Lara Resende diz que polêmica sobre juros ‘foi plantada para queimar alguém que defendeu mudança na política fiscal e monetária’

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O economista André Lara Resende negou ter conversado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre sua proposta de reformulação da política monetária brasileira e afirmou que informações sobre um possível encontro entre os dois foram plantadas para prejudicar alguém que apoiou suas ideias dentro do governo.

Um dos formuladores do Plano Real, ele avalia que a repercussão de seu projeto foi utilizada em uma disputa política interna da qual acabou participando involuntariamente. Em entrevista à BBC News Brasil, Lara Resende afirmou que não mantém contato com Lula, não tem reuniões agendadas com o presidente e tampouco pretende integrar o governo.

O economista relacionou a circulação dessas informações à controvérsia provocada por sua proposta de criação de um conselho responsável pela coordenação das políticas fiscal e monetária. “Eu não falei com o presidente Lula, não tenho nem tive contato com ele, assim como não tenho nada marcado [para apresentar a ideia a ele].

Essa notícia foi plantada obviamente para queimar a proposta ou [prejudicar] alguém que não eu, porque todo mundo sabe que eu não quero ir para o governo — incluindo o próprio Lula”, declarou. Na avaliação do economista, a divulgação das informações teria como objetivo atingir integrantes do governo favoráveis à discussão de mudanças na condução da política econômica.

“Estão queimando alguém que defendeu essa proposta, uma briga interna dentro do governo na qual eu entrei como Judas no Pai Nosso.” Lara Resende não identificou quem teria divulgado a informação nem apontou nominalmente o suposto alvo da disputa.

Suas declarações ocorreram depois que a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) compartilhou, em 28 de outubro, um artigo do economista publicado originalmente em setembro, classificando-o como “fundamental para enfrentar a ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”. A manifestação de Gleisi ampliou a repercussão do texto e provocou reações de representantes do mercado financeiro e da oposição, que passaram a questionar os efeitos de uma eventual mudança na política de juros e suas consequências para a autonomia do Banco Central.

Economista critica juros altos e denuncia “bolsa-rentista” Além de negar qualquer articulação com Lula, Lara Resende fez duras críticas ao atual modelo de política monetária.

Para ele, o principal fator de desequilíbrio das contas públicas brasileiras não é o volume de despesas primárias do governo, mas o custo dos juros incidentes sobre a dívida pública. O economista sustenta que a taxa básica de juros brasileira permanece em patamares excepcionalmente elevados, ampliando o endividamento e favorecendo os detentores de títulos públicos.

“Na verdade, o gasto absurdo que desequilibra as contas públicas no país é o ‘bolsa-rentista’: juros da dívida pública pagos aos detentores da dívida que são também a parcela mais rica da população. Juros altos é um fator concentrador de renda e riqueza.”

A crítica ocorre em um momento no qual o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de reduções iniciado quando a taxa estava em 15%. Segundo Lara Resende, a persistência de juros elevados não pode ser explicada exclusivamente pela necessidade de controlar a inflação ou pelo comportamento das despesas governamentais.

“Mas a dívida subiu não porque o governo gasta muito, e sim porque o serviço da dívida, isto é, os juros altos, a fez crescer.” O economista reconhece, entretanto, problemas na qualidade do gasto público e na estrutura tributária brasileira.

Ele considera que o governo administra mal parte de seus recursos e que a tributação é excessivamente complexa e distorcida, mas rejeita a interpretação de que esses fatores sejam os principais responsáveis pelo crescimento da dívida. Para Lara Resende, o déficit primário brasileiro é relativamente pequeno na comparação internacional, enquanto o custo de financiamento do Estado permanece muito superior ao observado em outras economias.

Ao comentar os interesses envolvidos na manutenção desse quadro, ele afirmou que a pressão dos beneficiários dos juros elevados é apenas parte da explicação. “Dá para dizer que os juros são altos também por uma pressão dos que se beneficiam deles.

Mas vai além de interesses diretos: envolve ignorância, dogmatismo e mau entendimento de macroeconomia, de política monetária e financeira. É uma combinação de interesses específicos e ignorância.”

Proposta prevê novo conselho para coordenar políticas econômicas O projeto apresentado por Lara Resende consiste na criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), instituição que teria a responsabilidade de estabelecer diretrizes de longo prazo para as políticas fiscal e monetária.

O órgão, que dependeria de aprovação do Congresso Nacional, funcionaria como instância de coordenação entre o Banco Central e as áreas econômicas do governo, sem substituir o Copom. Segundo o economista, o conselho poderia reunir o presidente do Banco Central, o ministro da Fazenda, o secretário do Tesouro Nacional e outros especialistas, com a missão de formular objetivos macroeconômicos para períodos superiores a cinco anos.

Lara Resende rejeitou a interpretação de que sua proposta represente uma tentativa de impor artificialmente a redução da Selic ou eliminar a autonomia operacional do Banco Central. “Minha proposta não é, com certeza, sobre tabelamento dos juros.

Eu tenho uma longa tradição de ser contra tabelamentos de qualquer tipo.” Ele explicou que a instituição monetária continuaria responsável pela execução das políticas, mas passaria a atuar em consonância com diretrizes mais amplas, formuladas pelo novo conselho.

“O Banco Central continuaria a funcionar exatamente como hoje. Haveria um órgão coordenador, um conselho com políticas de longo prazo que dialogaria com o BC, mas o banco manteria a autonomia para implementar as diretrizes de longo prazo monetário e fiscal que esse conselho fixaria.”

