Análise: Mercado misturou lógica e paixão ao apostar tudo em Flávio

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Fonte da notícia: Valor Valor

O banho de sangue nos mercados nesta segunda-feira pós-eleições é revelador de como uma parcela significativa dos investidores deixou a paixão política turvar a lógica. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi dado como cachorro morto cedo demais, dado o desempenho avassalador da direita e de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno.

Ninguém se preparou para uma reviravolta. Acontece que as pesquisas de intenção de voto mostravam sistematicamente um empate técnico entre os dois candidatos, ainda que Flávio aparecesse numericamente à frente, e esse cenário foi ignorado.

É verdade que as pesquisas, nos últimos anos, têm subestimado os votos na direita, o que justificava a interpretação de que o senador estivesse em vantagem ainda maior. Mas também há que se entender que pesquisa é intervalo, não número estático.

Quem lida com o dinheiro dos outros não deveria perder isso de vista. Flávio era o candidato preferido do mercado porque fez o básico: acenou com o tão aguardado e necessário ajuste fiscal.

Embora nunca tenha explicado com clareza as medidas que adotaria para conter a trajetória explosiva da dívida pública, ancorou de certa forma as expectativas ao atrair nomes respeitados como possíveis integrantes de sua equipe econômica. Enquanto isso, Lula dobrava a aposta no anúncio de medidas eleitoreiras que, fatalmente, pioram a perspectiva das contas públicas para os próximos anos.

Como tais iniciativas não se reverteram em um salto do petista nas pesquisas, a vitória de Flávio parecia contratada. É nesse ponto que razão e torcida se misturaram, com consequências visíveis no pregão desta segunda-feira.

Seria um dia negativo de qualquer forma, mas talvez não precisasse ser nessa magnitude. Bancos e gestoras de recursos mergulharam de cabeça — e aparentemente sem hedge.

Na Faria Lima, a disputa de dinheiro e egos era para ver quem tinha acesso aos melhores trackings e modelos matemáticos, que por sua vez mostravam Flávio com uma vantagem quase irreversível. Nos últimos dias antes do segundo turno, até houve algum aumento de cautela, mas nada que abalasse a percepção de “já ganhou” em relação ao candidato do PL.

Porém, a esquerda conseguiu uma surpreendente mobilização nas ruas e nas redes sociais que parece ter sido subestimada nos modelos usados pelos investidores. O que o mercado parece não ter enxergado é que Lula conseguiu atrair para sua órbita eleitores não petistas, parte deles até de direita, mas que também não toleram o bolsonarismo.

Era natural que, diante da falta de compromisso de Lula com a pauta fiscal, os investidores abraçassem um candidato que parecia mais propenso a enfrentar essa questão. Menos compreensível é que tenham desprezado completamente as chances de vitória de alguém que tinha a máquina a seu favor e três eleições no currículo — de outra forma, o movimento dos ativos poderia ter sido suavizado.

Agora, resta ao mercado se ajustar à nova realidade, que por enquanto não traz nenhum sinal promissor do ponto de vista econômico. E cabe ao governo reeleito ouvir o que o setor financeiro está tentando dizer — anunciar um ministro da Fazenda comprometido com um ajuste fiscal seria um bom começo.

A Faria Lima não tem votos suficientes para eleger ninguém, mas um ambiente prolongado de câmbio depreciado, juros em disparada e bolsa despencando piora a vida das pessoas e das empresas num momento em que a sensação de mal-estar já é grande.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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