Dados da SSP mostram redução nos registros de roubos, mas o medo da violência ainda influencia o dia a dia dos moradores Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria.
A queda no número de roubos em São Paulo ainda não parece suficiente para afastar o medo de assaltos da rotina de quem circula pela cidade. Um sinal dessa contradição aparece nos carros de aplicativo: cada vez mais motoristas deixam avisos para que passageiros evitem o uso do celular durante o trajeto.
A preocupação está relacionada à ação de criminosos que quebram os vidros dos automóveis para roubar aparelhos e outros pertences. Os alertas, que funcionam como uma orientação informal de segurança, mostram como determinadas modalidades de crime continuam influenciando o comportamento da população, mesmo diante de indicadores oficiais em queda.
A situação também evidencia uma diferença importante: enquanto as estatísticas contabilizam ocorrências registradas, a sensação de segurança está relacionada às experiências individuais, aos relatos de violência e à percepção de risco em diferentes espaços da cidade. Os indicadores mais recentes mostram uma redução expressiva nos crimes patrimoniais na capital paulista.
Em setembro de 2026, São Paulo registrou 6.213 roubos, contra 7.966 no mesmo mês de 2025. A queda foi de 22%, segundo dados da SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo).
O resultado representa o menor número de ocorrências para setembro desde o início da série histórica, em 2001. A redução também aparece no acumulado do ano.
Entre janeiro e agosto de 2026, foram registrados 58.093 roubos na capital, enquanto no mesmo período de 2025 o total havia chegado a 68.222. Os roubos de veículos também recuaram: em setembro, foram 592 ocorrências, ante 800 no mesmo mês do ano anterior, uma diminuição de 26%.
Apesar da melhora nos indicadores, a percepção de insegurança continua sendo um desafio. Uma pesquisa Datafolha divulgada em julho mostrou que 47% dos paulistas com 16 anos ou mais tinham muito medo de sofrer um assalto ao andar pelas ruas da cidade onde vivem.
Outros 29% afirmaram ter um pouco de medo, enquanto 24% disseram não sentir medo algum. O levantamento também identificou preocupação com assaltos em semáforos, situação relacionada à rotina de quem circula de carro pelas grandes cidades.
Nesse caso, 45% dos entrevistados disseram ter muito medo de serem vítimas de um assalto, 26% afirmaram sentir um pouco de medo e 29% não demonstraram preocupação. Os números mostram que a sensação de vulnerabilidade não está restrita a quem caminha pelas ruas.
Motoristas e passageiros também convivem com o receio de abordagens durante congestionamentos, paradas em semáforos e deslocamentos por regiões consideradas perigosas. Um dos exemplos mais visíveis da permanência do medo de assaltos é a atuação da chamada “gangue da pedrada”.
O nome faz referência a grupos de criminosos que aproveitam congestionamentos e veículos parados em semáforos para quebrar os vidros dos automóveis e roubar celulares, bolsas e outros objetos deixados à vista. Um levantamento do UOL Carros, com base em dados da SSP-SP, identificou 1.602 ocorrências relacionadas a esse tipo de ataque na capital entre janeiro e julho de 2026.
A região central concentrava a maior parte dos registros, mas os casos também passaram a aparecer em bairros como Grajaú, Cidade Tiradentes e Artur Alvim. A preocupação com os ataques tem provocado mudanças na rotina dos motoristas de aplicativo.
Além de esconder os próprios pertences, alguns profissionais passaram a colocar avisos nos veículos para orientar passageiros a não utilizar o celular, principalmente quando o trânsito está parado. A recomendação não é uma determinação oficial das plataformas, mas uma iniciativa individual para tentar evitar assaltos e prejuízos com a quebra dos vidros.
A preocupação não se restringe aos turistas ou aos passageiros que não conhecem a cidade. Para os motoristas, o alerta também é direcionado aos próprios moradores, que, pela familiaridade com os trajetos, podem acabar relaxando os cuidados.
“A gente vê isso acontecendo direto, principalmente com o trânsito parado ou no semáforo. A pessoa fica mexendo no celular perto da janela e nem percebe o risco.
