Às vésperas das eleições de meio de mandato, o povo norte-americano pode ouvir o chamado que ecoa da América Latina De Nova York – Donald Trump ainda não parabenizou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela reeleição.
A vitória do petista representa um revés para o presidente norte-americano ao interromper a sequência de avanços da extrema-direita na América Latina e mantém à frente do Brasil um presidente disposto a resistir às tentativas de Trump de ditar os rumos da região. O resultado significa, porém, muito mais.
Às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o resultado oferece um contraponto à expansão do trumpismo para além das fronteiras dos EUA. O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, tomou o caminho oposto ao silêncio da Casa Branca.
“O povo unido jamais será vencido! Parabéns, presidente Lula”, escreveu no X. O senador Bernie Sanders foi o primeiro a se manifestar, ainda na noite do domingo 25.
Ele destacou a relação de Lula com os trabalhadores e a defesa da democracia. “Parabéns a Lula por sua extraordinária vitória na reeleição presidencial brasileira.
Lula tem defendido os trabalhadores brasileiros e a democracia, e continuará a fazê-lo nos próximos quatro anos”, afirmou. A mensagem encontra eco na manifestação do deputado democrata Ro Khanna, que vinculou diretamente o resultado brasileiro ao enfrentamento do autoritarismo.
“Pessoas em todo o mundo estão enfrentando o extremismo. Com Lula no Brasil, elas acabam de vencer”, escreveu.
“Líderes autoritários sempre atacam a democracia porque não têm chance contra a vontade de seu povo.” Khanna não se limitou a celebrar.
Também cobrou que Trump “respeite os resultados e não enfraqueça as eleições brasileiras”. A advertência colocou no centro da reação ianque uma questão que vai além da preferência por um candidato: o direito dos brasileiros de escolher seu governo sem interferência de Washington.
O deputado Joaquin Castro, democrata do Texas, parabenizou Lula e os brasileiros pelo exercício de seus direitos democráticos e expressou a expectativa de continuidade da cooperação entre os dois países. Já a assessoria do governador da Califórnia, Gavin Newsom, ressaltou uma agenda que contrasta com a de Trump: defesa da democracia, proteção ambiental, direitos dos trabalhadores e uma economia voltada às famílias trabalhadoras.
Cada manifesto vai além do cumprir um ritual protocolar. Sanders destacou os trabalhadores.
Newsom, uma agenda social e ambiental. Khanna, a resistência ao autoritarismo e à ingerência externa.
Mamdani recorreu à força do povo. Cada um, à sua maneira, viu na vitória de Lula uma razão para alimentar a própria luta.
É por isso que o resultado brasileiro não se encerra nas fronteiras do país. Para os progressistas norte-americanos, a vitória de Lula enfrenta a ideia de que não há alternativa ao avanço da extrema-direita.
De olho nesse movimento, Donald Trump Jr., filho do presidente dos EUA, questionou no X a prorrogação de duas horas da votação e acusou a imprensa dos Estados Unidos de dois pesos e duas medidas: “Se um governo conservador no Brasil fizesse isso, todos na grande imprensa americana perderiam a cabeça”.
O argumento deixa de fora um detalhe decisivo: ambas as candidaturas pediram a extensão. A de Lula apontou falhas no transporte público, enquanto a a de Flávio Bolsonaro solicitou mais duas horas em municípios de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul atingidos pelas chuvas.
Segundo o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques a medida não teve impacto no resultado. Ainda assim, Flávio pediu a anulação da eleição.
Agora é a vez de o povo norte-americano ouvir o chamado que ecoa da América Latina. As eleições de meio de mandato estão marcadas para 3 de novembro e definirão o controle do Congresso na segunda metade da gestão republicana.
Trump não estará pessoalmente nas cédulas, mas a composição da Câmara e do Senado terá consequências para sua capacidade de levar adiante a própria agenda. Evidentemente a conquista de Lula não autoriza previsões sobre o comportamento do eleitor norte-americano, mas oferece à oposição progressista dos EUA a imagem de resistência eleitoral.
Afinal, se foi possível vencer no Brasil, há motivo para acreditar que também é possível mudar os rumos em outros lugares. Clarissa Carvalhaes Colaboradora correspondente de 'CartaCapital' em Nova York
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não.
O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo. O combate à desigualdade nos importa.
A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome.
Importa o apego à verdade factual e a honestidade. Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos.
Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta. Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando.
Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Carta Capital