mesmo companheiro, as irmãs já compartilhavam uma ligação | Foto: Marco Túlio/Jornal Opção

Antes de serem três A história de Maycon com as irmãs começou muito antes de o relacionamento ganhar o formato atual.

Natural do Paraná, ele chegou a Montividiu ainda jovem e, quando tinha aproximadamente 13 anos, viu as gêmeas pela primeira vez. Elas tinham cerca de cinco anos e brincavam juntas na rua enquanto ele ajudava em alguns serviços relacionados a um caminhão.

Naquele momento, não havia qualquer possibilidade de imaginar que, anos depois, os três compartilhariam uma vida. O tempo passou, as meninas cresceram e os caminhos voltaram a se cruzar quando Maycon já tinha 28 anos.

Lara, então com 19, apareceu em um estabelecimento onde ele estava com alguns funcionários, comendo uma jantinha. “Foi um encontro aparentemente banal, desses que acontecem em uma noite qualquer de cidade pequena”, lembra Maycon.

Para ele, porém, bastou para despertar o interesse. Ele se encantou pela jovem, conseguiu o número de telefone e os dois começaram a conversar.

O contato evoluiu rapidamente para um namoro. “Vi aquela bela moça naquela jantinha e me encantei por ela.

Aí consegui o número dela e começamos a conversar. Logo estávamos namorando”, conta.

O relacionamento durou aproximadamente dois anos e terminou por decisão consensual. A separação, entretanto, não significou que Lara deixaria de ter importância na vida de Maycon.

Pelo contrário: mesmo depois do fim do namoro, ela continuou guardando sentimentos pelo antigo companheiro. Lara lembra que, durante o período em que estiveram juntos, Maycon foi uma presença importante em sua vida.

As duas irmãs vieram de uma família humilde, com poucos recursos financeiros, e ela destaca a generosidade do então namorado, que costumava ajudar as pessoas ao redor. “Maycon é uma pessoa muito bondosa, sempre ajuda as pessoas e me ajudou muito quando estávamos juntos”, afirma.

A lembrança ajuda a compreender por que, mesmo depois da separação, o vínculo afetivo não desapareceu completamente. O relacionamento havia terminado, mas o carinho permanecia.

E foi justamente nesse intervalo entre o fim de uma história e o começo de outra que a vida dos três começou a tomar um rumo inesperado. A história de Maycon com as irmãs começou muito antes de o relacionamento ganhar o formato atual | Foto: Acervo pessoal

Um segredo chamado Júnior Poucos dias depois de terminar com Lara, Maycon começou a se relacionar com Laila.

A aproximação entre os dois aconteceu de maneira relativamente rápida, mas havia um obstáculo que não poderia ser ignorado: Laila era irmã gêmea da mulher com quem ele havia acabado de terminar. As duas sempre foram muito próximas.

A possibilidade de uma descobrir o envolvimento da outra com o mesmo homem provocava receio. Laila conta que, no começo, chegou a temer uma reação negativa da irmã e que, por isso, os dois decidiram esconder o namoro.

“Caí na lábia dele. Ele sabe convencer uma mulher.

Mas fiquei com medo de minha irmã descobrir e achar que a gente ia brigar, pois somos muito apegadas uma à outra. Aí eu e o Maycon combinamos que o nome dele seria Júnior a partir daquele momento”, relata, entre risos.

O apelido funcionava como uma espécie de disfarce. Enquanto o relacionamento avançava, os dois tentavam preservar o segredo.

Não era uma tarefa simples, considerando que Lara e Laila mantinham uma convivência muito próxima e compartilhavam boa parte da rotina. Maycon e Laila passaram a morar juntos.

Enquanto isso, Lara também tentava seguir a própria vida e começou outro relacionamento. A nova relação, porém, não teve um desfecho feliz.

Segundo Laila, o então companheiro da irmã passou a apresentar comportamentos agressivos, tanto psicológicos quanto físicos. A situação afetou profundamente as duas.

Laila conta que percebia mudanças no comportamento de Lara, que ficou mais quieta e passou a demonstrar sinais de sofrimento. A irmã, que sempre esteve presente em sua vida, parecia estar se afastando justamente quando mais precisava de apoio.

“Ela não falava mais. A gente via os sinais das agressões e a forma como ela ficou mais quietinha nos lugares.

