Mais de 2 trilhões de dólares em valor de mercado desapareceram das empresas que compõem o Nasdaq-100 ao longo de outubro, em uma onda de vendas que atravessou o Pacífico e atingiu algumas das maiores fabricantes de semicondutores do planeta. Depois de anos de euforia com a inteligência artificial, investidores começaram a questionar se os investimentos bilionários em chips, centros de dados e infraestrutura digital serão capazes de produzir os retornos prometidos pelas gigantes da tecnologia.
O movimento ganhou força na última semana de outubro, depois que balanços de Alphabet, Amazon e Intel ampliaram as preocupações com o consumo de caixa das companhias. A controladora do Google perdeu cerca de 500 bilhões de dólares em valor de mercado em uma única sessão, enquanto a Intel despencou 28,6% na sexta-feira, 30.
Nvidia e AMD recuaram 4,2% e 10,9%, respectivamente. Naquele pregão, o índice Nasdaq Composite caiu 2,86%, encerrando o pior dia desde junho.
A liquidação não ficou restrita a Wall Street. Na sexta-feira, o Kospi, principal índice da Coreia do Sul, recuou 4,5%, enquanto a bolsa de Taiwan perdeu 2,5%.
No Japão, o Nikkei chegou a cair 3% durante as negociações e encerrou o dia com baixa de 2,1%. Empresas diretamente ligadas à cadeia global de semicondutores, como Samsung Electronics, SK Hynix, Advantest e Tokyo Electron, estiveram entre as mais pressionadas.
A crise das expectativas americanas atingiu, assim, fornecedores asiáticos que dependem da expansão dos investimentos em inteligência artificial. Continua após a publicidade
Por trás da queda está uma conta cada vez mais difícil de fechar. O JPMorgan estima que os investimentos globais em infraestrutura de inteligência artificial alcancem 900 bilhões de dólares em 2026 e 5,5 trilhões de dólares até 2030.
Já o Morgan Stanley projeta que os desembolsos ultrapassem 1 trilhão de dólares em 2027. Embora as receitas de nuvem e publicidade continuem crescendo, os investidores demonstram preocupação com o ritmo de monetização dessas despesas, o aumento do endividamento e a possibilidade de que os retornos demorem mais do que o previsto.
Continua após a publicidade Mas ainda não há consenso de que o movimento represente o estouro definitivo de uma bolha.
Nesta segunda-feira, 2, o Kospi recuperou 2,24%, impulsionado por uma alta de 3,81% da SK Hynix e de 1,78% da Samsung Electronics. O Deutsche Bank também mudou sua avaliação sobre as ações americanas de tecnologia e passou a recomendar maior exposição ao setor, apenas três semanas depois de reduzir sua recomendação.
Para o banco, a correção já incorporou parte importante dos riscos associados à inteligência artificial e criou oportunidades de compra. Continua após a publicidade
A cautela, porém, permanece. Uma análise da Reuters mostra que o setor de tecnologia do S&P 500 caiu 6,8% em outubro, enquanto nove dos onze grandes setores do índice terminaram o mês em alta.
Isso indica que, até agora, o movimento se parece mais com uma retirada concentrada de recursos das ações de tecnologia do que com uma fuga generalizada das bolsas. O risco é que uma nova rodada de perdas comprometa essa resistência e arraste o restante do mercado.
Continua após a publicidade A questão decisiva deixa de ser apenas quanto as empresas pretendem investir em inteligência artificial e passa a ser quanto dinheiro conseguirão ganhar com esses desembolsos.
Se os próximos balanços mostrarem crescimento suficiente para justificar os investimentos, a correção poderá perder força. Se confirmarem que os custos continuam avançando muito mais rapidamente do que os retornos, o mercado ainda poderá descobrir que os 2 trilhões de dólares perdidos foram apenas a primeira parcela da conta.
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