A base progressista dos democratas ganhou peso inédito no Congresso americano após as eleições de meio de mandato deste ano nos Estados Unidos e, naturalmente, pressionará por medidas contundentes contra o presidente Donald Trump, enquanto lideranças centristas do partido, por outro lado, já demonstraram preferência por acertos mais pragmáticos.
Trump está ciente disso e sabe que é do seu interesse cooperar com essas lideranças em alguma medida, principalmente se quiser evitar um processo de impeachment imediato. É por isso que vimos Trump “estender um ramo de oliveira” aos democratas logo após o resultado das urnas, comprometendo-se - de maneira bastante incomum - a tentar trabalhar com a nova maioria.
Essa é a análise de Alexander Main, diretor de política internacional do Center For Economic and Policy Research (CEPR), em Washington. Ainda assim, ele diz que é de se esperar que a pressão sobre lideranças democratas para que se alinhem a algumas agendas dos progressistas aumente, já que muitos, mesmo moderados, foram eleitos com base nessas pautas.
Para manter o apoio dos eleitores, eles precisarão “colocar as palavras em prática” e ir além da retórica, afirma Main. Em contrapartida, no cenário internacional, ele prevê recuo dos EUA em diversas frentes globais, exceto no Irã e exatamente na América Latina.
“Não é por acaso que, no dia seguinte às eleições, a Casa Branca publicou uma declaração afirmando: ‘A Doutrina Donroe está retomando o Hemisfério Ocidental’”, observa. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: Como avalia o resultado das eleições desta semana? Alexander Main: As pesquisas, em geral, subestimaram a vitória democrata, o que não surpreende dada a alta impopularidade de Trump e a profunda associação dos republicanos a ele.
Até moderados, como a senadora Susan Collins (Maine), foram afetados. A eleição não foi muito diferente do que costuma ser uma eleição de meio de mandato ao funcionar como um referendo: os eleitores puniram os republicanos porque Trump não cumpriu suas promessas centrais de 2024.
Main: Acabar com a inflação - alimentada por suas tarifas e pela guerra contra o Irã - e manter o país fora de “guerras sem fim”. O conflito no Irã já dura oito meses, embora Trump dissesse que terminaria em poucos dias.
Ele tentou desviar o foco exaltando a “conquista” da Venezuela e de seu petróleo, mas a população comum dos EUA não tem visto nenhum benefício disso. Além disso, muitos se sensibilizaram com suas políticas desumanas contra imigrantes (com ou sem documentação), especialmente latinos.
Main: Houve mudança significativa no voto latino e mesmo na conduta de setores republicanos tradicionais, como pequenos e médios empresários, que dependem muito de mão de obra imigrante. Os jovens também foram mobilizados pela violência das ações do ICE [serviço de imigração].
Pesou ainda a corrupção visível envolvendo a família e aliados de Trump, muito mal recebida por uma população cujos salários não acompanham a inflação. Valor: O que esperar de um Congresso democrata?
Main: O controle das duas Casas não dá aos democratas o comando da formulação de políticas do Executivo, mas permite exercer fiscalização rigorosa, além de conter - e, em certos casos, reverter - abusos. É de se esperar a realização de investigações e audiências sobre diversos atos de corrupção da administração.
Além disso, há forte pressão da base por responsabilização pela guerra não autorizada no Irã, conforme exige a Constituição, devendo impulsionar a aprovação de resoluções de poderes de guerra [“War Powers Resolutions”] que proíbam novas ações contra o Irã. É provável, também, que haja movimento pelo impeachment do Secretário de Defesa, Pete Hegseth.
Main: A base deseja ardentemente um novo processo por corrupção, desrespeito às leis americanas e internacionais, a guerra no Irã e abusos do ICE e outros agentes estatais. Porém, líderes como Hakeem Jeffries já sinalizaram relutância, preferindo buscar uma relação de trabalho com Trump.
Ainda assim, o Congresso pode adotar medidas contundentes, como condicionar verbas à interrupção de operações letais no Irã e na América Latina, além de propor o impeachment do Secretário de Estado, Marco Rubio, pelo bloqueio a Cuba, ações na Venezuela e ingerências eleitorais na AL e na Europa.
Valor: E os republicanos, como devem se posicionar agora? Main: Eles estão em posição delicada: mantêm laços estreitos e, frequentemente, devem sua eleição ao apoio de Trump, mas ele se tornou um dos presidentes americanos mais impopulares de todos os tempos.
Devem tentar se distanciar, embora limitados pela base “MAGA”. Trump será, inegavelmente, um líder em fim de mandato com poder reduzido - o “lame duck” [“pato manco”] -, mas sabe que é do seu interesse cooperar com a liderança democrata, particularmente se quiser evitar um processo de impeachment imediato.
É por isso que o vimos estender um ramo de oliveira aos democratas em suas declarações, comprometendo-se - de maneira bastante incomum - a trabalhar com a nova maioria democrata. Valor: O resultado da eleição deste ano traz pistas sobre a corrida presidencial de 2028?
Main: Agora, haverá efetivamente uma “bancada socialista” no Congresso, com ao menos oito socialistas democráticos. De modo amplo, a ala progressista de esquerda deve se tornar maior do que nunca, com bem mais de 100 membros.
No entanto, muitos líderes estão mais alinhados às alas do partido associadas a [Bill] Clinton ou [Barack] Obama; e, no fim, serão eles que controlarão a agenda. Ainda assim, a pressão para se alinhar mais à pauta progressista deve aumentar.
Main: Em parte, porque muitos democratas -inclusive moderados - foram eleitos com base em pautas progressistas, como a oposição a intervenções militares no exterior, a resistência ao AIPAC [American Israel Public Affairs Committee] e a interesses neoconservadores, e a oposição à influência corporativa na política.
Para manter os eleitores, muitos precisarão “colocar as palavras em prática” e ir além de um apoio meramente retórico ou simbólico. Valor: Esse novo Congresso pode impactar a relação dos EUA com outros países - incluindo da América Latina e, assim, o Brasil?
Main: É provável que vejamos Trump retirar os EUA de grande parte do cenário global, com pelo menos duas grandes exceções: o Irã, onde não aceita o que percebe como “derrota”, e a América Latina, que busca dominar via intervencionismo econômico, diplomático e militar com o “Escudo das Américas”.
Não é por acaso que, no dia seguinte às eleições de meio de mandato, a Casa Branca publicou declaração afirmando: “A Doutrina Donroe está retomando o Hemisfério Ocidental”. Nisso, Trump conta com apoio de Rubio, cuja trajetória política - assim como a da maioria dos políticos republicanos do sul da Flórida - está atrelada a tentativas de promover mudança de regime em Cuba e de frustrar governos e movimentos de esquerda na região.
Valor