Os maiores fabricantes de automóveis com operações nos Estados Unidos intensificaram a pressão sobre o Congresso para impedir definitivamente a entrada de veículos chineses no mercado americano. A iniciativa reúne empresas como Toyota, General Motors, Ford e Volkswagen, que defendem a aprovação de uma legislação ainda em 2026 para restringir a atuação de concorrentes da segunda maior economia do mundo.
O movimento ocorre em meio à expansão internacional da indústria automobilística chinesa, especialmente no segmento de veículos elétricos, e ao aumento das disputas comerciais e tecnológicas entre Washington e Pequim. A ofensiva é liderada pela Alliance for Automotive Innovation, associação que representa praticamente todas as grandes montadoras instaladas nos Estados Unidos.
Continua após a publicidade Em manifestação encaminhada aos parlamentares na segunda-feira (2), a entidade pediu que a proposta seja votada antes do encerramento da atual legislatura, em dezembro.
O setor argumenta que a presença de veículos desenvolvidos por fabricantes chineses pode comprometer a segurança de informações coletadas pelos automóveis e enfraquecer a competitividade das empresas que mantêm fábricas, fornecedores e centros de pesquisa em território americano.
Continua após a publicidade “Precisamos proteger o mercado dos Estados Unidos de uma enxurrada de importações chinesas que trazem risco de vigilância e colocam em desvantagem os fabricantes atuais que fizeram investimentos de longo alcance nas comunidades americanas”, afirmou John Bozzella, presidente da associação.
A proposta ainda depende de aprovação legislativa. Caso avance, poderá transformar em restrição permanente barreiras que já dificultam a comercialização de automóveis chineses nos Estados Unidos.
Continua após a publicidade Carros conectados estão no centro da disputa
A discussão vai além da concorrência por preços. Os veículos modernos incorporam câmeras, sensores, sistemas de navegação, conexões à internet e softwares capazes de reunir informações sobre deslocamentos, localização e hábitos de utilização.
Para as autoridades americanas, essas tecnologias podem representar riscos quando desenvolvidas ou controladas por empresas sujeitas à legislação de países considerados adversários estratégicos. Continua após a publicidade
Em janeiro de 2025, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos concluiu uma regulamentação que restringe a utilização de determinados softwares e equipamentos conectados à China e à Rússia em veículos vendidos no país. As regras abrangem sistemas de conectividade e tecnologias empregadas na condução automatizada.
Sua implementação foi programada de forma gradual, com exigências específicas para diferentes anos-modelo. Continua após a publicidade
Na prática, as restrições dificultam a entrada de automóveis chineses no mercado americano, mesmo quando sua fabricação ocorre fora da China. A indústria automobilística agora pretende consolidar essas limitações em uma lei federal, reduzindo a possibilidade de alterações por futuras decisões administrativas.
EUA já impõem tarifas de 100% sobre elétricos chineses O pedido das montadoras ocorre em um mercado que já conta com obstáculos significativos à entrada de automóveis fabricados na China.
Em 2024, o governo americano elevou de 25% para 100% a tarifa adicional sobre veículos elétricos chineses, como parte de um conjunto de medidas comerciais destinadas a proteger setores considerados estratégicos. A decisão foi justificada pela preocupação com os subsídios concedidos à indústria chinesa e com o risco de concorrência em condições desiguais.
A tarifa adicional se soma a outros encargos de importação aplicáveis. As restrições tecnológicas, por sua vez, começaram a ser estabelecidas durante a administração de Joe Biden e foram formalizadas em janeiro de 2025.
Segundo o Departamento de Comércio americano, as proibições relacionadas a softwares de conectividade e direção automatizada entram em vigor para veículos do ano-modelo 2027. Já determinadas restrições sobre equipamentos físicos passam a valer para o ano-modelo 2030.
A regulamentação também alcança fabricantes controlados por empresas chinesas ou russas, mesmo quando os veículos são produzidos dentro dos Estados Unidos. O projeto defendido pelas montadoras pretende dar caráter legislativo permanente a essas barreiras, abrangendo a comercialização, a importação e a fabricação de veículos conectados associados à China.
Avanço chinês na Europa preocupa fabricantes A pressão da indústria americana também reflete a rápida expansão das marcas chinesas em mercados internacionais.