Tem gente que acha que acontece só com turista, mas não é assim. Quem mora aqui também acaba ficando distraído.
Coloquei o aviso para chamar a atenção, porque, se eles [criminosos] veem uma oportunidade, não pensam duas vezes. Quebram o vidro e não dá nem tempo de agir”, relatou um motorista de aplicativo ao ND Mais.
Além dos avisos, alguns profissionais chegam a instalar telas de proteção residencial nos vidros dos carros como uma alternativa para dificultar a ação dos criminosos. A diferença entre a queda dos registros policiais e a sensação de insegurança pode ser explicada por uma combinação de fatores.
Um deles é que os indicadores oficiais não representam necessariamente todos os crimes cometidos. Para que uma ocorrência entre nas estatísticas da SSP-SP, é preciso que o crime seja identificado, comunicado às autoridades e registrado em boletim de ocorrência.
A Secretaria da Segurança Pública reconhece essa limitação em uma nota técnica sobre estatísticas criminais. O órgão explica que os dados representam o processo de notificação dos crimes, e não uma reprodução integral de todas as ocorrências.
A chamada subnotificação, portanto, pode fazer com que parte dos delitos não apareça nos levantamentos oficiais. “Os dados devem ser interpretados sempre com prudência, pois estão sujeitos a uma série de limites de validade e confiabilidade: eles são antes um retrato do processo social de notificação de crimes do que uma reprodução fiel do universo criminal de um determinado local.
Para que um crime faça parte das estatísticas oficiais, são necessárias três etapas sucessivas: o crime deve ser detectado, notificado às autoridades policiais e, por último, registrado no boletim de ocorrência”, diz a nota. Outro aspecto é a distribuição territorial da criminalidade.
Uma redução no total de roubos da cidade não significa que todos os bairros tenham registrado a mesma melhora. Determinadas modalidades de assalto podem continuar concentradas em corredores de trânsito, regiões comerciais e áreas de grande circulação, mantendo a sensação de vulnerabilidade entre quem frequenta esses locais.
Além disso, a experiência direta ou indireta com a violência influencia a maneira como as pessoas avaliam a própria segurança. Um assalto presenciado no caminho do trabalho, um conhecido que teve o celular levado ou a circulação frequente de vídeos de crimes nas redes sociais podem reforçar a percepção de risco, mesmo quando os indicadores gerais apontam uma redução.
A pesquisa Datafolha divulgada em julho também ajuda a dimensionar as preocupações da população. Quando questionados sobre os principais problemas da segurança pública no Estado, 20% dos entrevistados apontaram a falta de policiamento nas ruas como a maior preocupação.
O percentual ficou à frente de temas como assaltos, citados por 11%, e tráfico de drogas, mencionado por 8%. Outro dado relevante aparece na diferença entre homens e mulheres.
Segundo a pesquisa, 58% das mulheres paulistas afirmaram ter muito medo de sofrer um assalto ao andar pelas ruas da cidade onde vivem. Entre os homens, o percentual foi de 35%.
A percepção também era mais elevada entre moradores da Região Metropolitana de São Paulo, onde 60% relataram muito medo. Os números mostram que a sensação de insegurança não é distribuída igualmente entre a população.
A experiência de circular pela cidade, os horários de deslocamento e a vulnerabilidade diante de determinadas situações podem influenciar diretamente a forma como cada grupo percebe os riscos. Camila Souza é repórter do ND Mais em São Paulo, de onde apura e escreve sobre os principais assuntos da maior cidade do Brasil.
Integrante do Núcleo Nacional, cobre política, economia, segurança pública e o que mais impacta a população do estado. Acompanha especialmente movimentações políticas e o que acontece na Grande São Paulo, incluindo a capital paulista, Guarulhos, Campinas, São Bernardo do Campo, Osasco e a região.
Formada pela UniRitter, em Porto Alegre, trabalha com comunicação desde 2020 e tem experiência em redação multimídia e edição de conteúdo, com passagens por portais de notícias e jornal impresso. Foi repórter nas Eleições 2022 e integrou o Projeto Comprova, iniciativa nacional de checagem de fatos.
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