'Sensação de ansiedade': Oriente Médio teme retomada da guerra entre EUA e Irã após eleições de meio de mandato

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, moradores de diferentes países do Oriente Médio vivem um clima de ansiedade diante da possibilidade de retomada da guerra entre Washington e Teerã, iniciada em fevereiro. Oito meses depois, os dois países permanecem em um impasse militar e diplomático, enquanto o presidente americano, Donald Trump, alterna ameaças de novos ataques e sinais de abertura para uma solução negociada.

Embora tenha descartado uma ofensiva antes da votação de terça-feira, Trump não esclareceu quais serão os próximos passos de seu governo depois das eleições, alimentando a apreensão na região. Contexto: Irã propõe reabrir Ormuz em dois dias se EUA aceitarem demandas

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Em países árabes do Golfo, a incerteza já interfere na rotina de moradores, empresas e instituições. Há quem esteja antecipando viagens, enquanto escolas e escritórios adotam medidas preventivas diante do temor de novos ataques e de possíveis interrupções no transporte aéreo.

A preocupação também é alimentada por relatos de deslocamento de tropas americanas para a região e pela saída discreta de familiares de diplomatas dos EUA. — O clima definitivamente mudou.

As pessoas estão, de modo geral, mais cautelosas, e parece que estamos esperando para ver o que vai acontecer — disse à emissora CNN uma americana de 36 anos, que mora na Arábia Saudita e planeja deixar o país antes das eleições de meio de mandato. Trump tem dado poucos sinais sobre os objetivos de Washington no conflito com o Irã.

A indefinição foi reforçada no sábado, quando o presidente conversou por telefone com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. O conteúdo da ligação não foi divulgado, mas o site de notícias americano Axios, que noticiou o contato inicialmente, informou que a conversa tratou do Irã.

Questionado no domingo, o republicano não deu detalhes e afirmou apenas que teve uma "conversa muito boa" com o premier. Para Hasan Alhasan, pesquisador sênior de política para o Oriente Médio do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês), a postura americana contribui para ampliar a insegurança entre os países da região.

— Os EUA têm alimentado ativamente essa sensação de ansiedade em toda a região ao continuar dando sinais de que uma nova rodada de escalada pode estar próxima. Mas está ficando difícil distinguir táticas de pressão de sinais genuínos — afirmou à CNN.

Entenda: Democratas se mobilizam nos EUA diante do risco de Trump contestar resultados das eleições de meio de mandato A permanência de Netanyahu no poder também é vista como um fator de preocupação.

Aliado de Washington na ofensiva contra o Irã e defensor de novos ataques, o premier continuará no cargo apesar de ter perdido a maioria nas eleições recentes. As negociações para a formação de um novo governo devem começar efetivamente na próxima semana, mas os resultados eleitorais indicam que a oposição terá dificuldades para afastá-lo rapidamente.

Ameaças e preparativos militares Sem informações claras sobre os próximos movimentos dos governos, moradores acompanham rumores e publicações nas redes sociais para avaliar se uma nova ofensiva está próxima.

Do lado iraniano, comandantes militares intensificaram, ao longo do último mês, declarações públicas sobre o acúmulo de grandes estoques de novos armamentos. A estratégia busca demonstrar capacidade de resposta e aumentar o custo de uma eventual ofensiva para os EUA e seus aliados na região.

Veja também: Arábia Saudita ataca porto e petroleira no Iêmen, dizem houthis; pelo menos sete ficaram feridos Um alto funcionário da área de segurança em Teerã disse à CNN que, em caso de retomada do conflito, o Irã poderá ampliar seus alvos para além das instalações petrolíferas, atingindo também infraestruturas ligadas à inteligência artificial.

No sábado, o líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, também ordenou uma resposta "sem limitações geográficas" a qualquer nova ameaça. A declaração foi interpretada como uma tentativa de demonstrar que o dirigente, que ainda não apareceu em público desde que assumiu o posto, participa ativamente dos preparativos militares.

A perspectiva de uma nova escalada preocupa especialmente os estrangeiros que vivem nos países árabes do Golfo. Atraídos por oportunidades profissionais e por um estilo de vida sem impostos, trabalhadores de diferentes nacionalidades encontraram durante décadas relativa estabilidade na região, apesar dos conflitos que marcam o Oriente Médio.

Eleições EUA: Democratas demonstram força nos últimos dias de corrida para o Senado, revelam novas pesquisas Essa sensação de segurança, porém, foi abalada em 28 de fevereiro, quando EUA e Israel iniciaram os ataques contra a República Islâmica.

Em resposta, Teerã lançou uma série sem precedentes de mísseis balísticos e drones contra cidades árabes, provocando mortes e feridos, além de interrupções em escolas, viagens e atividades comerciais. Moradores que decidiram permanecer na região apesar dos ataques, confiantes na proteção oferecida pelas forças militares locais, agora temem que a rotina volte a ser afetada.

— Estou tentando ativamente não pensar na possibilidade de isso acontecer novamente, porque realmente não quero passar por outro inverno com ataques — relatou à CNN Michelle, uma americana de 36 anos que mora em Abu Dhabi. Oriente Médio: Quatro petroleiros explodem ao tentar cruzar Ormuz ilegalmente, diz Irã; 25 são resgatados de navio em chamas

Neste mês, as partidas de familiares de diplomatas americanos, que só se tornaram conhecidas quando os filhos desses funcionários começaram a se despedir dos colegas nas escolas, chamaram a atenção de moradores. Muitos dos que estão deixando a região haviam retornado recentemente a seus postos, depois de terem recebido ordens para sair durante o auge da guerra, em março.

