O Teatro Amazonas já era nosso muito antes de ser reconhecido pelo mundo. Nosso pela história que guarda, pela imponência de sua arquitetura, pela beleza de sua cúpula e pelo lugar que ocupa na memória afetiva dos amazonenses.
Agora, esse patrimônio erguido no coração de Manaus ultrapassa simbolicamente as fronteiras do Brasil e passa a integrar oficialmente a lista dos bens culturais de valor universal excepcional reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Inaugurado em 1896, durante o ciclo da borracha, o Teatro Amazonas é uma das mais expressivas manifestações arquitetônicas de um período que transformou Manaus em referência de riqueza e sofisticação na Amazônia. Seus salões, pinturas, ornamentos e a célebre cúpula colorida testemunham não apenas a prosperidade econômica daquele tempo, mas também a capacidade da região de produzir, preservar e projetar cultura.
Às vésperas de completar 130 anos, o monumento ganha uma dimensão ainda maior: a de patrimônio da humanidade. O reconhecimento, compartilhado com o Theatro da Paz, em Belém, contempla também o Largo de São Sebastião, em Manaus, e a Praça da República, na capital paraense.
Juntos, os dois conjuntos arquitetônicos representam uma parte fundamental da formação histórica e social da Amazônia. A conquista, aprovada pela Unesco em julho deste ano, foi celebrada oficialmente nesta terça-feira (3), durante solenidade no Teatro Amazonas, com a entrega do certificado internacional.
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Roberto Cidade anuncia reforma integral do teatro O governador Roberto Cidade recebeu o certificado das mãos da representante da Unesco no Brasil, Marlova Noleto, e destacou que a conquista pertence à população amazonense, independentemente de quem esteja à frente do governo.
“Esse título não é para quem está governando, esse título representa o povo do nosso Estado”, afirmou Cidade, ao classificar a solenidade como um momento histórico para o Amazonas. O governador aproveitou a cerimônia para anunciar que pretende autorizar, antes do encerramento de seu mandato, uma reforma integral do Teatro Amazonas, intervenção que, segundo ele, não ocorre desde a década de 1990.
Cidade também fez uma defesa do financiamento cultural por meio da Lei Rouanet e cobrou maior participação das empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus no apoio aos artistas e produtores culturais amazonenses. Segundo o governador, parte dos recursos de incentivo fiscal utilizados por empresas com unidades no Amazonas acaba financiando projetos em outras regiões do país, enquanto a produção cultural local recebe uma parcela insuficiente desses investimentos.
A cobrança ganha relevância diante do novo reconhecimento internacional: preservar o Teatro Amazonas e fortalecer a cultura regional exigirá não apenas prestígio, mas também financiamento, planejamento e participação do setor privado. Leia mais
Teatro Amazonas agora é patrimônio mundial da Unesco Renato Júnior destaca turismo, geração de renda e captação de recursos
O prefeito de Manaus, Renato Júnior, também participou da celebração, destacando as oportunidades que o reconhecimento internacional abre para a capital amazonense, especialmente no turismo, na geração de renda e na preservação do patrimônio histórico. O novo status do Teatro Amazonas tende a ampliar sua visibilidade entre visitantes brasileiros e estrangeiros.
Segundo o prefeito, já no período do anúncio do reconhecimento houve aumento expressivo da procura pelo monumento, inclusive em uma segunda-feira, dia normalmente reservado à manutenção. Renato Júnior também chamou atenção para a possibilidade de ampliar os investimentos por meio de mecanismos de incentivo cultural, como a Lei Rouanet, além da captação de recursos de fundos internacionais.
O prefeito defendeu ainda o intercâmbio de conhecimentos entre profissionais do Teatro Amazonas, do Theatro da Paz e de instituições internacionais especializadas na conservação de patrimônios históricos. A perspectiva é transformar o reconhecimento da Unesco em resultados concretos para Manaus, com mais visitantes, oportunidades para trabalhadores da cultura, fortalecimento da economia criativa e recursos para a conservação do monumento.
Beatriz Calheiros, uma das principais articuladoras da conquista A cerimônia também representa a conclusão de uma importante etapa do trabalho conduzido pela historiadora Beatriz Calheiro de Abreu Evanovick, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Amazonas.
