Ninguém vai ao Festival de Cannes para ficar desanimado. Mas a edição deste ano pareceu tranquila até o penúltimo dia, quando os diretores espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi chegaram ao Sul da França com “A bola preta”. Uma epopeia de um século, entrelaçando as vidas de três homens gays na Espanha, “A bola preta” foi um sucesso em sua estreia, conquistando uma ovação de pé de 20 minutos, uma das mais longas da história do festival. — O que poderíamos fazer para prolongá-la? — brincou Calvo. — Uma revelação de peruca? Dois dias depois, pouco antes de Ambrossi e Calvo receberem o prêmio de melhor direção (dividido com o cineasta de “Pátria”, Pawel Pawlikowski), a Netflix venceu a disputa pelos direitos de distribuição de “A bola preta” nos Estados Unidos. O filme será relançado em festivais antes de sua estreia nos cinemas em 16 de outubro, onde ficará por 46 dias — o maior período já concedido pela plataforma (o filme vai abrir o Festival do Rio, em outubro). Com elementos de produção superlativos que o tornam um candidato a dezenas de indicações ao Oscar, alguns esperam que a Netflix faça do filme um concorrente de “A Odisseia”, de Christopher Nolan. Cena de 'A bola negra' Divulgação — Vamos ter nosso próprio “Barbenheimer”? — brincou Calvo recentemente, enquanto comia batatas fritas no Chateau Marmont, em West Hollywood. — Como você chamaria, “Bolasseia?” — perguntou Ambrossi. Inspirado em um conto inacabado de Federico García Lorca, “A bola preta” começa em 1937, quando Sebastián, trompetista recrutado pelos fascistas na Guerra Civil Espanhola, apaixona-se por um combatente capturado, Rafael. A história se entrelaça com outras duas: em 1932, o reservado Carlos teme a rejeição da elite da cidade com os rumores sobre sua sexualidade, e em 2017, um escritor sem rumo, Alberto, descobre uma herança que o conecta a Sebastián e Carlos. Embora “A bola preta” seja um épico clássico, tem sensibilidade moderna: uma transição divertida do passado devastado pela guerra para o presente mundano é sinalizada por uma notificação do Grindr. Ainda assim, é revigorante ver histórias gays, frequentemente confinadas a filmes independentes intimistas, em uma escala tão vasta. Os diretores disseram que fizeram “A bola preta” com menos de US$ 15 milhões. Se Hollywood fosse produzir um drama de tamanha escala, com seus detalhes de época e sequências de guerra, custaria ao menos US$ 100 milhões. É por isso que jamais o faria. Cena de 'A bola negra' Divulgação Talvez ninguém mais pudesse ter feito. Em um período curto, Ambrossi e Calvo se tornaram os autores gays mais celebrados da Espanha desde Pedro Almodóvar, produtor associado de “A bola preta”. Conhecidos por escrever e dirigir séries de TV premiadas como “Veneno”, sobre uma trabalhadora sexual trans, a dupla também ficou famosa por seu longo romance, exibido em reality shows e nas redes sociais. O país passou a vê-los como uma única persona pública, chamada de Los Javis. Na estreia de “A bola preta” em Cannes, eles formavam uma dupla coordenada, cada um com smoking Armani, bronzeados e de cachos escuros e despenteados. Quando os conheci em agosto, suas diferenças eram mais claras: Ambrossi, de 42 anos, tinha o rosto delicado e a personalidade agradável, e Calvo, de 35 anos, era o introspectivo. Nos Estados Unidos, o público LGBTQIA+ mais antenado talvez os conheça como jurados da versão espanhola de “RuPaul’s Drag Race”. Mas Hollywood começou a perceber o talento dos dois: depois de ver a série de suspense religioso de 2023 “La Mesías”, Glenn Close os convidou para dirigi-la em uma adaptação cinematográfica do musical “Sunset Boulevard”. Eles passaram uma semana ouvindo a trilha, disse Calvo. — É linda. Mas não posso fazer um remake de Billy Wilder, é contra minha religião. Mesmo assim, Close se apaixonou por eles. — No minuto em que entraram pela porta — conta. — São lindos, para começar. Mas têm uma luz interior, uma sensação de alegria, possibilidade e entusiasmo. Cena de 'A bola negra' Divulgação Embora o elenco de “A bola preta” seja principalmente de jovens espanhóis desconhecidos do público americano, Ambrossi e Calvo encontraram espaço para uma participação de Close e adicionaram Penélope Cruz, que faz uma cantora de cabaré. Cruz disse que sabia desde o início que o filme seria melhor, por causa de sua ligação com Los Javis. — Sem querer dar sermão, o filme chega em um momento em que é essencial — opina Cruz. Há alguns anos, Calvo folheava a peça “La Piedra Oscura”, que inspiraria a história de Sebastián e Rafael no filme, e caiu em lágrimas. — Ela toca em uma ferida escondida que temos ignorado — analisa Calvo. — Somos tão egocêntricos que não pensamos no que nossos avós viveram, nos segredos que guardaram, amores que perderam. E ainda mais nos nossos avós gays. ‘Pequeno soldado gay’ Calvo passou a peça a Ambrossi, que imaginou a maior adaptação possível. — Não sei por quê, já que a peça é tão pequena — admitiu Ambrossi. Calvo teve uma inspiração semelhante: — Fazer o filme de guerra que os heterossexuais sonham em fazer, com esse pequeno soldado gay. Ambrossi e Calvo planejaram uma filmagem de 12 semanas, que usou principalmente computação gráfica em vez de locações reais pela Espanha, rodando às vezes sob chuva e neve. Close interpretou grande parte de seu papel em espanhol, que nunca havia falado. A atriz passou meses em aulas intensivas: — Você só quer estar lá por eles, e se acreditam que você consegue, você consegue. A capacidade de trazer algo pessoal a circunstâncias tão intensas é fundamental para Ambrossi e Calvo, que incluem em seus elencos estreantes como Guitarricadelafuente, um popular cantor e compositor, que interpreta Sebastián. — Tentamos levá-los a uma jornada maluca onde se desvinculam da realidade e, de repente, estão na ficção — detalha Ambrossi. Cena de 'A bola negra' Divulgação Na parte de 2017, Alberto (Carlos González) divide um apartamento com Juan Pablo (o comediante Julio Torres) e a natureza do relacionamento é difícil de definir. Há afeto, mas uma distância palpável. A ambiguidade era proposital: Calvo e Ambrossi escreveram a incerteza do casal para refletir as dúvidas que começaram a sentir sobre o próprio relacionamento. — Fazer isso abriu uma porta que precisávamos encarar: não estávamos mais apaixonados — admitiu Ambrossi. O relacionamento havia chegado ao fim, embora ambos tivessem medo de admitir. Eram o casal gay mais famoso da Espanha, e um término poderia pôr em risco tudo que haviam construído. Depois de rodarem uma cena em que um personagem declara sua paixão, perceberam que havia acabado. — Quando você tenta pôr o amor verdadeiro diante de uma câmera, de repente percebe que não sente mais — concluiu Ambrossi. Surgiram rumores de que Los Javis haviam reatado após Cannes. Especulação parcialmente verdadeira: a experiência no festival foi tão marcante que se comprometeram novamente a trabalhar juntos. — O estranho é sermos namorados que trabalham juntos — disse Calvo. — O normal é o contrário, não é?
Notícias
Sensação de Cannes e cotado para o Oscar, 'A bola preta' tem direção de casal que rompeu, mas quer manter parceria; entenda
Fonte da notícia:
O Globo
O Globo
Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?
Acessar matéria no site O Globo