A proposta prevê ainda mecanismos de prestação de contas. Caso as políticas implementadas se afastassem das diretrizes estabelecidas, os órgãos responsáveis deveriam apresentar justificativas públicas.

Redução da Selic para 7,5% não seria uma imposição Um dos pontos mais contestados do artigo original foi a possibilidade de reduzir gradualmente a taxa básica de juros para aproximadamente 7,5% ao ano, em um período de cerca de 12 meses.

Lara Resende esclareceu que esses parâmetros não constituem uma determinação rígida, mas uma referência para demonstrar como poderia ocorrer a transição para um regime de juros mais baixos. “Os 12 meses e a taxa a 7,5% são meramente indicativos.

A trajetória e o ritmo [da taxa básica de juros] devem ser avaliados ao longo da implantação da proposta de acordo com a evolução das circunstâncias.” O economista argumenta que a redução dos juros deve ser acompanhada por mecanismos capazes de coordenar as expectativas dos agentes econômicos, evitando movimentos abruptos no câmbio e pressões inflacionárias.

Ele admite a possibilidade teórica de uma elevação temporária da inflação durante a transição, especialmente se houver desvalorização cambial, mas considera que as condições externas brasileiras reduzem esse risco. Entre os fatores mencionados estão o volume de reservas internacionais, estimado por ele em US$ 370 bilhões, a ausência de um problema relevante de endividamento externo e a situação favorável da balança comercial.

Lara Resende também defendeu a manutenção da meta de inflação, afastando a hipótese de flexibilizá-la como instrumento para facilitar a redução dos juros. “Eu sou o mais radical anti-inflação.

Sou contra aumentar ou flexibilizar a meta [de inflação], porque ela é coisa muito séria”, afirmou. Lara Resende rebate críticas do mercado e de economistas

A proposta recebeu críticas de representantes do setor financeiro, de integrantes da oposição e também de economistas identificados com posições mais à esquerda. Entre os questionamentos estão o risco de fuga de capitais, a desvalorização do real e a possibilidade de aumento da inflação, com consequências para o poder de compra dos trabalhadores.

O economista americano John Cochrane, pesquisador da Universidade Stanford, considerou a proposta sofisticada, mas manifestou dúvidas sobre sua aplicação prática e a ausência de precedentes históricos bem-sucedidos. Lara Resende respondeu recorrendo à experiência do Plano Real, particularmente à criação da Unidade Real de Valor (URV), mecanismo utilizado na transição para a nova moeda brasileira em 1994.

Segundo ele, a inexistência de experiências anteriores não constitui, por si só, argumento suficiente para descartar uma inovação institucional. “Existe uma garantia de que a minha proposta daria certo? Não.

Mas, bem entendida e bem implementada, ela é um avanço institucional com uma alta probabilidade de dar certo.” O economista também rejeitou comparações com a experiência da Turquia sob Recep Tayyip Erdogan, onde reduções de juros determinadas politicamente foram associadas a graves desequilíbrios econômicos.

Para Lara Resende, sua proposta se diferencia justamente por exigir planejamento, credibilidade institucional e coordenação entre as autoridades responsáveis pela política econômica, em vez de decisões voluntaristas. Críticas à política econômica do governo Dilma

Durante a entrevista, Lara Resende também revisitou a experiência de redução dos juros durante o primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, entre 2011 e 2013. Ele contestou a interpretação de que o então presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, teria reduzido a Selic por imposição da presidente.

Na sua avaliação, havia condições econômicas favoráveis para uma diminuição dos juros após a crise financeira internacional de 2008. O problema, segundo o economista, foi a condução da política fiscal pelo Ministério da Fazenda, então comandado por Guido Mantega.

“O Tombini fez a coisa certa. A Fazenda, o errado.

Mais um caso exemplar da necessidade de coordenação da política monetária e fiscal — a essência do que estou propondo hoje.” Lara Resende afirmou que o governo deveria ter aproveitado aquele período para manter maior contenção fiscal enquanto promovia a redução dos juros.

A experiência, segundo ele, reforça a necessidade de evitar que as políticas monetária e fiscal atuem em direções contraditórias. Economista alerta para riscos da dívida e cobra credibilidade

Ao analisar as perspectivas econômicas brasileiras, Lara Resende advertiu que a manutenção de juros elevados pode tornar cada vez mais difícil estabilizar a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto. Ele também alertou para riscos associados ao crescimento do endividamento e à expansão dos ativos financeiros em escala mundial.

“A sustentabilidade disso depende muito de quantas pessoas querem acreditar que a bolha não vai estourar, mas, como toda bolha financeira, ela estoura de surpresa, e daí vem um crash.” Apesar das críticas ao modelo atual, o economista reconheceu que uma mudança institucional exigiria condições políticas e econômicas favoráveis, especialmente maior credibilidade na condução das contas públicas.

Ele afirmou que a apresentação de um programa consistente de consolidação fiscal pelo governo facilitaria a implementação de sua proposta e reduziria a resistência dos agentes econômicos. “Facilitaria muito se o governo apresentasse um projeto coerente, objetivo e crível de consolidação fiscal.”

Lara Resende também admitiu que o atual momento pode não ser o mais adequado para implementar imediatamente as mudanças, embora continue defendendo a necessidade de discutir alternativas ao modelo vigente. Ao final, o economista voltou a sustentar que as circunstâncias que justificaram juros excepcionalmente elevados durante a implantação do Plano Real já não correspondem à realidade econômica brasileira.

“Naquele momento, a taxa básica de juros já deveria ter sido trazida para níveis razoáveis a nível internacional. Se não foi feito ali, está na hora de fazer esse ajuste agora.”

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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