Um dos criadores de 'Emergência 53', Marcio Maranhão fala da segunda temporada, comenta a repercussão da primeira e conta se há chance de Marjorie Estiano aparecer na série

Um dos criadores de 'Emergência 53', Marcio Maranhão fala da segunda temporada, comenta a repercussão da primeira e conta se há chance de Marjorie Estiano aparecer na série - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Certa vez, Marcio Maranhão escutou de George Moura, responsável por sucessos como "Guerreiros do Sol" e "Onde nascem os fortes", que ele escreve "com os pés". Na ótica dele, é visitando os lugares que se entra em contato com as emoções humanas para encontrar as fontes de inspiração.

Essa frase vem norteando o médico-cirurgião em sua jornada pelo audiovisual. Ele, que foi consultor de "Sob pressão" entre 2017 e 2022 e chegou a escrever cenas da série, acabou se tornando um dos criadores de "Emergência 53" ao lado de Claudio Torres e Andrucha Waddington.

A produção alcançou ótimos índices no Globoplay este ano e foi renovada para uma segunda temporada. Segundo Maranhão, que hoje em dia é também roteirista, essa transição não foi difícil, mas prazerosa.

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— Em "Sob pressão", trabalhei com pessoas maravilhosas, roteiristas muito experientes que me colocaram no colo e me deram uma parceria importante de confiança. Eles me davam autonomia para discordar.

Para mim, não há distinção muito clara entre médico e roteirista. Uma atividade alimenta a outra.

Vou para o front e retorno com um novo olhar. Vou com olhar de roteirista buscando as histórias, os conflitos, o sofrimento da alma humana até para me tornar um médico melhor.

Uma atividade aperfeiçoa a outra — explica Maranhão. "Emergência 53" acompanha a rotina de profissionais de um serviço móvel de urgência no Rio de Janeiro.

Na nova leva de episódios, haverá uma "exacerbação dos conflitos e contrastes sociais", de acordo com ele. Todos os protagonistas retornarão: os médicos Irene (Yara de Novaes), Pedro (Emilio Dantas) e Glória (Heloisa Jorge); os motoristas de ambulância Duda (Ana Hikari) e Vandam (Jaffar Bambirra); e os enfermeiros Vanessa (Raquel Villar), Átila (William Nascimento) e Manuela (Valentina Herszage).

— É um universo inesgotável. Teremos uma temporada com fortes emoções.

Os profissionais vão estar sempre no limite. Procuramos explorar temas que são relevantes e que estão muito próximos da nossa realidade.

Saúde mental é um universo que a gente explora. Pessoas em situação de rua, as cracolândias, a violência urbana...

Especialmente nesta temporada, a gente deu uma atenção especial à saúde mental, a doenças negligenciadas e a transtornos mentais. O tema é uma grande preocupação do SUS — detalha o médico, que afirma ainda não ter uma confirmação de terceira temporada.

A primeira leva de episódios repercutiu nas redes sociais e provocou vídeos de react, em que profissionais de saúde, bombeiros e policiais se manifestaram sobre a trama. Muitos se divertiram com as licenças poéticas e disseram que determinadas cenas eram inverossímeis.

Maranhão analisa: — A realidade está tão surreal que dá uma rasteira na ficção.

Esses reacts estão mais para "esse lugar é meu e só eu posso falar sobre isso" do que para "isso realmente jamais aconteceria". A ficção serve para jogar uma lente, iluminar aquilo que está entre a realidade.

O que é exuberante é a emoção humana que permeia esses profissionais de saúde. Quando a gente se atém somente ao protocolo, reduz a discussão.

A série quer entreter e emocionar, mas pretende também provocar uma discussão sobre um serviço público de saúde. Eu entendo que a sociedade tende a proteger melhor aquilo que ela conhece.

Quando fazemos as licenças poéticas, somos profundamente respeitosos com o Samu. Elas são necessárias para nossos heróis aflorem.