Eu queria muito ajudar minha irmã e, como sempre fomos muito unidas, foi um período muito difícil para mim”, recorda. A preocupação de Laila não era apenas a de uma irmã que acompanhava de longe o sofrimento da outra.

Era também a angústia de quem gostaria de estar mais perto, de proteger e de oferecer algum tipo de amparo. A proximidade entre as duas, que já era uma característica marcante da relação familiar, tornou-se ainda mais intensa naquele período.

As irmas sempre foram muito apegadas e decidiram permanecer juntas | Foto: Acervo pessoal A descoberta

Em determinado momento, o segredo de Laila deixou de ser sustentável. Lara, que trabalhava como cabeleireira, estava arrumando o cabelo da irmã quando resolveu perguntar diretamente sobre o homem com quem ela estava se relacionando.

A pergunta foi simples, mas carregava a suspeita de quem já havia juntado algumas peças: queria saber se Júnior era, na verdade, Maycon. Laila conta que decidiu não esconder mais a situação.

Confirmou que os dois estavam juntos e se preparou para uma reação que poderia significar o fim da proximidade entre as irmãs. O medo de uma discussão, porém, não se confirmou.

“Ela perguntou: ‘Fala a verdade para mim, o Júnior é o Maycon, né?’. Aí eu contei a verdade, disse que sim.

Achei que ela ia ficar com raiva, mas a reação dela foi o contrário. Ela disse que, assim como o Maycon tinha a ajudado, também iria ajudá-la.

Ela ficou feliz naquele momento”, conta Laila. A reação de Lara surpreendeu a irmã.

Em vez de transformar a descoberta em uma disputa, ela demonstrou compreender o relacionamento que havia surgido entre os dois. O sentimento que ainda guardava por Maycon também não havia desaparecido.

Ao mesmo tempo, sua relação com Laila continuava sendo uma das partes mais importantes de sua vida. Reforçando os laços

Foi nesse cenário que a convivência entre os três começou a se aproximar. Depois de deixar o relacionamento anterior, Lara passou a frequentar cada vez mais a casa de Maycon e Laila.

Os encontros, inicialmente ligados à proximidade entre as irmãs, tornaram-se parte da rotina. Assistiam a séries, filmes e novelas.

Passavam tempo juntos, conversavam e compartilhavam momentos simples. Não houve uma mudança repentina de uma hora para outra.

A possibilidade de um relacionamento envolvendo os três foi sendo construída a partir daquela convivência. Maycon percebeu que Lara ainda demonstrava sentimentos por ele e começou a considerar que talvez existisse uma maneira de unir as pessoas que já ocupavam um lugar importante em sua vida.

“Depois que ela deixou o ex-companheiro, as duas passaram a ficar mais tempo juntas. A Lara não saía lá de casa.

Ficávamos assistindo a séries, filmes e novelas, todos juntos. Então comecei a perceber que aquilo poderia ser bom para todos, porque tanto eu quanto a Laila percebíamos que a Lara ainda gostava de mim”, relata.

Maycon costuma brincar que as duas dão menos trabalho e custam menos do que uma mulher sozinha | Foto: Acervo pessoal Uma proposta inesperada

A ideia de transformar aquela proximidade em um relacionamento a três não surgiu de maneira espontânea para Maycon. Ele conta que pensou diversas vezes em como apresentar a proposta a Laila.

Afinal, embora a companheira já soubesse que ele e Lara tinham uma história anterior, aceitar uma relação envolvendo também a irmã exigiria uma decisão importante. Maycon temia que a ideia fosse mal recebida.

Ainda assim, resolveu conversar com Laila e descobrir o que ela pensava sobre a possibilidade de os três assumirem um compromisso amoroso. “Preparei o terreno e um dia falei: seja o que Deus quiser.

Aí comentei com a Laila o que ela achava da ideia de juntar nós três como casal mesmo, já que a Lara não saía lá de casa”, conta, aos risos. Para sua surpresa, Laila concordou.

A proposta tinha, para ela, um significado que ia além da possibilidade de dividir o companheiro. Era também uma oportunidade de permanecer ainda mais próxima da irmã, acompanhá-la de perto e oferecer o cuidado que desejava desde o período em que Lara enfrentava dificuldades no relacionamento anterior.