Desde que assumiu a superintendência, em abril de 2023, Beatriz colocou a candidatura dos teatros amazônicos entre as prioridades de sua atuação, articulando instituições federais, governos estaduais, prefeituras e especialistas em patrimônio cultural. A participação de Beatriz foi decisiva para impulsionar a candidatura conjunta de Manaus e Belém.
O processo envolveu a elaboração de estudos históricos, arquitetônicos e urbanísticos, a construção de um dossiê técnico e o acompanhamento das avaliações internacionais. Em dezembro de 2023, o Iphan promoveu em Manaus uma oficina técnica que reuniu representantes dos governos do Amazonas e do Pará, das prefeituras de Manaus e Belém e pesquisadores envolvidos na candidatura.
O trabalho resultou na apresentação formal do dossiê à Unesco, em janeiro de 2025. A superintendente também acompanhou pessoalmente a etapa decisiva da conquista.
Em julho deste ano, esteve em Busan, na Coreia do Sul, integrando a delegação brasileira durante a sessão do Comitê do Patrimônio Mundial que aprovou o reconhecimento. O BNC Amazonas acompanhou aquela votação e registrou a participação de Beatriz, que comemorou a decisão exibindo a bandeira brasileira.
A conquista teve um momento particularmente importante quando o Comitê decidiu reconhecer os dois teatros, apesar de uma recomendação técnica anterior do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos) favorável à inscrição apenas do conjunto de Manaus. Uma articulação diplomática durante a sessão, com destaque para a delegação do Líbano, permitiu que a candidatura conjunta fosse preservada.
Assim, os dois monumentos passaram a integrar a Lista do Patrimônio Mundial sob a denominação de Teatros da Amazônia. A atuação de Beatriz, portanto, integra uma construção coletiva que reuniu esforços técnicos, institucionais e diplomáticos ao longo de vários anos.
Seu protagonismo esteve na articulação regional e no acompanhamento da candidatura até o reconhecimento internacional. BNC Amazonas, o site de política!+2
Unesco reconhece uma Amazônia que também produz cultura A representante da Unesco no Brasil, Marlova Noleto, destacou que o título reconhece o valor universal excepcional dos dois conjuntos arquitetônicos.
“Esses conjuntos arquitetônicos trazem a beleza do ciclo da borracha, de uma época de glória para toda a Amazônia”, afirmou. Segundo Marlova, o reconhecimento significa que esses monumentos passam a ser considerados patrimônios de toda a humanidade, ampliando a responsabilidade pela preservação de suas características históricas e culturais.
O presidente nacional do Iphan, Deyvesson Gusmão, também destacou que os teatros ajudam a compreender a formação social da Amazônia e sua relação com os ciclos econômicos, especialmente o da borracha. A conquista reforça uma dimensão da região que nem sempre recebe a mesma atenção internacional dedicada à floresta: a Amazônia é também território de produção artística, arquitetura, memória e diversidade cultural.
O desafio agora é transformar o título em investimentos O reconhecimento internacional não representa, por si só, a transferência automática de recursos financeiros da Unesco para o Teatro Amazonas.
Entretanto, amplia as possibilidades de cooperação técnica, parcerias institucionais, captação de investimentos e desenvolvimento do turismo cultural. É nesse cenário que ganham importância tanto a reforma anunciada pelo governador Roberto Cidade quanto a defesa, feita pelo prefeito Renato Júnior, de mecanismos capazes de atrair recursos nacionais e internacionais.
A preservação do monumento também exige atenção permanente ao seu entorno, à manutenção das estruturas históricas e à continuidade das atividades artísticas que mantêm o teatro vivo. A noite de celebração contou com o espetáculo cênico-musical Sons do Amazonas, reunindo a AmazonasBand, o Balé Folclórico do Amazonas e intérpretes locais, além de uma Feira de Economia Criativa no Largo de São Sebastião.
Aos 130 anos que completará em dezembro, o Teatro Amazonas chega a uma nova etapa de sua história. Continua pertencendo aos amazonenses, que o construíram como símbolo de sua identidade cultural, mas agora carrega também o reconhecimento de seu valor para a humanidade.
O Teatro Amazonas é nosso. E agora, oficialmente, é do mundo.
Fotos: Divulgação/Clóvis Miranda/Secom
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