O governo dos EUA tem uma leitura da política brasileira excessivamente influenciada pela ótica da família Bolsonaro, que construiu pontes sólidas com ao menos dois interlocutores do presidente Donald Trump: Steve Bannon e Jason Miller. É o que diz Ricardo Zúñiga, que foi cônsul-geral dos EUA em São Paulo durante o primeiro mandato do presidente Trump.
Antes, Zúñiga havia ocupado o posto de assessor do governo Barack Obama para assuntos da América Latina. Segundo ele, o entorno de Trump tem quase nenhum diálogo com outras alas políticas no Brasil - nem mesmo com outros nomes da direita - além dos Bolsonaros.
E, provavelmente, não tem ciência de que lideranças da direita brasileira que apoiaram a candidatura de Flávio Bolsonaro passaram a rejeitar suas decisões após ele ter fugido do Brasil esta semana, e se instalado nos EUA. “Pode ter certeza de que a Casa Branca, o presidente Trump e provavelmente o secretário de Estado não sabem que o resto da direita brasileira já está olhando para a frente [e não seguindo a posição de Flávio de contestar as eleições].
Muito poucas pessoas em Washington sabem quem é o Tarcísio de Freitas, por exemplo.” Steve Bannon e Jason Miller estão entre os mais proeminentes personagens da órbita da direita americana que mantém diálogo próximo com os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro, segundo Zúñiga.
Bannon e Miller são interlocutores diretos de Trump. Bannon é um ideólogo da direita americana, muito atuante durante o primeiro governo Trump.
Embora com menos relevo, continua sendo uma voz ouvida pelo presidente. Miller, segundo Zúñiga, geralmente é citado pela imprensa americana como sendo um “special government employee”, alguém que não está no governo, mas que é tratado em algumas questões como um funcionário do governo.
Miller apareceu em uma reportagem publicada pelo jornal The New York Times como tendo participado diretamente da organização da fuga, providenciando o jato particular que levou, Flávio e família para os EUA. A falta de diálogo com mais correntes políticas do Brasil estaria levando Washington a tomar medidas questionadas na relação com o Brasil.
Uma dessas medidas, sob possível influência de Bannon e Miller, é a postura de Trump de até agora se negar a reconhecer a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25). Embora o reconhecimento não seja uma exigência formal, trata-se de uma cortesia entre líderes de nações amigas.
Outra medida questionada pela oposição americana foi a decisão do governo de conceder visto a Flávio Bolsonaro, que fugiu do Brasil com a mulher e as duas filhas e está nos EUA desde quarta-feira. Dizendo-se alvo de perseguição no Brasil, Flávio afirmou que pretende liderar a oposição a partir do território americano e argumenta, sem apresentar provas, que as eleições foram fraudadas.
Suas declarações, em uma carta pública, foram contestadas por aliados no Brasil. “Há muita pressão de um grupo ideológico próximo ao presidente Trump que quer apoiar a postura de Flávio Bolsonaro.
E a verdade é que esse grupo próximo quase não tem comunicação com nenhuma outra ala política no Brasil”, disse Zúñiga, de Washington, ao Valor. “Ou seja, significa que o presidente está recebendo informações através do filtro da família Bolsonaro e de quase nenhum outro ator político brasileiro”, afirmou.
Para Ricardo Zúñiga, que deixou as funções de Estado em 2023 e tem se dedicado à consultoria Dinámica Americas, aconselhando empresas, as decisões em relação à disputa política no Brasil terão zero relevância nas eleições legislativas americanas na próxima semana. Mas diz que empresas americanas com investimentos no Brasil (e vice-versa) estão atentas.
“Nenhum dos atores comerciais que eu conheço está questionando os resultados das eleições. Eu diria que essa crise política está bloqueando o que eles [empresários e investidores] querem ver, que são relações comerciais, de Estado e transparentes entre EUA e Brasil.”
Valor