A campanha que reelegeu Lula com 51,79% dos votos válidos produziu um exercício de letramento algorítmico de massa. O canal Exército do Lula, criado pelo deputado federal mineiro André Janones no WhatsApp com cerca de 50 mil inscritos em abril, chegou a 10 milhões de seguidores em 23 de outubro, quando se tornou o 2º maior canal do aplicativo no país.
Janones distribuía missões com metas e pedia que a tropa compartilhasse publicações, comentasse vídeos, pesquisasse termos no Google e empurrasse hashtags no X ao mesmo tempo. Cada membro deveria convidar outras 4 pessoas.
Milhões de eleitores aprenderam na prática a produzir os sinais que os sistemas de recomendação leem como relevância. A linguagem militar e os áudios urgentes do “general” viraram meme fora do canal.
O letramento digital, tema que está no programa de governo de Lula, aconteceu em menos de 3 semanas e em escala de massa num terreno em que o PT sempre andou atrás. Lula não gostava de usar celular nem redes sociais e só trata com aliados pessoalmente ou por telefone.
Ainda assim, brincou durante a campanha que estava virando o “rei das selfies”. Nenhum candidato a presidente havia invertido o placar entre os dois turnos de uma eleição até Flávio Bolsonaro terminar o primeiro à frente e perder o segundo por uma diferença de mais de 4,4 milhões de votos.
A inversão aparece também nos dados de engajamento. Flávio liderou as interações em setembro e Lula virou a curva depois do primeiro turno, chegando a 9,9 milhões de interações em 7 de outubro.
A direita respondeu copiando o formato. A Tropa do Flávio, lançada pelo também deputado federal Nikolas Ferreira, tinha 1,9 milhão de inscritos quando o Exército do Lula passava dos 4,8 milhões.
O campo progressista passou a definir a forma da disputa no aplicativo que fora o principal reduto bolsonarista em 2018. A campanha também voltou às ruas.
Lula retomou a campanha de rua em Ceilândia em 9 de outubro e Janones resumiu o movimento dizendo que a militância ocupara a rua e passava a ocupar a internet. Para a reta final, Janones convocou uma transmissão de 24 horas programada para começar logo após o debate da TV Globo e terminar na véspera da votação.
A segunda lição foi tática. Em 2018 e 2022, boa parte da energia da esquerda nas redes foi gasta desmentindo pautas lançadas pelo bolsonarismo.
Desta vez, o canal fixou os temas e o adversário passou a responder. As missões concentraram fogo nos planos fiscais de Flávio e no risco de cortes em programas como Bolsa Família, Farmácia Popular e Pé-de-Meia.
A ofensiva teve custo judicial. O ministro André Mendonça, do TSE, mandou remover publicações de Janones e do deputado Lindbergh Farias sobre os supostos planos de Flávio.
Ainda assim, a campanha bolsonarista lançou um site para rebater justamente os assuntos que circulavam nas redes e passou a falar em “fábrica de fake news”. Em 13 de outubro, Flávio, que chamava de oportunista a PEC que acaba com a escala 6×1, anunciou voto favorável à proposta, recuo que Lula atribuiu às manifestações de rua e à mobilização da sociedade civil.
Entre 18 e 20 de outubro, termos indicados por Janones chegaram ao topo dos assuntos do X e apareceram como alta repentina no Google Trends, segundo a própria campanha de Flávio, que levou o caso ao TSE. Janones também descartou novos ataques que não moveriam o eleitor fiel do adversário e dirigiu as missões aos indecisos.
Para a pesquisadora Karolina Mattos Roeder, da Uninter, o modelo passou a pautar o debate em tempo quase real. Para avançar, esse letramento esbarra numa caixa-preta.
Nas redes sociais, a campanha denunciou queda de alcance nos perfis de Lula e a Meta atribuiu um dos episódios a uma falha global no Gerenciador de Anúncios provocada por atualização de código. Advogados da coligação apontaram ainda que a Meta AI gerava imagens associadas a Flávio e restringia pedidos sobre Lula.
Em 15 de outubro, o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Marco Aurélio Bellizze proibiu a empresa de reduzir alcance, excluir recomendações ou restringir buscas de forma desigual, sob multa de R$ 500 mil por dia. Também determinou que a Meta AI aplicasse critérios idênticos às duas candidaturas.
O plenário do TSE referendou a decisão por unanimidade no dia seguinte. A mesma decisão registrou que, até aquele momento, não havia prova de manipulação deliberada dos algoritmos, ausência que reflete a falta de acesso a eles.
A verificação do cumprimento depende de um relatório que a Meta prometeu entregar ao TSE 5 dias depois da votação. Na mesma semana, o canal de Janones foi suspenso 2 vezes em 3 dias por decisões monocráticas, contraste que analisei com colegas no JOTA.
A eleição produziu uma ordem de isonomia algorítmica sem nenhum mecanismo para verificá-la. Converter essa exceção em regra exige auditoria independente dos sistemas de recomendação e moderação durante todo o ciclo eleitoral, com acesso da área técnica do TSE e de pesquisadores credenciados aos parâmetros de distribuição.
Exige também registro público de qualquer alteração em filtros de IA generativa com efeito sobre conteúdo político, já que a Resolução 23.755/2026 proíbe que esses sistemas favoreçam candidaturas sem prever quem confere o cumprimento. O mesmo raciocínio alcança a moderação delegada, que hoje transfere às plataformas o juízo sobre o que seria equivalente a um conteúdo já proibido.
A virada correu inteira sobre a infraestrutura da empresa que a própria campanha acusou de desequilibrar o pleito. O WhatsApp chegou a sugerir a Tropa do Flávio a quem buscava o Exército do Lula, enquanto a busca inversa não devolvia canais ligados a Lula.
A competência digital que milhões de eleitores adquiriram continuará refém de regras definidas e alteradas sem aviso enquanto o país depender de relatórios de empresas estrangeiras para saber como seus cidadãos são vistos e ouvidos nas redes. Dar ao Estado brasileiro capacidade técnica de auditar os algoritmos que distribuem o debate público precisa entrar na agenda do Congresso que toma posse em 2027.
Auditoria reduz a opacidade sem reduzir a dependência. Enquanto a mobilização política do país circular apenas por aplicativos de controle estrangeiro, cada eleição continuará sujeita a regras de distribuição escritas fora do alcance da lei brasileira.
A Nova Indústria Brasil já aponta outro caminho. A Missão 4 da política industrial, dedicada à transformação digital, inclui entre suas prioridades o adensamento da cadeia de produtos e serviços digitais avançados, categoria que abrange plataformas digitais e serviços de nuvem.
Coreia do Sul, China e Rússia sustentam ecossistemas próprios de mensageria, busca e redes sociais. O Brasil mostrou com o Pix que uma infraestrutura digital desenhada pelo Estado ganha escala nacional em poucos anos.
Levar essa diretriz da NIB às plataformas de comunicação, com financiamento, compras públicas e regras de interoperabilidade, daria à mobilização social um terreno cujas regras o país conhece e pode fiscalizar.
Brasil 247