“Eu concordei com a ideia porque, para mim, era a oportunidade que precisava para cuidar dela e protegê-la. Sofri muito quando ela estava no outro relacionamento”, explica.

Havia, contudo, uma etapa que não poderia ser ignorada: Lara também precisava aceitar. E, inicialmente, ela não concordou.

Maycon e Laila não desistiram da proposta. Em outra ocasião, durante um evento, o assunto voltou à conversa.

Laila decidiu falar novamente com a irmã e, dessa vez, pediu que ela demonstrasse sua resposta de maneira mais direta: se aceitasse a ideia, deveria beijar Maycon. Diferentemente da primeira tentativa, Lara não hesitou.

O beijo aconteceu e, a partir daquele momento, os três passaram a construir o relacionamento que mantêm até hoje. Lara conta que ainda gostava de Maycon e enxergou na proposta a possibilidade de retomar uma história que não havia sido completamente encerrada.

Mas havia uma condição fundamental: a relação precisava ser séria, baseada em respeito e com limites bem definidos. “Eu disse que aceitava porque realmente ainda gostava muito dele e era uma oportunidade de estar junto da minha irmã.

Mas o negócio teria que ser sério. Não seria uma suruba.

Tudo teria que acontecer com respeito”, afirma. O relacionamento a três, portanto, não começou apenas com uma decisão de compartilhar o mesmo homem.

Para as irmãs, havia também o desejo de preservar uma ligação que já existia muito antes de Maycon voltar à vida de Lara. Dois casais, uma família

Os três estão juntos nesse formato há seis anos. Maycon esclarece que seu relacionamento com Laila já existia havia aproximadamente seis anos quando Lara passou a integrar a relação.

Por isso, a história do trisal propriamente dito é mais recente do que o namoro entre ele e a irmã mais nova. A convivência é organizada a partir de acordos que, segundo eles, precisam ser respeitados por todos.

Maycon afirma que cada uma das mulheres tem seu próprio quarto e que os momentos íntimos acontecem separadamente. A definição que ele utiliza é a de dois casais dentro de uma mesma estrutura familiar.

A explicação é importante para os três porque, desde que passaram a expor a rotina nas redes sociais, perceberam que parte do público interpreta a relação de maneira diferente daquela que vivem. Com mais de 65 mil seguidores, os vídeos mostram atividades cotidianas, brincadeiras e situações domésticas.

O conteúdo, entretanto, não inclui registros de intimidade. Lara conta que alguns seguidores questionam a existência do relacionamento justamente porque não encontram nas publicações imagens que consideram compatíveis com a ideia que fazem de um trisal.

Há também quem peça fotografias e vídeos íntimos. “Alguns seguidores não acreditam que somos um trisal porque não postamos nada de momentos íntimos juntos.

São vídeos normais mesmo, até porque somos duas irmãs e jamais faríamos isso. Aqui é um relacionamento sério, não apenas sexo”, diz.

A rotina também envolve situações bem-humoradas. Quando perguntado sobre como é conviver com duas mulheres dentro de casa, Maycon responde com brincadeiras e afirma que o segredo é tratar as duas da mesma maneira.

“Não tenho muitos problemas, desde que o tratamento seja igual, inclusive no sexo”, comenta, aos risos. Maycon diz que não precisa tomar medicamentos para melhorar a ereção | Foto: Acervo pessoal

Vida simples Ele costuma brincar que as duas dão menos trabalho e custam menos do que uma mulher sozinha, dependendo de quem seja a pessoa.

A observação vem acompanhada de outra explicação: apesar de ser produtor rural e ter uma situação financeira que, segundo ele, faz algumas pessoas imaginarem uma vida de luxo, a família leva uma rotina simples. “Como sou bem visto na cidade e produtor rural, as mulheres acham que somos todos milionários, né? Mas, graças a Deus, elas são simples.

Nós vivemos uma vida boa, mas simples, sem muito glamour”, garante Maycon e as irmãs. Sem tadalafila

Maycon também faz piada sobre a disposição para a vida íntima. Diz que não precisa tomar medicamentos para melhorar a ereção e que consegue atender às duas companheiras sem dificuldades.

“Sem tadalafila. Se dependesse de mim, seria todo dia”, brinca.

As irmãs confirmam a disposição do companheiro, também em tom descontraído. “É verdade, o Maycon tem um fogo que não se apaga”, dizem.

