Trump se torna animal ferido, mas ainda não completamente derrotado

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, emerge das eleições legislativas de 3 de novembro de 2026 como um líder politicamente enfraquecido, mas ainda dotado de instrumentos significativos de poder. A perda do controle republicano sobre o Congresso representa uma dura reprimenda dos eleitores à sua administração e inaugura uma nova fase de confrontos políticos em Washington, sem necessariamente comprometer sua capacidade de tomar decisões nas áreas comercial e militar.

Essa é a avaliação de Gabriel Rubin, colunista da Reuters Breakingviews, divisão de análises e comentários financeiros da agência Reuters. Segundo o analista, a derrota republicana reflete o desgaste acumulado por Trump desde seu retorno à Casa Branca, especialmente em razão da inflação, do aumento dos combustíveis, das tarifas comerciais e da guerra contra o Irã.

O resultado expõe uma contradição central do segundo mandato do presidente americano. Eleito em 2024 com promessas de reduzir os preços e evitar novos conflitos militares, Trump passou a enfrentar a insatisfação dos eleitores justamente nessas duas áreas.

Guerra contra o Irã e inflação alimentaram a derrota De acordo com a análise da Reuters Breakingviews, a decisão de atacar o Irã teve consequências econômicas importantes para os consumidores americanos.

Desde o início do conflito, os preços da gasolina subiram cerca de 40%, enquanto os do diesel praticamente dobraram. A elevação dos combustíveis agravou as pressões inflacionárias e ampliou o custo de vida, atingindo diretamente famílias e empresas.

Pesquisas realizadas nos meses finais da campanha indicaram um deslocamento significativo de eleitores em direção ao Partido Democrata, em um movimento associado ao descontentamento com a situação econômica e com as decisões do governo. A política comercial de Trump também contribuiu para o desgaste republicano, sobretudo nos estados próximos ao Canadá, afetados pelas tarifas impostas pelo governo americano.

No Maine, a senadora republicana Susan Collins conseguiu, no fim de outubro, uma reversão simbólica de algumas tarifas, mas a medida não foi suficiente para neutralizar as críticas. Seu adversário democrata, Troy Jackson, ironizou a retirada das tarifas sobre o sal utilizado nas estradas durante o inverno.

“Não podemos comer sal rodoviário”, afirmou, destacando que a medida não resolvia as dificuldades enfrentadas pelos consumidores. Estados agrícolas e industriais se voltam contra os republicanos

O avanço democrata também atingiu regiões agrícolas e industriais que sofreram os efeitos das disputas comerciais promovidas pela Casa Branca. A perda de mercados de exportação na China para produtos americanos, especialmente carne bovina e soja, prejudicou setores importantes da economia de estados tradicionalmente conservadores.

Kansas, Carolina do Sul e Texas elegeram senadores democratas pela primeira vez em décadas, em resultados que alteram a composição política do Senado. Como os mandatos dos senadores americanos duram seis anos, essas vitórias poderão produzir consequências duradouras, inclusive durante o próximo mandato presidencial, iniciado em 2029.

Caso os democratas também conquistem a Casa Branca em 2028, a nova composição do Congresso poderá facilitar a aprovação de projetos legislativos mais ambiciosos. No Texas, a derrota republicana teve significado adicional.

O estado, um dos principais centros de expansão de data centers utilizados pela indústria de inteligência artificial, elegeu uma governadora democrata pela primeira vez em décadas. Segundo a Reuters Breakingviews, nem mesmo os quase US$ 500 milhões investidos por Elon Musk no apoio aos republicanos no estado foram suficientes para impedir o resultado.

A derrota evidencia os limites da influência financeira sobre uma eleição marcada por preocupações econômicas e pelo descontentamento com o governo federal. Congresso democrata poderá investigar o governo Trump

A conquista das duas casas do Congresso pelos democratas abre uma nova frente de pressão sobre a Casa Branca. Com o controle das comissões parlamentares, a oposição poderá aprofundar investigações sobre contratos públicos, possíveis conflitos de interesse envolvendo negócios da família Trump com criptomoedas e denúncias de influência política em operações internacionais.

Essas investigações poderão atingir tanto integrantes do governo quanto empresas que mantiveram relações próximas com a administração republicana. O Senado também terá condições de dificultar a confirmação de indicados presidenciais, inclusive para cargos importantes no Executivo e no Judiciário.

A nova correlação de forças, entretanto, não significa que os democratas terão liberdade para impor integralmente sua agenda. Trump já sinalizou que pretende utilizar amplamente seu poder de veto para bloquear iniciativas legislativas da oposição.

Em entrevista à Fox News, afirmou que rejeitará projetos que considerar inaceitáveis e que os democratas acabarão precisando negociar com a Casa Branca. MarketScreener Canada

A derrubada de um veto presidencial exige maioria de dois terços tanto na Câmara quanto no Senado, um patamar difícil de alcançar em um Congresso dividido. Trump ainda controla a política externa e as Forças Armadas

Apesar do enfraquecimento político, Trump continua sendo o comandante das Forças Armadas americanas e preserva amplas prerrogativas presidenciais em matéria de política externa. Essa é uma das principais ressalvas apresentadas pela Reuters Breakingviews à interpretação de que a derrota eleitoral teria transformado o presidente em uma figura sem poder.

A administração republicana ainda poderá adotar medidas comerciais, utilizar instrumentos executivos e conduzir operações militares dentro dos limites estabelecidos pela legislação americana. O Congresso, por sua vez, poderá tentar restringir essas iniciativas por meio de leis, investigações, controle orçamentário e fiscalização das ações do Executivo.

Uma eventual tentativa de afastar integrantes do governo, como o secretário de Defesa Pete Hegseth, apontado na análise como um dos responsáveis pela estratégia militar contra o Irã, dependeria dos instrumentos constitucionais aplicáveis e de apoio político suficiente. A perspectiva é de intensificação dos confrontos institucionais, especialmente nas negociações orçamentárias e nas decisões relacionadas à política externa.

Um presidente enfraquecido, mas ainda poderoso A derrota nas eleições de meio de mandato altera profundamente o cenário político americano.

Trump perde a possibilidade de contar com maiorias republicanas nas duas casas legislativas e passa a enfrentar uma oposição fortalecida, com instrumentos para fiscalizar seu governo e dificultar a aprovação de projetos. Ao mesmo tempo, conserva poderes importantes para influenciar os rumos da economia e das relações internacionais.

A análise da Reuters Breakingviews aponta, portanto, para uma situação de enfraquecimento político sem perda equivalente de autoridade executiva. O resultado também inaugura uma disputa sobre o futuro do próprio Partido Republicano, que precisará avaliar sua relação com Trump diante das eleições presidenciais de 2028.

A imagem de um animal ferido sintetiza esse novo momento: o presidente sofreu uma derrota eleitoral de grandes proporções, mas continua à frente da maior potência militar do planeta e dispõe de instrumentos relevantes para exercer seu poder. A questão central dos próximos dois anos será como Trump reagirá à perda de apoio político e até que ponto o Congresso conseguirá impor limites à sua administração.

O resultado das urnas reduziu sua margem de manobra legislativa, mas não encerrou os confrontos que marcaram seu segundo mandato.

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