Os títulos prefixados do Tesouro Direto registraram em 26 de outubro de 2026 a maior alta diária de taxas de toda a série histórica do programa, iniciada em dezembro de 2004. O movimento ocorreu no primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e superou o salto registrado em 12 de março de 2020, mesmo diante de intervenções bilionárias do Tesouro Nacional.
Com o mercado pressionado pelo resultado das urnas de domingo (25), quando Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) por uma margem aproximada de 4,4 milhões de votos, a plataforma de investimentos teve as negociações de papéis prefixados e atrelados à inflação paralisadas pela manhã.
O sistema liberou inicialmente apenas o Tesouro Selic e o Tesouro Reserva, abrindo todas as opções às 12h13 (horário de Brasília), com quase três horas de atraso. Acompanhe: Itaú Unibanco compra a totalidade das ações da startup brasileira de IA NeoSpace por R$ 2,925 bilhões
A aversão a risco também paralisou a bolsa de valores brasileira, a B3, que acionou o mecanismo de interrupção automática de negociações (circuit breaker) por 30 minutos pela primeira vez desde março de 2020. O índice Ibovespa chegou a recuar cerca de 17%, caindo para a faixa dos 170 mil pontos, enquanto o dólar comercial atingiu a máxima de R$ 5,6047 pela manhã.
Nos contratos de juros futuros (DI), a taxa para janeiro de 2031 abriu a 14,460% e bateu 15,940% na máxima da sessão, enquanto o vencimento de janeiro de 2029 atingiu 15,850% e o de janeiro de 2027 chegou a 14,020%. Todos os títulos prefixados disponíveis para compra ultrapassaram o recorde anterior de 206 pontos-base de alta em um único dia, anotado no início da pandemia de Covid-19.
Na reabertura das operações às 12h13 desta segunda-feira (26), os papéis apresentaram os seguintes números em comparação ao fechamento de sexta-feira (23): Para conter a pressão vendedora e dar liquidez ao mercado antes mesmo da abertura completa da plataforma para pessoas físicas, o Tesouro Nacional cancelou os leilões tradicionais de títulos atrelados à inflação (NTN-B), que ocorreriam na terça-feira (27), e de papéis prefixados (LTN e NTN-F), previstos para quinta-feira (29).
O órgão manteve na agenda de terça-feira (27) apenas a oferta regular de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), títulos pós-fixados cuja rentabilidade acompanha a taxa básica de juros (Selic), além da liquidação financeira das recompras. Paralelamente aos cancelamentos, a instituição realizou um leilão extraordinário de recompra de títulos prefixados (NTN-F) entre 11h15 e 11h45 desta segunda-feira (26), repetindo uma estratégia adotada em março de 2026 durante a turbulência provocada pela guerra do Irã.
O órgão ofertou recomprar até 15 milhões de papéis — sendo 5 milhões para cada um dos vencimentos em 2031, 2033 e 2037, com teto financeiro de R$ 15 bilhões — e adquiriu efetivamente R$ 7,1 bilhões, divididos em 5 milhões de títulos de cinco anos, 2,4 milhões de sete anos e 1 milhão de dez anos.
Continue lendo: O que é circuit breaker? Entenda o mecanismo que suspende negociações Diante da persistência do estresse nas cotações, o Tesouro Nacional anunciou para a tarde desta segunda-feira (26), das 15h30 às 16h, uma segunda operação extraordinária de recompra, com divulgação de resultado a partir das 16h15.
A nova intervenção mira os títulos atrelados à inflação (NTN-B), com oferta de aquisição de até 1 milhão de papéis para cada vencimento em agosto de 2030, maio de 2035 e agosto de 2050, somando até 3 milhões de títulos e um teto estimado em cerca de R$ 14,3 bilhões. “O Tesouro Nacional continuará monitorando as condições de mercado e atuará de forma a assegurar o bom funcionamento do mercado de títulos públicos e de outros ativos relacionados”, informou o Tesouro Nacional, em comunicado oficial.
No mercado de renda fixa, a elevação das taxas de juros provoca a queda imediata no valor de face dos papéis que já estão em circulação, mecanismo conhecido como marcação a mercado. Na comparação com o fechamento de sexta-feira (23), o preço unitário do Tesouro IPCA+ 2050 despencou 23,6%, o do Tesouro Prefixado 2032 recuou 12,2% e o do Tesouro IPCA+ 2032 perdeu 7,1%.
Essa desvalorização, contudo, só gera prejuízo financeiro efetivo para o investidor que optar por vender o título antecipadamente; quem mantém a aplicação até a data final de vencimento recebe exatamente a rentabilidade contratada no momento da compra. O salto registrado nesta segunda-feira (26) anulou todo o alívio observado nos juros após o primeiro turno das eleições, período em que os agentes financeiros passaram a precificar uma vitória de Flávio Bolsonaro.
Na abertura de 2 de outubro de 2026, último pregão antes do primeiro turno, o Tesouro Prefixado 2032 pagava 14,15% ao ano (1,63 ponto percentual abaixo da taxa atual) e o Tesouro IPCA+ 2050 rendia IPCA + 7,06% ao ano (0,58 ponto menor que o patamar desta segunda-feira); pelo preço de compra, os dois papéis valem agora 6,3% e 11,3% menos do que naquela data, respectivamente.
Antes da votação de domingo (25), gestores já previam descolamento nas curvas de juros em caso de continuidade do governo, mas a intensidade superou parte das estimativas preliminares. O diretor-executivo (CEO) e diretor de investimentos (CIO) da Armor Capital, Alfredo Menezes, projetava avanço de ao menos 1 ponto percentual nas taxas longas se Lula fosse reeleito, enquanto o economista da Corano Capital, Bruno Corano, estimava o retorno dos juros futuros longos para a faixa de 14% a 15% ao ano.
Para o chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, Gabriel Magno, a reação supera a registrada após o pleito de 2022 porque, naquela ocasião, parte do mercado esperava ajustes nas contas públicas que não se confirmaram nos anos seguintes, levando agora à saída de capital estrangeiro.
“A pancada principal é no juro futuro porque os investidores olham para o Brasil e não confiam”, afirmou Magno. Diante do aumento do risco doméstico, os estrategistas da Genial Investimentos, Roberto Motta, Filipe Villegas e Thainá Rambaldo, recomendam uma carteira defensiva composta por 40% em títulos pós-fixados atrelados à Selic, 15% em papéis IPCA+ de prazos curtos e 10% em prefixados curtos.
Na avaliação da equipe, o título indexado à inflação de vencimento menor “protege o poder de compra sem carregar o prêmio fiscal, que tende a abrir a ponta longa”. A atenção dos investidores volta-se agora para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, marcada para quarta-feira, 4 de novembro de 2026.
Com a desancoragem das expectativas de inflação, a equipe macroeconômica do ASA projeta apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic atualmente em 13,75% ao ano, encerrando 2026 em 13,5% ao ano, com retomada das reduções somente entre o segundo e o terceiro trimestres de 2027 para levar o juro básico a 13% no fim daquele ano.
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