Quando a cidade descobriu Durante um período, o relacionamento permaneceu relativamente discreto.

Segundo Maycon, poucas pessoas da região sabiam que os três viviam juntos. A mudança aconteceu em uma festa de peão de Montividiu, quando Lara foi escolhida rainha do rodeio.

A participação dela no evento acabou levando a uma entrevista com um canal de comunicação de Rio Verde. Na ocasião, Lara contou um pouco da história dos três, e o relacionamento passou a ganhar visibilidade.

A exposição trouxe a curiosidade de moradores e de pessoas de outras cidades. Em um município pequeno, a história dos três começou a circular com mais intensidade, tornando o relacionamento conhecido por uma parcela maior da população.

Em uma cidade de costumes tradicionais, o respeito prevalece Com pouco mais de 12 mil habitantes, Montividiu preserva características de uma cidade interiorana, onde os costumes tradicionais ainda fazem parte da vida de boa parte da população.

Em uma comunidade desse porte, na qual os moradores frequentemente se conhecem e compartilham os mesmos espaços, um relacionamento como o de Maycon, Lara e Laila poderia despertar estranhamento ou até resistência. Afinal, não é todo dia que uma cidade do interior se depara com a história de um homem que vive maritalmente com duas irmãs gêmeas.

Mas, segundo os três, a realidade foi diferente do que se poderia imaginar. Apesar da curiosidade que a relação desperta, especialmente entre quem conhece a história, o relacionamento não se transformou em motivo de rejeição ou discriminação por parte da população.

Pelo contrário: eles afirmam que circulam normalmente pela cidade, frequentam os mesmos ambientes que os demais moradores e são tratados com respeito. “Aqui na cidade somos respeitados.

Não há preconceito nem discriminação. Somos bem recebidos aonde chegamos”, garante Maycon.

A experiência dos três contrasta com a expectativa de que uma relação fora dos padrões tradicionais necessariamente enfrentaria resistência em uma comunidade menor e de costumes mais conservadores. Para eles, o fato de viverem em uma cidade com essas características não impediu que construíssem uma rotina pública sem grandes constrangimentos.

“A curiosidade existe, mas não se sobrepõe ao respeito que recebemos dos moradores”, destacam. Ao se tornar Rainha do Rodeio, Lara conta que o relacionamento dos três se tornou público | Foto: Acervo pessoal

A família e a aceitação Os pais de Maycon estranharam a princípio a configuração do relacionamento, mas, segundo ele, acabaram aceitando e abençoando a união.

Com os pais das gêmeas, que são separados, o processo foi um pouco mais demorado. Laila explica que a forma como Maycon tratava as duas e os demais familiares teve importância para que a relação fosse compreendida.

Ela destaca a generosidade do companheiro, que costumava ajudar financeiramente pessoas próximas, especialmente integrantes da família. “O Maycon sempre teve um jeito brincalhão e tratava todos muito bem, além de ajudar financeiramente as pessoas, principalmente as da família.

Isso ajudou muito para que nossos pais concordassem. Também porque tanto nossos pais quanto os pais dele viam que somos felizes assim, do nosso jeito”, conta.

A aceitação familiar, portanto, não foi descrita como resultado de uma conversa isolada, mas como algo que se desenvolveu a partir da convivência e da observação da maneira como os três se relacionavam. A família também inclui os filhos.

Maycon tem uma criança com Lara e outra com Laila. Além deles, participa da criação de outros dois filhos que as companheiras tiveram em relacionamentos anteriores.

Questionados sobre possíveis situações de bullying envolvendo as crianças por causa da configuração familiar, Laila afirma que elas nunca passaram por esse tipo de situação em razão do relacionamento dos pais. A fé e os limites religiosos

Outro aspecto que aparece na história é a relação dos três com a religião. Maycon, Lara e Laila se identificam como cristãos, embora tenham formas diferentes de se relacionar com as igrejas.

Maycon diz ter maior identificação com o segmento evangélico, mas também frequenta missas acompanhado de Laila. Lara afirma que gosta mais das igrejas evangélicas, embora não participe regularmente de nenhuma instituição religiosa.

Os três dizem não ter sofrido discriminação direta por parte de grupos religiosos por causa da relação. Ao mesmo tempo, reconhecem que existem regras e restrições dentro de determinadas tradições religiosas.