Segundo dados apresentados pela Alliance for Automotive Innovation, a União Europeia recebeu mais de 1,1 milhão de veículos produzidos na China entre janeiro e agosto de 2026. O volume já supera o total registrado durante todo o ano anterior.
Para as fabricantes tradicionais, a experiência europeia demonstra a capacidade das empresas chinesas de conquistar participação de mercado em pouco tempo, especialmente com automóveis elétricos e híbridos. A indústria chinesa reúne vantagens importantes, como produção em grande escala, integração com fornecedores de baterias e domínio de etapas relevantes da cadeia de veículos eletrificados.
A expansão também tem levado governos a discutir o equilíbrio entre preços mais baixos para consumidores, preservação de empregos industriais e dependência de tecnologias estrangeiras. Bozzella defende que Washington impeça a repetição desse movimento nos Estados Unidos.
Segundo ele, a concorrência chinesa poderia comprometer investimentos realizados ao longo de décadas na indústria automobilística americana. A associação representa empresas como BMW, Ford, General Motors, Honda, Hyundai, Mercedes-Benz, Nissan, Stellantis, Toyota e Volkswagen, além de fabricantes de componentes e fornecedores de tecnologia.
Trump admite fábricas chinesas em território americano A discussão ganhou um elemento adicional com declarações do presidente Donald Trump.
Em setembro, o republicano afirmou que aceitaria a instalação de fábricas de automóveis chineses nos Estados Unidos, desde que as empresas produzissem localmente. A posição contrasta com a defesa de uma proibição abrangente feita pela associação das montadoras, que pretende restringir não apenas as importações, mas também a fabricação de veículos chineses no país.
A divergência envolve duas estratégias industriais distintas. A instalação de fábricas estrangeiras poderia gerar empregos e investimentos em território americano.
Por outro lado, fabricantes já estabelecidos argumentam que isso permitiria a entrada de novos concorrentes em um mercado no qual realizaram investimentos de longo prazo. As regras sobre carros conectados acrescentam outra dificuldade.
Produzir um automóvel nos Estados Unidos não elimina automaticamente as restrições relacionadas à origem dos softwares, dos componentes e ao controle societário do fabricante. Projeto tem apoio dos dois partidos, mas enfrenta prazo apertado
A proposta de proibição avançou no Congresso americano em julho, quando recebeu aprovação de uma comissão do Senado. Na Câmara dos Representantes, uma versão semelhante reúne mais de 100 parlamentares como coautores.
O apoio inclui integrantes dos partidos Republicano e Democrata, sinalizando que a preocupação com a indústria automobilística chinesa ultrapassa as divisões partidárias tradicionais. Apesar disso, a aprovação definitiva ainda é incerta.
Em setembro, os senadores responsáveis pela iniciativa concordaram em adiar para novembro uma tentativa de acelerar sua tramitação. A intenção é aproveitar o período legislativo posterior às eleições de meio de mandato, realizadas nesta terça-feira (3), para concluir a votação antes do encerramento dos trabalhos em dezembro.
O calendário é um obstáculo. Caso a composição política do Congresso mude, as negociações sobre prioridades legislativas poderão dificultar a conclusão do processo ainda em 2026.
China contesta restrições e defende concorrência O governo chinês rejeita as acusações de que suas fabricantes representem uma ameaça generalizada à segurança americana.
Em manifestações anteriores, o Ministério das Relações Exteriores da China classificou medidas contra empresas do país como formas injustificadas de repressão econômica e pediu que Washington respeite as regras de mercado e os princípios da concorrência. A disputa evidencia o caráter estratégico adquirido pela indústria automobilística.
Além de representar um setor importante para o emprego e a produção industrial, os veículos modernos incorporam sistemas digitais, semicondutores, baterias e tecnologias de comunicação. Para os Estados Unidos, o debate envolve tanto a proteção da cadeia industrial quanto o controle de tecnologias e informações consideradas sensíveis.
A eventual aprovação da lei consolidaria uma das barreiras mais abrangentes impostas pelos americanos à indústria automobilística chinesa. Também representaria um novo capítulo na disputa entre as duas maiores economias do mundo pelo domínio das tecnologias de transporte.
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