O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que aconselhou o senador Flávio Bolsonaro (PL) a permanecer no Brasil após sair derrotado da disputa à presidência da República, no último domingo (25). Por outro lado, o chefe do Palácio dos Bandeirantes disse ser “muito difícil julgar” a decisão do aliado de deixar o país após a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de apreender seu passaporte.
Três cartas e dez mentiras: das alegações de fraude à fuga, todas as inconsistências da mensagem golpista de Flávio Após carta golpista: Tarcísio diz 'entender indignação' de Flávio, mas cobra 'respeito ao resultado' e 'responsabilidade'
— O conselho que nós demos a ele, os advogados, eu, (Rogério) Marinho, as pessoas que estavam ali reunidas, foi que ficasse (no Brasil). Mas é o que eu falo: eu não julgo a decisão que foi tomada porque é muito duro passar… ele está com o pai preso aí há quanto tempo? — falou o governador em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, nesta quarta-feira (28).
Tarcísio se reuniu com Flávio e integrantes da campanha numa reunião na segunda-feira, um dia após o resultado das urnas. Na conversa, contou o governador, ele e outras pessoas orientaram que o senador falasse em pedir a cassação da chapa do presidente Lula (PT) e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) por abuso de poder político e econômico, em vez de questionar o resultado das urnas.
— Foi na reunião na casa dos advogados, quando a gente discutia, por exemplo, o próprio recado à nação, que foi a gravação daquele vídeo. Ali ele não fala mais que não vai reconhecer o resultado.
Isso não cabe. Fala, por exemplo, que vai pedir a cassação, porque a cassação da chapa é algo normal.
Você tem o remédio jurídico para isso. Se você entende, e eu entendo, que houve abuso de poder político e econômico, você tem uma forma de recorrer à justiça contra isso, que são as ações de investigação da justiça eleitoral.
Isso acontece rotineiramente. Esses foram os conselhos: usa esse remédio jurídico e não fala que vai sair – acrescentou Tarcísio na entrevista ao Estadão.
No fim da tarde de segunda, após a reunião, Flávio publicou um vídeo em suas redes sociais falando que iria por esse caminho, mas no dia seguinte ele deu início ao seu plano de fugir do Brasil rumo aos Estados Unidos, onde chegou na manhã da última quarta. A noite, ele divulgou uma carta na qual se autoproclamou “presidente eleito do Brasil” e, em seguida, mudou o teor do documento e disse que era o “líder” do país.
Tarcísio disse que não poderia “julgar” o senador pela decisão de fugir porque não sabe o que faria no lugar dele. — Foram lá pedir o passaporte dele.
Ora, o que tem de concreto hoje contra ele? Pode ser que amanhã apareça um monte de coisa, mas a gente não sabe. Hoje não tem nada.
E se não tem nada, por que pediram o passaporte? Houve uma intimidação. Uma pessoa que acabou de conquistar 60 milhões de votos, minutos depois da proclamação do resultado, já está sendo ali admoestado pela Polícia Federal, mas com que base? Essa é a pergunta.
Eu nunca vou ter a capacidade de julgar porque a gente tem que sempre se colocar no lugar dos outros — disse. Disputa à presidência
Com Flávio derrotado nas urnas e fora do país, Tarcísio é uma das lideranças da direita que podem sair fortalecidas, ainda que o senador tenha sinalizado que pretende “liderar a oposição” do exterior. Indagado se pretende concorrer à presidência da República em 2030, o governador admitiu que existe essa possibilidade caso faça um bom mandato.
— A gente tem que ver qual é o cenário de momento e, claro, vou estar terminando o segundo mandato aqui no Estado de São Paulo. Terminando bem o segundo mandato, obviamente abre uma possibilidade (de disputar a Presidência).
Mas isso é uma coisa que você avalia em grupo, não sozinho — falou. Ele ponderou, entretanto, que sua prioridade é tocar o mandato para o qual foi reeleito em primeiro turno e também disse que seus projetos serão guiados por uma “questão espiritual” e que Deus lhe mostrará “o caminho”.
— O que está no horizonte agora é honrar meu compromisso com São Paulo. É fazer um bom mandato, de entrega, de realização, que faça a diferença na vida das pessoas, que honre os compromissos.
Uma coisa que afasta o eleitor da política hoje é desonrar compromisso — disse, acrescentando que “2030 é outra conversa”.
O Globo