E ninguém quer idealizar o SUS. Ele é maravilhoso e extraordinário, mas a gente não defende eles elogiando, e sim ressaltando como poderia ser melhor.

A gente procura provocar a discussão criando esse universo muitas vezes fantasioso, mas que chega ao público. O react nada mais é que o desejo da pessoa de se sentir representada na obra.

Essa crítica social, defende Maranhão, é o que diferencia as séries brasileiras das americanas, como o fenômeno "The Pitt", da HBO Max, por exemplo: — Gosto muito de "The Pitt" e do olhar para dentro do profissional de saúde.

O personagem principal tem um trauma da época da pandemia. Acho o roteiro muito exitoso nesse lugar dos profissionais de saúde que deveriam cuidar das outras pessoas, mas negligenciam o próprio cuidado.

Em relação aos recursos, vejo com certo distanciamento porque eles se concentram muito nos personagens. Mas muitas vezes não vejo crítica ao sistema de saúde americano.

Eles não têm um sistema universal como nós temos. Fico olhando as séries americanas, admirando a parte de roteiro, mas pensando em como as nossas podem ser muito melhores e autênticas, falando de coisas que são nossas.

A gente coloca o sistema como antagonista. A falta de um material ou de um tomógrafo, uma ambulância quebrada...

Os antagonistas também são o ambiente de trabalho, a locação, o território, a cidade. Diferente da maior parte das séries médicas.

Esse também era o tom de "Sob pressão", que foi baseada num livro do próprio Maranhão: "Sob pressão: a rotina de guerra de um médico brasileiro". Durante a série, o médico conheceu Marjorie Estiano.

Os dois são um casal há cerca de quatro anos. A atriz interpretou a médica Carolina.

Ele conta se há chances de o público vê-la em "Emergência 53". — Acho que não.

São ciclos tão bonitos. É saber reconhecer quando um ciclo termina.

Marjorie fez brilhantemente a doutora Carolina e contribuiu muito para criar esse imaginário coletivo em relação a uma médica de saúde pública. Sempre digo que, se um paciente visse um hospital caindo aos pedaços e um tomógrafo com defeito, mas se tivesse uma Carolina lá dentro, ele gostaria de ser atendido por ela.

Então, acho que a Marjorie já contribuiu bastante nesse local de personagem defensora da saúde pública — avalia ele, que diz ter vontade de trabalhar novamente com a atriz. TV e famosos: se inscreva no canal da coluna Play no WhatsApp

No fim de setembro, os dois participaram juntos pela primeira vez de um programa de TV, o "Sem censura", na TV Brasil. Logo após a atração ir ao ar, se multiplicaram na internet postagens sobre o casal e sua interação em "Sob pressão".

Maranhão conta como se sente diante da exposição: — É desconfortável no sentido de exposição mesmo, mas, quando a gente tem ali uma conversa tão boa quanto foi no "Sem censura", vale a pena se expor, botar a cara.

Estávamos ali em função de uma obra, de um trabalho, de uma divulgação. Acho que é soberano.

É maior que esse desconforto que tenho. Acho importante a gente se posicionar e defender aquilo em que acredita.

Mesmo não tão à vontade diante dos holofotes, Maranhão não quer se afastar do audiovisual. Ele já tem um projeto de longa baseado em seu livro ainda inédito "Minha vez", sobre Lúcio Pacheco, médico especializado em transplante de fígado que precisou ele mesmo passar pela cirurgia.

E não descarta estar na frente das câmeras, apresentando algum quadro sobre saúde, por exemplo: — Não me via dando entrevista ou sendo roteirista e criador de série.

A vida vai levando a gente para lugares inesperados. Não tenho medo de me arriscar na comunicação, de me envolver em alguma campanha ou de promover saúde para a população.

Isso não é coisa pensada, elaborada, planejada, mas, se acontecer, vou procurar fazer da melhor forma. Marjorie Estiano e Márcio Maranhão no Golden Globe Gala no Rio e no set de 'Sob pressão'

Reprodução Instagram e Divulgação TV Globo Galerias Relacionadas

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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