‘Mercado’ faz terror econômico depois de apostar alto na derrota de Lula 

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

Investidores compraram muito na expectativa de vender mais caro com uma vitória de Flávio Bolsonaro O mercado financeiro brasileiro abriu a semana refazendo suas contas após a reeleição de Lula.

O Ibovespa abriu em queda e, três minutos depois, acionou o circuit breaker, mecanismo que não era disparado desde a pandemia, em março de 2020. O dólar disparou para 5,42 reais, reflexo das apostas ruins que os investidores fizeram na sexta-feira 23, convictos da vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno.

O culpado seria Lula, claro, porque não terá uma “agenda pró-mercado”, como gostam de dizer os analistas.  O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira 26 reportou as projeções coletadas antes da eleição: o mercado projetava a taxa Selic de 11,75% e PIB de 1,31% em 2027.

Após a reeleição de Lula, gestoras e consultorias já falam em juros de até 13% e crescimento perto de 1% caso o governo não apresente ajuste nas contas públicas. Desde o primeiro turno, em 5 de outubro, o Ibovespa saltou 7,7% em um dia, a 206.911 pontos, e o dólar recuou 4,1%, a 5 reais, com pesquisas do segundo turno indicando vantagem de Flávio.

Na sexta-feira 23, a moeda fechou a 4,99 reais. Antes de aceitar as novas contas, vale conferir como o relatório que serve de régua para as revisões se saiu nos quatro anos do atual governo.

O relatório Focus nada mais é do que a mediana das projeções dos economistas que operam no mercado. O primeiro Focus de 2023, divulgado em 2 de janeiro, estimava PIB de 0,80% ao final daquele ano.

O IBGE apurou 2,9% no ano, 3,6 vezes a projeção. Em 2024, o relatório de 2 de janeiro apontava 1,52%, e a economia cresceu 3,4%.

Já em 2025, a estimativa inicial de 2,02% ficou abaixo dos 2,3% medidos pelo IBGE. Nos três anos fechados, portanto, a projeção de abertura subestimou o crescimento.

Em seguida, na inflação, o Focus de abertura de 2023 previa IPCA de 5,31%, e o índice fechou em 4,62%. Em 2024, a projeção de 3,90% encontrou um IPCA de 4,83%.

Em 2025, os 4,99% esperados viraram 4,26%. Já na Selic, o relatório de janeiro de 2024 trazia 9% para dezembro, e a taxa terminou o ano em 12,25%.

Em 2023, a projeção de 12,25% acabou em 11,75%. Em 2025, a previsão de 15% se confirmou.

Por fim, no dólar, a estimativa inicial foi de 5,27 reais para 2023, com fechamento a 4,85, de 5 reais para 2024, com fechamento a 6,18, e de 6 reais para 2025, com fechamento perto de 5,50. Ao todo, das 12 projeções de abertura em IPCA, PIB, Selic e dólar nos três anos, só a Selic de 2025 coincidiu com o resultado.

O Focus de 5 de janeiro de 2026 previa IPCA de 4,06%, PIB de 1,8%, Selic de 12,25% e dólar de 5,50 reais para dezembro. A edição de 19 de outubro projeta IPCA de 5,22%, PIB de 1,83%, Selic de 13,25% e dólar de 5,13 reais.

Enquanto isso, a Selic em vigor está em 13,75%, o IPCA acumula 4,58% em 12 meses até setembro e o dólar fechou a sexta-feira 23 a 4,99 reais. O PIB, de 1,8% na projeção de janeiro, acumula 1,9% em quatro trimestres até junho.

Investidores compraram muito, e a preços altos, na expectativa de vender mais caro com uma vitória de Flávio Bolsonaro. O Magazine Luiza chegou à sexta-feira 23 com alta de 66,3% em outubro, e o Ibovespa havia saltado 7,7% em um dia depois do primeiro turno.

Com a derrota, vieram as ordens de venda. Os investidores correram para desfazer de uma vez o que haviam comprado, já na abertura, para limitar as perdas.

Ainda assim, o Ibovespa chegou a cair 17,16%, aos 169.894 pontos, e algumas ações perderam mais da metade do valor de mercado. Às 11h33, a Vamos recuava 57,10% e o Magazine Luiza, 50,75%.

Magazine Luiza, Cyrela e Vamos estão entre as maiores perdas do dia. Elas caem porque foram alvo de especulação, e a queda não altera a capacidade das empresas de gerar resultados.

Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, afirma que uma queda de 10% do Ibovespa não significa que as empresas perderam 10% da capacidade de gerar resultados. Significa que os investidores passaram a aceitar preços menores diante dos riscos percebidos.

O mercado que hoje projeta Selic de até 13% e PIB perto de 1% é o mesmo que errou 11 das 12 projeções de abertura dos últimos três anos e que, até sexta-feira, comprava ações contando com a vitória de Flávio Bolsonaro. Os números de segunda-feira medem o tamanho dessa aposta.

Allan Ravagnani Jornalista com especializações em Finanças, Macroeconomia e Ciência Política. Nas últimas duas décadas trabalhou em veículos como Valor Econômico, Istoé Dinheiro e Folha de S.Paulo.

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