A apreensão também aumentou após relatos da agência de notícias Associated Press (AP) sobre o envio de milhares de soldados americanos para o Oriente Médio. Líder da Igreja Católica: Leão XIV vota pelo correio nas eleições de meio de mandato dos EUA, na primeira participação conhecida de um Pontífice em um pleito democrático

Na Arábia Saudita, onde os rebeldes houthis, aliados do Irã, intensificaram seus ataques, grandes eventos já foram cancelados e escritórios passaram a funcionar remotamente. Moradores ouvidos pela CNN disseram temer que uma retomada da guerra aumente a pressão sobre o país, que já enfrenta um conflito em sua fronteira sul.

— Meus vizinhos e amigos estão se preparando para passar novembro em estado de alerta, mas começam a ficar preocupados com possíveis interrupções nos voos durante as festas de fim de ano — afirmou uma americana de 36 anos que vive no país, comparando o clima atual ao da pandemia de Covid-19.

— Muitos escritórios passaram a funcionar virtualmente ou reduziram o número de funcionários, e o ensino remoto foi implementado. Em outros pontos do Golfo, eventos internacionais seguem previstos, embora a possibilidade de novos ataques americanos represente um risco para a programação.

Ex-presidente argentina: Cristina Kirchner aposta em derrota de Trump nas eleições nos EUA e retorno de onda progressista Em Abu Dhabi, onde não há registro de ataques desde maio, duas empresas petrolíferas americanas cancelaram os planos de enviar executivos a uma das maiores conferências do setor na região, alegando preocupações com a segurança, informou a agência Reuters.

O evento, porém, será realizado na próxima semana conforme o previsto. No Bahrein, um dos países mais atingidos pelos ataques iranianos neste ano, os efeitos psicológicos da guerra continuam presentes, segundo relatos de moradores à CNN.

— O trauma ainda está presente. Quando você ouve os bombardeios, é como se sentisse aquilo no coração, e fica difícil dormir à noite, especialmente quando há explosões do lado de fora — contou Fawaz, de 21 anos.

Negociações continuam Os últimos dias também foram marcados por uma movimentação diplomática discreta.

Washington e Teerã mantêm contatos diretos e indiretos, com a participação de intermediários, embora ainda não haja sinais de um acordo próximo. Segundo a imprensa iraniana, o vice-presidente americano, JD Vance, enviou uma carta a Mohsen Rezaei, principal autoridade de segurança do país, que está sendo analisada pela nação persa.

Trump afirmou que a correspondência estava relacionada a um pedido iraniano de suprimentos médicos. A iniciativa, contudo, reacendeu expectativas de que uma saída diplomática ainda possa ser alcançada.

'Preferem culpar a vítima': Marinheiro que saltou de porta-aviões americano após meses de exaustão é punido pela Marinha Autoridades do Irã também estão no Catar para participar de conversas, segundo um funcionário do governo catariano.

O país tem desempenhado um papel importante nos esforços de mediação, mas o representante afirmou que não havia uma delegação americana presente no sábado. Em entrevista à CNN, Tom Barrack, embaixador dos EUA na Turquia e enviado especial americano para a Síria e o Iraque, demonstrou otimismo quanto à possibilidade de avanços nas próximas semanas.

Ele afirmou acreditar que medidas "drásticas" poderão ser tomadas em até duas semanas. — Estamos perto.

Acho que estamos muito perto de chegar a um ponto em que finalmente poderemos dizer: vamos fazer apenas uma pausa — afirmou Barrack. Ele ponderou, porém, que o avanço depende de "confiança e de quem dará o primeiro passo".

Entrevista: 'Brasil virou exemplo de como barrar a extrema direita', diz professor de Relações Internacionais O secretário de Estado americano, Marco Rubio, também afirmou no sábado que Washington continua aberto a uma solução negociada.

Questionado pela CNN sobre a existência de um prazo para que as negociações avancem antes de uma eventual retomada das operações militares, ele disse não saber se há uma data-limite e ressaltou que a decisão caberá a Trump. — As conversas, na verdade, nunca foram interrompidas.

Existem diálogos ativos em andamento, em alguns casos diretamente, mas frequentemente por meio de intermediários — afirmou durante uma coletiva em Atlanta. Rubio ressaltou que a preferência do presidente americano é resolver conflitos por meios diplomáticos e pacíficos, sempre que possível, mas reconheceu que nem todas as disputas internacionais podem ser solucionadas dessa maneira.

Ele ainda afirmou que qualquer acordo com Teerã deverá preservar a segurança nacional americana e atender às principais preocupações de Washington, sobretudo em relação ao programa nuclear iraniano. Do lado iraniano, autoridades afirmam estar abertas ao diálogo, mas demonstram desconfiança quanto à possibilidade de que as negociações impeçam novos ataques.

Para justificar a posição, citam episódios anteriores em que o país foi alvo de ofensivas militares enquanto participava de conversas diplomáticas. Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e responsável por liderar as negociações com os EUA, afirmou que Teerã não pretende ceder às pressões americanas.

— As condições do Irã foram reiteradas e claramente apresentadas aos mediadores. A abordagem de oferecer recompensas e ameaçar com punições não tem efeito sobre o Irã.

Só será possível avançar quando as sete condições iranianas forem aceitas — declarou.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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