Maycon cita como exemplo as orientações do catolicismo em relação à participação na comunhão por pessoas que vivem situações conjugais que não se enquadram nas normas da Igreja. “Nós temos consciência de que, apesar de ninguém nos discriminar, não podemos participar da comunhão”, afirmam.

Ele também acredita que a configuração do relacionamento não deve determinar o destino espiritual de cada um. Para Maycon, a salvação é uma questão individual, e cada pessoa deve responder pela própria caminhada religiosa.

“Pensamos que isso não interfere em nossa salvação, até porque a salvação é individual. Eu luto pela minha, a Laila pela dela e a Lara pela dela.

Como já dissemos, nosso relacionamento, embora não sejamos casados nem na igreja nem no civil, é uma relação em que somos felizes, nos amamos e nos respeitamos. É isso que importa”, dizem os três, ao afirmarem ainda que não pretendem abrir mão da maneira como decidiram viver.

Do rodeio ao Programa do Ratinho Se a participação de Lara na festa de peão ajudou a tornar o relacionamento conhecido na região, uma aparição na televisão ampliou a história para muito além de Montividiu.

os três participaram ao vivo do Programa do Ratinho | Foto: Acervo pessoal No dia 14 de outubro, os três participaram ao vivo do Programa do Ratinho, exibido pelo SBT.

A presença na atração deu ao relacionamento uma exposição nacional e fez com que pessoas de diferentes partes do país passassem a conhecer a família. Maycon afirma que a participação alcançou uma audiência expressiva, com mais de 11 milhões de televisores ligados, segundo a estimativa mencionada por ele.

A experiência, entretanto, teve dois lados. Se, por um lado, a televisão permitiu que a história chegasse a um público muito maior, por outro, também abriu espaço para uma onda de comentários e julgamentos nas redes sociais.

A repercussão trouxe mensagens de apoio, mas também manifestações ofensivas. Segundo Maycon, alguns comentários ultrapassaram os limites da crítica e atingiram a honra dos três.

Ele diz que conseguiu lidar melhor com as manifestações negativas, mas percebeu que as companheiras foram mais afetadas. “Por um lado, foi bom a gente ir lá no Ratinho, mas, por outro, não.

Eu tirei de letra esses comentários maldosos de pessoas sem coração, mas as meninas sofreram com isso”, relata. Laila admite que a exposição mexeu profundamente com seu emocional.

Ela conta que ficou abalada com o volume e o conteúdo das mensagens e chegou a temer que o sofrimento provocado pelos ataques pudesse afetar sua saúde. “Fiquei muito abalada com os comentários.

Achei que ia ficar doente”, afirma. Lara, por sua vez, diz que consegue lidar melhor com as críticas e prefere responder quando considera que alguém ultrapassa o limite.

Ela lembra de uma mensagem em que um internauta afirmou que, quando Jesus voltasse, os três iriam para o inferno. A resposta de Lara foi tão direta quanto irônica: “Então Jesus já voltou e você ficou com essa língua grande sua”.

Mais do que um trisal: poliamor Maycon afirma que o termo trisal acabou se tornando a maneira mais conhecida de identificar os três, especialmente entre os seguidores das redes sociais.

É assim que as pessoas passaram a reconhecê-los, e o nome acabou incorporado à história que compartilham publicamente. Ele, porém, prefere utilizar a palavra poliamor, que considera transmitir uma ideia mais séria sobre o tipo de vínculo que construíram.

O conceito se refere à possibilidade de manter mais de uma relação amorosa simultaneamente, desde que exista conhecimento e consentimento entre todos os envolvidos. Na experiência dos três, a palavra ajuda a explicar que não se trata apenas de uma relação marcada pela atração física.

Há sentimentos, compromisso, responsabilidades familiares e decisões que precisam ser compartilhadas. Eles sabem que a história desperta curiosidade.

“Sabemos também que nem todos compreenderão a escolha que fizemos, mas é isso que queremos”, garantem. A aparição na televisão e a exposição nas redes sociais mostraram que a reação do público pode oscilar entre o interesse, a admiração e a hostilidade.

Ainda assim, quando questionados sobre o que consideram mais importante na relação, os três retornam à mesma ideia: “respeito, amor e felicidade.” Leia também: Quatro histórias de amor sobre as mais diversas formas de amar

Publicação Original Jornal Opção jornalopcao.com.br
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